Uma Playlist pra Ouvir a Semana Toda
Uma Playlist pra Ouvir a Semana Toda
Uma boa semana de blues pode começar em Chicago, atravessar o Mississippi, passar pelo Alabama, chegar ao Texas e terminar na estrada. Esta seleção reúne sete álbuns lançados entre 1965 e 2021 que, cada um à sua maneira, ajudaram a deslocar o blues de lugar. São discos que preservam uma tradição, mas também registram momentos em que seus autores decidiram empurrar a música para frente.
Não é uma lista dos “melhores álbuns de blues de todos os tempos”. A proposta é outra: montar uma semana de escuta a partir de sete discos que representam momentos decisivos nas trajetórias de Junior Wells, Albert King, Robert Cray, Stevie Ray Vaughan, Gary Clark Jr., Samantha Fish e Tommy Castro.
Sete dias. Sete discos. Sete maneiras diferentes de entender por que o blues continua se reinventando.
Segunda-feira — Junior Wells: Hoodoo Man Blues (1965)
A semana começa onde o blues elétrico de Chicago parece respirar dentro de uma pequena sala. Hoodoo Man Blues, lançado pela Delmark em novembro de 1965, foi o primeiro álbum de Junior Wells para a gravadora e colocou ao seu lado um guitarrista que se tornaria seu parceiro musical por décadas: Buddy Guy.
Gravado em 22 e 23 de setembro de 1965, no Sound Studios, em Chicago, o álbum nasceu de uma ideia que hoje parece simples, mas que naquele momento era praticamente revolucionária: registrar uma banda de blues em formato de LP com a liberdade de tocar como tocava no palco, sem a obrigação de produzir uma sequência de singles de aproximadamente três minutos.
O resultado preservou algo que muitos discos de estúdio perdiam: a sensação de uma banda trabalhando junta. Junior Wells canta e toca sua harmônica com aquela autoridade áspera e econômica, enquanto Buddy Guy coloca fogo nas seis cordas. Jack Myers e Billy Warren completam a formação.
A própria Delmark considera Hoodoo Man Blues seu álbum mais vendido e destaca seu papel na popularização do blues de Chicago. O disco também entrou para o Grammy Hall of Fame.
Mais do que um grande disco de blues, Hoodoo Man Blues ajudou a mostrar que o blues de Chicago podia ocupar um LP inteiro sem perder sua força de clube. O estúdio deixou de ser apenas o lugar onde se fabricavam singles e passou a funcionar como extensão do palco.
Para ouvir na segunda: Snatch It Back and Hold It
Terça-feira — Albert King: Lovejoy (1971)
Albert King já havia estabelecido sua assinatura na Stax quando chegou a Lovejoy. O guitarrista de voz grave e uma das mais reconhecíveis abordagens de guitarra do blues gravou o álbum entre dezembro de 1970 e janeiro de 1971, em sessões divididas entre Hollywood e Muscle Shoals.
Essa geografia é fundamental para entender o disco.
Parte das gravações aconteceu no Muscle Shoals Sound Studio, no Alabama, com integrantes da célebre Muscle Shoals Rhythm Section. Cinco das nove faixas contam com a participação desses músicos. Outras foram registradas em Hollywood, com nomes como Jesse Ed Davis e Jim Keltner.
Essa combinação dá a Lovejoy uma textura diferente. Albert continua sendo Albert King, com sua guitarra pesada, seu fraseado econômico e aqueles bends que parecem dobrar as notas até quase quebrá-las, mas o ambiente musical ao redor se abre para o soul, o R&B e o rock.
O próprio conceito do álbum revela essa intenção. A gravadora descreve Lovejoy como uma das tentativas mais completas de King de aproximar o blues do rock e das sonoridades contemporâneas. O repertório inclui versões de Honky Tonk Women, dos Rolling Stones, e She Caught the Katy and Left Me a Mule to Ride, de Taj Mahal.
É um daqueles discos em que a tradição não aparece como fronteira, mas como ponto de partida. Albert King leva o blues para dentro do soul sulista e deixa que a música encontre novas cores no caminho.
Para ouvir na terça: Lovejoy, Ill.
Quarta-feira — Robert Cray: Strong Persuader (1986)
Quando Strong Persuader chegou às lojas em novembro de 1986, Robert Cray já tinha três álbuns no currículo. O que mudou a partir dali foi a dimensão de sua carreira.
