Thorbjørn Risager: a alma do blues dinamarquês

Thorbjørn Risager: a alma do blues dinamarquês



O blues atravessou fronteiras há muito tempo. Em diferentes países, encontrou músicos dispostos a assimilar suas raízes e acrescentar experiências próprias a uma linguagem que continua em movimento. Na Dinamarca, um dos nomes que melhor representa essa conexão é Thorbjørn Risager. Cantor, guitarrista e compositor, ele construiu uma identidade musical que aproxima o blues de Chicago, o soul sulista, o rhythm and blues, o boogie-woogie e o rock.

Nascido em 19 de maio de 1971, em Gundsø, na Dinamarca, Risager cresceu em Jyllinge, em um ambiente familiar bastante próximo da música. Seus pais eram professores de música, circunstância que contribuiu para despertar seu interesse artístico desde cedo. A formação musical ganhou continuidade quando ingressou no Conservatório de Música Rítmica de Copenhague, onde aprofundou seus conhecimentos e estabeleceu relações que seriam importantes para sua carreira.

Mas o blues já fazia parte de seus planos. Por volta de 2000, Risager passou a integrar o grupo Blue Magic, de Copenhague, assumindo os vocais principais. A banda conquistou uma competição de novos talentos no Mojo Blues Bar, em Copenhague, diante de um júri que incluía o lendário gaitista norte-americano Charlie Musselwhite. Foi uma experiência importante para um músico que começava a transformar sua paixão pelo gênero em uma trajetória profissional.

O nascimento de uma identidade própria

Com o fim do Blue Magic, Risager decidiu seguir seu próprio caminho. Em 2002, reuniu músicos próximos e começou a desenvolver um projeto que daria origem ao Thorbjørn Risager Blue7. Entre os integrantes estava Emil Balsgaard, pianista e amigo de longa data, cuja participação se tornaria uma das parcerias mais duradouras de sua história musical.

O primeiro registro importante dessa formação foi Live 2004, lançado em 2005. Gravado no espaço cultural Krudttønden, em Copenhague, o álbum apresentou composições próprias e releituras de clássicos do blues. Era uma apresentação consistente de um artista que já demonstrava personalidade tanto na interpretação vocal quanto na guitarra.

Em 2006, chegou From the Heart, seu primeiro álbum de estúdio, seguido por Here I Am (2007). A partir desses trabalhos, Risager consolidou seu repertório autoral e passou a desenvolver uma sonoridade cada vez mais abrangente. O blues continuava no centro, mas não estava sozinho: soul, jazz, rock e elementos da música de raiz norte-americana encontravam espaço em suas composições.

Os lançamentos seguintes ampliaram esse percurso. Live at Victoria (2009), Track Record (2010) e Dust & Scratches (2012) documentaram uma fase de amadurecimento artístico. Este último recebeu o prêmio de Melhor Lançamento Dinamarquês de Blues no Danish Music Awards Blues de 2013, reconhecimento importante para o músico e sua banda.

The Black Tornado: blues sem fronteiras

O projeto cresceu, ganhou novos integrantes e passou a ser conhecido como Thorbjørn Risager & The Black Tornado. A formação numerosa permitiu explorar arranjos mais elaborados, com guitarras, piano, órgão, metais e uma seção rítmica capaz de transitar entre o balanço do blues tradicional e a energia do rock.

Ao longo dos anos, o grupo construiu uma reputação especialmente forte nos palcos. A combinação entre a voz encorpada de Risager, seus solos de guitarra e os arranjos coletivos transformou os shows em uma parte essencial de sua identidade. Não se trata apenas de reproduzir os discos ao vivo: a banda trabalha com dinâmica, improvisação e intensidade, características que ajudam a explicar sua presença constante em festivais e casas de espetáculo pela Europa.

Em 2014, o álbum Too Many Roads marcou a chegada à gravadora alemã Ruf Records. No ano seguinte, Songs From The Road registrou a força da banda em apresentações ao vivo. Já Change My Game (2017) aprofundou a mistura de blues, soul e rock, enquanto Come On In (2020) mostrou um grupo confortável em explorar diferentes atmosferas sem perder sua identidade.

O reconhecimento internacional continuou crescendo. Em 2022, Navigation Blues inaugurou a parceria com a Provogue Records, selo ligado à Mascot Label Group. O trabalho reafirmou a capacidade de Risager de construir canções que preservam a tradição, mas não dependem de fórmulas antigas. Em 2025, House of Sticks deu sequência a essa trajetória.

A relação com o público também se reflete nos números: a banda ultrapassou a marca de 1.500 apresentações em mais de vinte países, consolidando-se entre os representantes mais ativos do blues europeu. O grupo ainda conquistou importantes distinções no Danish Music Awards Blues, incluindo os prêmios de lançamento dinamarquês de blues e melhor banda ao vivo de blues em 2023.

