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Jean-Jacques Milteau: o blues com com ares e sopro europeu

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Jean-Jacques Milteau:  o blues com ares e sopro europeu Jean-Jacques Milteau , nascido em 1950, em Paris, é um gaitista cuja elegância sonora atravessa décadas, geografias e fronteiras, costurando o blues americano com a sensibilidade europeia. Ao longo de mais de quarenta anos de carreira, Milteau construiu uma obra que não se contenta com o rótulo do “blues tradicional”, ainda que o reverencie. Seu timbre, límpido e emotivo, tornou-se assinatura. Sua discografia, vasta e curiosa, revela um artista que nunca buscou apenas repetir fórmulas — mas reinventá-las. Início de vida e a descoberta da harmônica A história de Milteau se mistura com a história do blues europeu pós-guerra. Ainda jovem, descobriu a harmônica através dos discos que chegavam da América: Little Walter, Sonny Boy Williamson II, Jimmy Reed, Paul Butterfield . O instrumento pequeno, portátil, anônimo, tornou-se para ele mais que um objeto — virou uma lente para ver o mundo. Nos anos 1970, começou a acompa...

Leo “Bud” Welch: a voz tardia que veio do coração do Mississippi

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Leo “Bud” Welch: a voz tardia que veio do coração do Mississippi Foto: Alysse Gafkjen Por muito tempo, Leo “Bud” Welch foi o segredo bem guardado das igrejas, dos “juke joints” e das estradas de terra do Mississippi. Só quando já passava dos 80 anos sua voz — áspera, sincera e cheia de fé — alcançou o mundo. Este é um retrato daquele que provou, com humildade, que o blues não tem idade. Raízes: fé, trabalho e música nas veias Nasceu em 1932, em Sabougla, Mississippi — um lugar onde o gospel e o blues crescem lado a lado. Filho da terra e do trabalho manual, Welch aprendeu cedo que a música era tanto salvação quanto companhia nas horas difíceis. Tocava violão, gaita e violino; cantava nas igrejas; acompanhava as dores e as pequenas alegrias de sua comunidade. A música, para ele, nunca foi palco: foi necessidade. Cresceu longe do glamour, com as mãos calejadas do trabalho e a voz moldada pela oração e pela noite. Anos de anonimato e a vida comum Durante décadas, Leo viveu como muit...

RMB: Blues Rock com alma e sangue novo

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RMB: Blues Rock com alma e sangue novo Além dos clássicos estamos sempre atrás de novidades , e é nessa busca que às vezes se encontra uma música que atravessa o ruído cotidiano e insiste em ficar. O trabalho do trio RMB — formado por Randell (voz e guitarra), José (baixo) e Soto (bateria) — é uma dessas gratas surpresas: um som de pulso rítmico, alma em pedaços e certa urgência moderna que conversa com a tradição do blues sem se curvar a fórmulas gastas. Quem são e de onde vem o som RMB surge como um trio de raízes simples: amigos que tocaram juntos em noites de open mic, encontraram afinidade e decidiram transformar a intimidade de pequenos palcos em projeto sério. O nome, que remete ao espírito do grupo — uma sigla que muitos interpretam como “Rocking Mostly Blues” — anuncia desde o primeiro acorde uma atitude honesta: o blues como motor, o rock como força e a liberdade de buscar outras cores sonoras quando necessário. Na formação enxuta — Randell na voz e na guitarra, José no baix...