Produzido por Bruce Bromberg e Dennis Walker e lançado pela Mercury, o disco colocou Cray diante de um público muito maior sem exigir que ele abandonasse o blues. Pelo contrário: a força de Strong Persuader está justamente na maneira como o guitarrista aproxima blues, soul e R&B de uma produção sofisticada, limpa e contemporânea.
Smoking Gun tornou-se o grande cartão de visitas do álbum, enquanto Right Next Door (Because of Me) mostrou que Cray também sabia transformar o blues em narrativa urbana, com personagens, conflitos e uma tensão emocional que passa tanto pela voz quanto pela guitarra.
O disco foi o verdadeiro salto comercial de sua carreira e recebeu o Grammy de Melhor Álbum de Blues Contemporâneo em 1988. A premiação confirmou algo que o próprio álbum já deixava evidente: o blues podia voltar ao centro da música popular sem precisar vestir uma fantasia de passado.
Strong Persuader é elegante sem ser comportado. Robert Cray não tenta parecer um bluesman de outra época. Ele simplesmente leva o blues consigo para o presente.
Para ouvir na quarta: Smoking Gun
Quinta-feira — Stevie Ray Vaughan & Double Trouble: In Step (1989)
Há uma história pessoal muito forte por trás de In Step. O álbum, lançado em 6 de junho de 1989, representa a retomada de Stevie Ray Vaughan depois de um período extremamente difícil em sua vida. É também o último álbum de estúdio lançado durante sua vida com a formação clássica do Double Trouble.
Musicalmente, o disco encontra Vaughan em estado de maturidade. A guitarra continua incendiária, mas existe mais espaço entre as notas, mais cuidado nos arranjos e uma compreensão ainda mais profunda de como fazer força sem transformar tudo em velocidade.
The House Is Rockin', Crossfire, Tightrope e Wall of Denial mostram diferentes lados desse momento. A banda — com Chris Layton e Tommy Shannon, além de Reese Wynans nos teclados — oferece a Vaughan uma moldura ampla para que ele possa ser simultaneamente bluesman, guitarrista de rock e intérprete de uma tradição que nunca tratou como peça de museu.
In Step ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Blues Contemporâneo em 1990. Mais importante ainda, consolidou Vaughan como uma das figuras centrais da recuperação do blues elétrico na década de 1980 e mostrou que seu caminho não terminaria na explosão de Texas Flood.
Se Texas Flood apresentou um guitarrista pronto para incendiar o mundo, In Step apresentou um músico que havia aprendido a controlar o fogo.
Para ouvir na quinta: Tightrope
Sexta-feira — Gary Clark Jr.: Blak and Blu (2012)
Gary Clark Jr. chegou a Blak and Blu carregando uma expectativa enorme. Depois de chamar atenção em Austin e conquistar espaço com trabalhos anteriores, o guitarrista transformou o álbum em sua estreia por uma grande gravadora.
Lançado em 22 de outubro de 2012 pela Warner Bros., o disco entrou diretamente no território onde o blues começa a conversar com outras gerações. Soul, funk, R&B, rock psicodélico e hip-hop aparecem ao lado de guitarras profundamente enraizadas no blues.
O resultado não é uniforme — e justamente por isso é importante. Clark não parece interessado em provar que consegue tocar blues tradicional durante cinquenta minutos. Ele quer descobrir até onde sua linguagem pode chegar sem perder o vínculo com a música que o formou.
When My Train Pulls In traz o guitarrista em seu terreno mais explosivo. Ain't Messin' Round abre espaço para metais e soul. Numb mergulha em uma sonoridade mais pesada. E Third Stone From the Sun, de Jimi Hendrix, transforma a tradição psicodélica em uma ponte direta entre gerações.
Blak and Blu alcançou o sexto lugar da Billboard 200 e ajudou a colocar Gary Clark Jr. no centro de uma nova geração de músicos que recusavam a ideia de que o blues precisava soar como uma fotografia antiga.
O ponto de virada está justamente aí: Gary Clark Jr. não tenta salvar o blues. Ele o trata como uma linguagem viva.
Para ouvir na sexta: When My Train Pulls In
Sábado — Samantha Fish: Faster (2021)
O sábado pede volume. Faster, lançado em 10 de setembro de 2021 pela Rounder Records, mostra Samantha Fish deliberadamente ampliando o espaço entre o blues que a revelou e o rock que sempre esteve presente em sua música.
Produzido em parceria com Martin Kierszenbaum, o álbum reúne Fish ao baterista Josh Freese e ao baixista Diego Navaira. O resultado é mais direto, elétrico e contemporâneo, com uma produção que coloca a guitarra no centro de uma paisagem sonora muito maior.