Uma amizade de mais de três décadas

Embora o trabalho com The Black Tornado seja a face mais conhecida de sua carreira, existe outro lado de Thorbjørn Risager que merece atenção especial. É aquele que aparece quando o músico divide o espaço com Emil Balsgaard, seu parceiro musical há mais de trinta anos.

A afinidade entre os dois antecede a formação do grupo principal. Risager encontrou em Balsgaard um pianista capaz de compreender suas intenções musicais, acompanhar suas mudanças de direção e estabelecer diálogos naturais entre teclado e guitarra. Juntos, desenvolveram um repertório que permite explorar o blues de maneira mais direta, sem a necessidade dos arranjos amplos do Black Tornado.

O primeiro álbum da dupla, When They Ring Them Golden Bells, chegou em 2014. Quatro anos depois, When Shadows Fall deu continuidade ao projeto e recebeu uma indicação ao Danish Music Award. Em 2021, os músicos lançaram Taking the Good with the Bad, que também alcançou reconhecimento na premiação dinamarquesa.

Esses trabalhos estabeleceram uma identidade própria para a dupla. Em vez de simplesmente reproduzir em formato reduzido as músicas da banda, Risager e Balsgaard exploram as possibilidades de uma formação em que cada instrumento precisa ocupar seu espaço com precisão. O piano assume diferentes funções, ora sustentando o ritmo, ora respondendo às frases da guitarra, enquanto a voz de Risager conduz as interpretações.



Past Time Shadow: a essência de dois músicos

Lançado em 28 de agosto de 2026, Past Time Shadow é o quarto álbum da parceria entre Thorbjørn Risager e Emil Balsgaard. O disco representa mais um capítulo de uma relação musical construída ao longo de três décadas, com a cumplicidade de quem conhece profundamente as possibilidades e os limites do outro.

Aqui, os músicos deixam de lado a formação expansiva do The Black Tornado e trabalham com uma instrumentação enxuta: guitarra, piano e voz. A escolha não significa uma redução de ambição. Pelo contrário, exige atenção aos detalhes, às pausas e à maneira como cada interpretação se desenvolve. Sem uma seção rítmica ou metais para preencher os espaços, a música respira de outra forma.

O repertório reúne dez faixas e percorre diferentes caminhos da música de raiz. Blues, boogie-woogie, gospel e elementos do universo folk aparecem em interpretações que dialogam com a história do gênero e com a própria trajetória dos músicos. Há composições de Risager, releituras e canções de outros autores, entre elas obras associadas a Eddie Cleanhead Vinson e Bob Dylan.

A abertura com I Got a Feeling estabelece o clima do trabalho, enquanto Old Heartache e Copenhagen Winter ajudam a construir a atmosfera intimista do repertório. Em Kidney Stew, a dupla visita o universo de Eddie Vinson, e Hesitation Blues recupera uma das peças tradicionais do repertório do blues. Já Buckets of Rain, de Bob Dylan, amplia o diálogo com a música folk norte-americana.

A faixa-título, Past Time Shadow, funciona como um ponto de encontro entre passado e presente. O nome do álbum remete justamente às experiências, influências e lembranças que permanecem na formação musical de cada artista. Não há necessidade de transformar essa referência em nostalgia: o que se ouve é a experiência de dois músicos que continuam descobrindo novas maneiras de interpretar uma linguagem conhecida.

A produção ficou a cargo de Søren Bøjgaard, baixista do The Black Tornado, que também acompanha de perto o universo musical de Risager. O resultado preserva a proximidade das interpretações e valoriza a interação entre os dois protagonistas.

Existe algo especialmente interessante em ouvir um artista acostumado aos grandes palcos trabalhando em uma formação tão reduzida. A voz de Risager ganha ainda mais destaque, a guitarra encontra novas possibilidades de expressão e o piano de Balsgaard deixa de ser apenas parte de um arranjo para assumir o papel de interlocutor. É uma conversa musical construída com a tranquilidade de quem não precisa provar nada um ao outro.

Past Time Shadow confirma que a trajetória de Thorbjørn Risager não depende de uma única formação ou de uma fórmula bem-sucedida. Com The Black Tornado, ele encontra espaço para a potência dos grandes conjuntos. Ao lado de Emil Balsgaard, revela outra dimensão de sua personalidade artística, mais próxima, espontânea e concentrada na essência das canções.

Depois de mais de trinta anos de parceria, os dois continuam encontrando motivos para tocar juntos. E talvez essa seja a melhor maneira de compreender o disco: não como uma visita ao passado, mas como o encontro de dois músicos que ainda têm muito a dizer por meio do blues.

Ouça Past Time Shadow

Thorbjørn Risager & Emil Balsgaard — 2026


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