James Armstrong: a guitarra que encontrou forças para continuar

James Armstrong: a guitarra que encontrou forças para continuar



Nascido em Los Angeles, Califórnia, em 22 de abril de 1957, James Armstrong cresceu cercado por música. Seu pai, James Armstrong Sr., tocava guitarra jazz; sua mãe era cantora de blues. Essa combinação ajudou a formar a personalidade musical de um artista que encontrou no blues elétrico e no soul-blues o território ideal para desenvolver sua voz, suas composições e uma maneira muito particular de tocar guitarra.

O instrumento entrou cedo em sua vida. Armstrong começou a aprender guitarra ainda criança e, aos 12 anos, já participava de uma banda que tocava em festas. Na adolescência, apaixonou-se pela música de Jimi Hendrix e dos Allman Brothers, referências que ampliaram seus horizontes para além do blues tradicional. Aos 17 anos, já estava na estrada, tocando com uma banda de country. Mais tarde, integrou grupos de rock, entre eles o Mama Roo, com o qual gravou no início dos anos 1990.

O encontro com o blues foi ganhando contornos mais definidos à medida que Armstrong se aproximava de músicos que conheciam profundamente essa tradição. Smokey Wilson, Albert Collins, Big Joe Turner e Doug MacLeod estão entre os nomes que contribuíram para sua formação. Dessa convivência, ele absorveu diferentes maneiras de trabalhar a guitarra, construir uma interpretação e compreender o espaço que existe entre as notas.

Em 1995, Armstrong lançou Sleeping with a Stranger, seu primeiro álbum solo pela gravadora Hightone Records. O disco chamou atenção para um guitarrista que não dependia apenas da habilidade instrumental: havia também um compositor interessado em relações humanas, conflitos afetivos e personagens que pareciam carregar histórias inteiras dentro de poucas palavras.

O futuro, entretanto, reservava uma provação brutal. Em abril de 1997, Armstrong foi vítima de um ataque com faca durante uma invasão à sua residência. Ele e seu filho ficaram gravemente feridos. As consequências físicas foram profundas, especialmente para sua mão, comprometida a ponto de limitar movimentos que antes faziam parte natural de sua técnica.

Para um guitarrista profissional, a perspectiva era devastadora. Armstrong chegou a acreditar que não voltaria a tocar como antes. A recuperação exigiu tempo, reabilitação e o apoio de amigos e colegas. Joe Louis Walker, Coco Montoya e Doug MacLeod estiveram entre aqueles que o incentivaram a não abandonar a música. Em vez de tentar simplesmente reproduzir o que fazia antes, ele precisou encontrar novas possibilidades no próprio instrumento.

Essa mudança não aconteceu de uma hora para outra. Em Dark Night, lançado em 1998, e Got It Goin' On, de 2000, Armstrong continuou construindo sua identidade musical. O segundo álbum contou com participações de Joe Louis Walker e do tecladista Jimmy Pugh, ligado à banda de Robert Cray. A canção 2 Sides, de Got It Goin' On, também chegou ao cinema, integrando a trilha do filme Speechless, estrelado por Michael Keaton.

Depois de um intervalo prolongado entre os lançamentos, Armstrong voltou em 2011 com Blues at the Border, pela Catfood Records. Em 2014, lançou Guitar Angels, álbum cujo título remete às pessoas que o ajudaram a atravessar um dos períodos mais difíceis de sua vida. A guitarra, antes ameaçada pelas limitações físicas, voltava a ocupar o centro de sua história.

Armstrong também aprendeu a explorar a guitarra slide, adaptando sua técnica às condições da mão lesionada. O resultado não foi uma simples tentativa de recuperar o passado. Sua maneira de tocar passou a valorizar ainda mais o fraseado, o peso de cada nota e a expressividade. A experiência trouxe outra perspectiva sobre o instrumento: a técnica continua importante, mas não precisa ser medida pela quantidade de notas ou pela velocidade dos dedos.