Jimmy Smith: o Hammond B-3 do jazz ao blues

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Jimmy Smith: o  Hammond B-3 do jazz ao blues Houve um tempo em que o jazz parecia ter encontrado todas as suas vozes. Trompetes que falavam como gente, saxofones que choravam como crianças, pianos que corriam como rios. E então surgiu um instrumento que mudaria tudo: o Hammond B-3. E, junto dele, um músico capaz de transformá-lo em um ser vivo — Jimmy Smith , o mestre absoluto das teclas giratórias, o homem que fez o jazz vibrar com intensidade elétrica e alma profunda. Mais do que um instrumentista virtuoso, Smith se tornou a própria gramática do órgão no jazz. Tudo o que veio depois dele — no soul-jazz, no blues, no funk, no R&B — ecoa seu toque, seu ataque rítmico, sua construção harmoniosa e sua capacidade de fazer um trio soar como uma big band. Da Filadélfia para o mundo: um talento em expansão Nascido em 8 de dezembro de 1925, na Filadélfia, Jimmy Smith cresceu em um ambiente musical doméstico, ouvindo seu pai tocar piano e absorvendo gospel desde cedo. Começou...

Blind John Davis: um pianista com swing e profundidade

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Blind John Davis: um pianista com swing e profundidade  Blind John Davis tocava seu piano de maneira elegante, às vezes jazzística, com som robusto e cheio de balanço. Sua presença silenciosa moldou o som de Chicago muito antes de o mundo entender o tamanho de seu talento. Nascido em Hattiesburg, Mississippi, em 1913, e ainda criança levado para a efervescente Chicago, Davis cresceu justamente no ponto em que a tradição do sul encontrava o novo blues urbano. Foi ali, entre os becos, salões e clubes da cidade, que ele depurou seu estilo: um toque limpo, articulado, com forte acentuação rítmica e uma elegância singular, capaz de elevar qualquer gravação. Os anos mágicos de estúdio: 1937 a 1942 Entre 1937 e 1942 , Blind John Davis viveu uma fase decisiva. Sua técnica refinada e seu senso de acompanhamento impecável o tornaram um dos pianistas mais requisitados da época. Gravou com Big Bill Broonzy, Sonny Boy Williamson I, Tampa Red, Lonnie Johnson, Honeyboy Edwa...

Jackie Venson: uma guitarrista da nova geração

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Jackie Venson: uma guitarrista da nova geração  Jackie Venson é uma artista que atravessa gêneros com a segurança de quem já caminhou por muitos palcos. Cantora, compositora e guitarrista, sua trajetória reúne técnica, sentimento e uma relação íntima com as raízes do blues — tanto no estúdio quanto, sobretudo, na intensidade das performances ao vivo. Love Transcends, de 2021,  talvezcseja o registro que melhor expõe sua faceta mais próxima do blues. Origens e primeiros passos Nascida com a música correndo nas veias, Jackie cedo se interessou pela guitarra e pela voz como meios de expressão. Sua formação conecta o vigor do aprendizado técnico com o ouvido para o groove — uma combinação que a colocaria rapidamente sob os olhos dos entusiastas do blues e do soul contemporâneos. Como muitos artistas que encontram no blues uma casa, sua formação não foi apenas acadêmica: foi prática, de palco, em clubes e festivais, onde aprendeu a dosar o fraseado, a respirar entre uma estr...

Rod Piazza: o sopro que acendeu o West Coast Blues

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Rod Piazza: o sopro que acendeu o West Coast Blues Há nomes no blues que parecem carregar, sozinhos, o peso de uma geografia inteira. Rod Piazza é um desses. Saído de Riverside, Califórnia, em plena década de 1960, ele transformou a harmônica em seu passaporte definitivo para o coração do blues moderno — um instrumento que, em suas mãos, avança como locomotiva, desliza como seda e ruge como um felino à espreita. A trajetória de Piazza é, acima de tudo, a história de um artista que encontrou sua voz no cruzamento entre tradição e reinvenção. A juventude inquieta e o chamado do blues Nascido em 18 de dezembro de 1947, Rod Piazza cresceu fascinado por som, ritmo e velocidade — e encontrou tudo isso nas gravações de Little Walter , Big Walter Horton e George “Harmonica” Smith . Não demorou para que a gaita se tornasse seu instrumento de expressão absoluta. Ainda adolescente, ele já liderava bandas locais que misturavam blues elétrico, R&B e a musicalidade expansiva da Costa Oe...