Lecia Louise: a guitarra australiana que incendeia o blues
Lecia Louise: a guitarra australiana que incendeia o blues
A guitarra de Lecia Louise tem personalidade. Seus riffs carregam a energia do blues-rock, enquanto sua voz passeia com naturalidade por diferentes territórios da música de raiz americana. Cantora, compositora e instrumentista australiana, Lecia construiu uma carreira de mais de duas décadas, percorrendo palcos, festivais e diferentes países sem abrir mão de uma identidade musical própria.
Sua música não se limita às fronteiras do blues. Rock, country, soul e elementos da música de raízes aparecem em composições que combinam força instrumental, melodias marcantes e uma interpretação vocal bastante expressiva. É uma artista que conhece a tradição, mas não demonstra interesse em permanecer presa a ela.
A trajetória começou a ganhar forma em 2005, com o lançamento do EP Heaven or Hell. Uma das faixas, Reynold Waters, conquistou lugar entre as dez melhores na competição de composição instrumental Music Oz. Naquele período, outra composição, Fly, chamou a atenção do respeitado compositor australiano Brian Cadd, que elogiou a música e convidou Lecia para participar de sua turnê Morning of the Earth.
Em 2009, chegou seu primeiro álbum completo, Into Being. O trabalho ganhou nova edição remasterizada em 2015 e abriu portas para uma circulação maior de suas composições, com execução em rádios da Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos. A faixa Little Girl teve boa repercussão nas rádios universitárias norte-americanas, enquanto uma versão acústica de Honiara foi apresentada no programa Roots 'n All, da Triple J.
O reconhecimento também veio por meio de suas composições originais. Em 2016, Lecia lançou o EP Per Te, que trouxe Individual, música vencedora da competição Out of the Blue, de Griffith, e que permaneceu três semanas na primeira posição do Triple J Unearthed.
Nos anos seguintes, sua discografia ganhou novos registros: Live at Serotonin Studios (2019), Presenting (2021), Power and Passion (2023) e Live at Blues on Broadbeach – Tell That Devil (2024). Em Power and Passion, a faixa My Everything alcançou o primeiro lugar no Triple J Unearthed, reforçando sua presença no cenário musical australiano.
Lecia também construiu uma respeitável trajetória nos palcos. Participou de festivais importantes como Woodford Folk Festival, Blues on Broadbeach, Gympie Muster e Adelaide Guitar Festival, onde também trabalhou como instrutora de guitarra. Ao longo dos anos, dividiu apresentações com nomes conhecidos da música australiana e internacional, entre eles Jimmy Barnes, Suzi Quatro, Ross Wilson, The Black Sorrows, Jon Stevens, Grinspoon, The Baby Animals, Phil Emmanuel e Daryl Braithwaite.
Suas apresentações também a levaram aos Estados Unidos, Europa, Reino Unido, Hong Kong, Dubai e Abu Dhabi. Essa experiência internacional ajudou a ampliar seu repertório de referências, sem apagar as características que fazem de sua música uma expressão pessoal.
Em 2025, recebeu o People's Choice Award, no Gold Coast, e acumulou resultados expressivos nas paradas independentes australianas. Alcançou duas vezes o primeiro lugar no Triple J Unearthed Online, chegou à segunda posição do AMRAP Regional Charts e conquistou três vezes o topo da Alternative Chart naquele ano.
Em 2026, veio mais um reconhecimento importante: Lecia venceu a etapa regional de Brisbane do Memphis Blues Challenge, representando o sudeste de Queensland na competição em Memphis.
Strike to Ignite: sete anos de trabalho transformados em música
O capítulo mais recente dessa história atende pelo nome de Strike to Ignite, álbum lançado em 2026. São onze faixas que representam o resultado de um processo de criação e gravação iniciado em 2018, quando o músico e compositor australiano 8Ball Aitken apresentou a Lecia a possibilidade de realizar parte das gravações em Nashville, nos Estados Unidos.
A ideia encontrou terreno fértil. Lecia decidiu reunir recursos para viabilizar a viagem, trabalhando intensamente, fazendo apresentações e também ministrando aulas de música. O plano inicial era registrar as bases instrumentais em Nashville e concluir o projeto na Austrália.