A faixa-título, Faster, já anuncia a mudança. Twisted Ambition mergulha em uma combinação de rock e soul, enquanto Loud, com participação de Tech N9ne, rompe de maneira explícita com a ideia de que uma artista de blues deve permanecer dentro de um determinado vocabulário.
Esse é um ponto importante na trajetória de Samantha Fish. Ela não abandona o blues. O que faz é ampliar a moldura. A guitarra continua sendo a origem de tudo, mas agora pode conviver com produção pop, rock pesado, soul, hip-hop e texturas eletrônicas.
Faster é, portanto, um disco de movimento. E talvez seja justamente essa palavra que melhor defina Samantha Fish naquele momento: movimento para frente, sem apagar o caminho percorrido.
Para ouvir no sábado: Faster
Domingo — Tommy Castro: A Bluesman Came to Town (2021)
Para fechar a semana, Tommy Castro conta uma história. A Bluesman Came to Town, lançado pela Alligator Records em 17 de setembro de 2021, é construído como uma narrativa sobre um jovem músico que descobre o blues e decide seguir a estrada.
Essa escolha transforma o álbum em algo maior que uma coleção de canções. Castro usa sua própria experiência de décadas como guitarrista, cantor e artista de estrada para construir uma espécie de romance musical sobre o nascimento de um bluesman.
Com The Painkillers — Randy McDonald no baixo, Bowen Brown na bateria e Michael Emerson nos teclados — Castro alterna rock de estrada, soul, blues e grooves que parecem nascer diretamente de um palco de bar.
A força do disco foi reconhecida rapidamente. A Bluesman Came To Town estreou em segundo lugar na Billboard Blues Chart e, no ano seguinte, recebeu um dos maiores reconhecimentos possíveis dentro do universo do blues: Tommy Castro ganhou três Blues Music Awards, incluindo Álbum do Ano, Artista do Ano e, ao lado dos Painkillers, Banda do Ano.
É um encerramento perfeito para esta semana porque Castro entende o blues como estrada. Uma música que chega de algum lugar, encontra alguém disposto a ouvi-la e segue viagem carregando novas histórias.
Para ouvir no domingo: A Bluesman Came to Town
Sete discos, uma semana, muitas formas de blues
Ouvir esses sete álbuns em sequência é também atravessar mais de cinco décadas de história.
Junior Wells mostra o blues de Chicago encontrando no LP um espaço para respirar. Albert King leva sua guitarra do Mississippi para o território do soul e do rock. Robert Cray transforma o blues em linguagem urbana e contemporânea. Stevie Ray Vaughan chega ao fim dos anos 1980 com maturidade, intensidade e uma nova relação com sua própria música.
Depois, Gary Clark Jr. abre as portas para uma geração que cresceu ouvindo blues, rock, hip-hop e soul ao mesmo tempo. Samantha Fish mostra que o blues pode ganhar novas camadas sem perder sua pulsação. E Tommy Castro transforma a própria estrada do blues em narrativa.
São sete discos diferentes porque o blues nunca foi uma música parada.
Talvez essa seja a melhor maneira de ouvir esta playlist: não como uma linha do tempo rígida, mas como uma conversa entre músicos separados por décadas e unidos pela mesma necessidade de transformar experiência em som.
O blues muda quando muda a vida ao redor dele. E esses sete álbuns registram exatamente isso.
Playlist para ouvir a semana toda
Segunda-feira — Junior Wells' Chicago Blues Band — Snatch It Back and Hold It — Hoodoo Man Blues (1965)
Terça-feira — Albert King — Lovejoy, Ill. — Lovejoy (1971)
Quarta-feira — Robert Cray — Smoking Gun — Strong Persuader (1986)
Quinta-feira — Stevie Ray Vaughan & Double Trouble — Tightrope — In Step (1989)
Sexta-feira — Gary Clark Jr. — When My Train Pulls In — Blak and Blu (2012)
Sábado — Samantha Fish — Faster — Faster (2021)
Domingo — Tommy Castro — A Bluesman Came to Town — A Bluesman Came to Town (2021)
Sete dias. Comece em Chicago, passe por Muscle Shoals, atravesse Los Angeles, Austin e a estrada. Quando a semana terminar, talvez fique a sensação de que o blues não passou por cinco décadas. Foi a mesma música aprendendo sete maneiras diferentes de continuar viva.








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