Blues Been Good to Me: gratidão sem ingenuidade

Lançado em 20 de outubro de 2017 pela Catfood Records, Blues Been Good to Me representa um capítulo especialmente significativo dessa trajetória. É o terceiro álbum de Armstrong pela gravadora e reúne dez faixas, com produção compartilhada por ele, Johnny Rawls e Jim Gaines. As gravações aconteceram no Sawhorse Studio, em St. Louis, e no Bessie Blue Studio, no Tennessee.

O título, que pode ser traduzido como “o blues tem sido bom para mim”, soa como uma declaração de gratidão. Não se trata, porém, de ignorar as dificuldades que marcaram sua vida. O sentido da frase ganha força justamente porque vem de alguém que enfrentou uma violência capaz de interromper sua carreira e precisou reaprender a conviver com as próprias limitações.

Armstrong assina oito das dez composições do disco. As exceções são Addicted to Love, conhecida na gravação de Robert Palmer, e How Sweet It Is (To Be Loved by You), clássico associado a Marvin Gaye e composto por Brian Holland, Lamont Dozier e Eddie Holland. Ao incorporar essas canções ao repertório, o guitarrista não abandona sua identidade: ele as conduz para o universo sonoro que construiu ao longo da carreira.

A faixa-título estabelece o espírito do álbum, enquanto Second Time Around sugere a possibilidade de recomeçar. Em Early Grave, o repertório assume um tom mais sombrio, e Change in the Weather acrescenta outra perspectiva às mudanças que atravessam a vida. Já Old Man in the Morning (Young Man at Night), Ain't Another Love Song, Sleeping with a Stranger e Shot Gun Wedding mostram a variedade de situações e personagens explorados pelo compositor.

O acompanhamento musical tem papel decisivo nesse resultado. Johnny McGhee contribui com a guitarra rítmica, Darryl Wright toca baixo, Andrew Thomas assume a bateria e Matt Murdick participa nos teclados e vocais. São músicos que já haviam dividido palcos com Armstrong, e essa familiaridade favorece uma execução segura, sem tirar o espaço necessário para a voz e a guitarra do líder.

Jim Gaines, experiente produtor e engenheiro de som, também teve importância especial durante as sessões. Em entrevista publicada pela revista Living Blues, Armstrong contou que Gaines o incentivou a experimentar mais na guitarra, ajudando-o a superar parte do receio que ainda acompanhava suas limitações físicas. A confiança recuperada aparece na maneira como o músico conduz as interpretações: sem esconder as marcas do caminho, mas sem permitir que elas definam tudo o que ainda pode fazer.

Há no álbum uma mistura convincente de blues elétrico, soul e melodias que aproximam o repertório de um público amplo. Armstrong não precisa transformar cada faixa em demonstração de virtuosismo. Sua voz fluida, o fraseado expressivo e a escolha cuidadosa dos arranjos dão unidade ao conjunto. O blues aqui não é uma lembrança distante de tempos difíceis; é uma música presente, feita por alguém que continua encontrando razões para tocar.

Uma carreira que segue em movimento

A história de James Armstrong poderia ter terminado naquele abril de 1997. Felizmente, não terminou. O músico voltou aos palcos, gravou novos discos e levou sua música a públicos dos Estados Unidos, da Europa e de outras partes do mundo. Sua trajetória também mostra como a tradição do blues permanece viva quando cada artista encontra uma maneira pessoal de carregá-la adiante.

Blues Been Good to Me merece atenção não apenas pelo repertório ou pela qualidade dos músicos envolvidos. O álbum oferece a oportunidade de ouvir um guitarrista que transformou uma experiência traumática em parte de sua história, sem fazer dela o único assunto de sua música. Há sensualidade, humor, melancolia, balanço e, sobretudo, a vontade de continuar.

James Armstrong não precisou voltar a ser exatamente o músico que era antes. Construiu outro caminho, adaptou a técnica e preservou o que realmente importa: a capacidade de fazer cada frase transmitir alguma coisa. Talvez seja essa a melhor maneira de compreender o título do disco. O blues foi bom para Armstrong não porque lhe poupou sofrimento, mas porque continuou oferecendo um lugar onde sua voz e sua guitarra podiam existir.

Ouça Blues Been Good to Me


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