O caminho, entretanto, foi mais longo do que o previsto. Mudanças nas composições, dificuldades técnicas, a pandemia e questões financeiras interferiram no cronograma. No final de 2024, quando ainda faltavam etapas importantes, Lecia recorreu a uma campanha de financiamento coletivo para conseguir concluir o álbum. O apoio dos admiradores e de pessoas próximas foi decisivo para que o projeto finalmente chegasse ao público.
A produção contou com a colaboração de Michael Flanders, Steve James, Jason Millhouse e 8Ball Aitken. Entre os músicos envolvidos estão o baixista Malcolm Foster, conhecido por seus trabalhos com Simple Minds e The Pretenders, Ian Peres, que integrou The Whitlams e Wolfmother, e o baterista Cameron McGlinchey, do The Screaming Jets.
O resultado é um disco que não procura escolher entre blues, rock, country e soul. As onze músicas encontram diferentes maneiras de combinar essas influências, com guitarras em primeiro plano e uma seção rítmica que sustenta as mudanças de atmosfera.
A abertura com Love's Fool apresenta uma Lecia direta, apoiada por uma sonoridade blues-rock de acento funk. A letra fala sobre romper uma relação na qual não existe reciprocidade. É uma declaração de independência que ganha força com os riffs, os teclados e os vocais de apoio.
Em Woodstock, a artista presta homenagem ao histórico festival de 1969 e à geração que ajudou a transformar a música popular. Referências a Joan Baez, Arlo Guthrie, The Grateful Dead, Canned Heat, Santana, Jimi Hendrix e Janis Joplin aparecem em uma composição que recupera o espírito daquela época.
One Man traz uma abordagem bem-humorada sobre relacionamentos e expectativas, enquanto Take It trabalha uma mensagem de autonomia e superação. Já Just Passing Through explora uma atmosfera mais contemplativa, com elementos country e folk.
Um dos grandes destaques é Hot Blooded Woman. A faixa combina uma guitarra de timbre encorpado, andamento envolvente e uma interpretação vocal segura. A composição aborda empoderamento feminino, desejo e liberdade, com uma sonoridade que remete ao blues-rock dos anos 1970. Não por acaso, recebeu atenção especial da artista, que lançou um videoclipe para a música em outubro de 2026.
Outros momentos interessantes aparecem em Reeperbahn Blues, que transforma uma experiência desagradável vivida em Hamburgo em uma história de humor e rock'n'roll, e Saturday Night, com sua atmosfera de southern rock. Riding Through The Night recupera a energia das guitarras elétricas, enquanto Doesn't Bring You apresenta um lado mais sensível e melódico.
O encerramento com My Everything retoma uma composição que já havia conquistado espaço na trajetória de Lecia, agora integrada ao contexto mais amplo do álbum.
A recepção crítica também merece registro. Em resenha publicada em agosto de 2026 no site Dancing About Architecture, Dave Franklin destacou a maneira como Strike to Ignite reúne diferentes elementos da música americana. O crítico chamou atenção para a mistura de energia do rock, sutileza das raízes musicais e influências do blues, considerando o disco uma expressiva representação da Americana, curiosamente construída por uma artista australiana.
Já a publicação Skope Magazine ressaltou a versatilidade de Lecia e observou que sua habilidade como guitarrista não se sobrepõe às canções. O repertório mantém personalidade e identidade próprias, algo especialmente perceptível em Love's Fool.
Strike to Ignite é, portanto, mais do que uma reunião de gravações acumuladas ao longo dos anos. É o registro de uma artista que insistiu em levar adiante sua visão musical, mesmo quando as circunstâncias pareciam indicar o contrário.
Lecia Louise encontrou no blues uma linguagem para dialogar com outras tradições, sem perder a força de sua guitarra ou a espontaneidade de suas interpretações. Com mais de vinte anos de estrada, reconhecimento na Austrália e um álbum que finalmente chegou ao público, ela demonstra que ainda tem muita música pela frente.
E o título do disco parece resumir perfeitamente essa disposição: encontrar a centelha, alimentar a chama e seguir em frente.


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