Harry Manx: o blues que atravessou o mundo
Harry Manx: o blues que atravessou o mundo
Harry Manx aprendeu cedo que o blues não precisava permanecer parado no mesmo lugar. Nascido na Ilha de Man e criado no Canadá, ele passou boa parte da vida em movimento, atravessando países, culturas e tradições musicais até encontrar uma linguagem própria. No centro dessa trajetória estão a guitarra slide, a harmônica, o banjo e, principalmente, a Mohan Veena, instrumento de vinte cordas que se tornou uma das marcas de sua música.
Antes de construir uma carreira como cantor, compositor e multi-instrumentista, Manx conheceu o blues de perto, nos bastidores. Ainda adolescente, começou a trabalhar como roadie e posteriormente tornou-se técnico de som no lendário El Mocambo, em Toronto. Foi ali que entrou em contato com alguns dos grandes nomes do gênero e entendeu que, mais do que uma coleção de fórmulas, o blues carregava uma maneira particular de sentir o tempo, o silêncio e o groove.
Essa experiência ajudaria a definir seu caminho. Aos 20 anos, Manx deixou o Canadá e passou a viver como músico itinerante na Europa, tocando nas ruas, em bares, cafés e festivais. Depois, seguiu para o Japão. A vida nômade, que poderia parecer apenas uma sucessão de deslocamentos, acabou funcionando como uma espécie de escola informal. Cada lugar acrescentava uma camada à sua formação.
Foi durante o período no Japão que ele ouviu pela primeira vez a música de Vishwa Mohan Bhatt. A descoberta mudaria sua trajetória. Bhatt havia desenvolvido a Mohan Veena, uma guitarra modificada de vinte cordas tocada com barra de slide, e sua abordagem aproximava a tradição clássica indiana de uma sonoridade profundamente ligada às cordas.
Manx decidiu procurar o músico na Índia. Sob a orientação de Bhatt, passou anos estudando escalas, ragas e os fundamentos da música clássica indiana. O aprendizado exigiu justamente o contrário do que se espera de um músico experiente: desaprender. Manx precisou rever sua maneira de tocar slide e reconstruir sua relação com o instrumento a partir de outra tradição.
A experiência indiana não apagou o blues que ele havia carregado consigo. Fez o contrário. Aos poucos, Manx começou a perceber pontos de contato entre as escalas do blues e os modos da música indiana. De um lado, a terra, o peso e o balanço do blues. De outro, a dimensão contemplativa dos ragas. Dessa aproximação nasceu aquilo que ele próprio ajudou a transformar em uma assinatura musical: uma espécie de blues indo-canadense, aberto ao folk, à música de raiz e à espiritualidade oriental.
Quando voltou a estabelecer-se no Canadá, no início dos anos 2000, Manx já tinha uma identidade sonora difícil de confundir. Em Dog My Cat, lançado em 2001 pela Northern Blues, ele reuniu voz, guitarra lap slide, banjo, harmônica e Mohan Veena em uma formação essencialmente solitária. O disco seria decisivo para sua projeção internacional e mostraria como aquela combinação improvável poderia funcionar sem parecer um exercício de fusão musical.
O repertório também revelava sua relação respeitosa com a tradição. Manx podia passar por Muddy Waters em “Can’t Be Satisfied” ou pela tradicional “Baby Please Don’t Go” e, na mesma sequência, apresentar composições próprias e ragas instrumentais. O que interessava não era reproduzir o passado, mas descobrir o que ainda poderia nascer dele.
Em Wise and Otherwise, de 2002, essa proposta ganhou novas dimensões. O álbum aproximou ainda mais o blues das sonoridades indianas, incluindo uma leitura de “The Thrill Is Gone” que desemboca em uma estrutura de raga. O trabalho recebeu indicação ao Juno Award na categoria de blues e também foi reconhecido pela Penguin Eggs Magazine e pelo Edmonton Folk Festival.
No disco seguinte, West Eats Meet, de 2004, Manx ampliou novamente o campo. A composição autoral convive com instrumentos pouco habituais no blues tradicional, enquanto sua voz grave mantém tudo ancorado em uma narrativa simples e direta. O álbum lhe rendeu, em 2005, o Canadian Folk Music Award de Melhor Artista Solo e também uma indicação ao Juno.
Ao longo dos anos seguintes, sua discografia continuou explorando esse território sem transformar a mistura em fórmula. Mantras for Madmen, de 2005, aprofundou a relação entre blues, folk e música indiana. Bread and Buddha, lançado em 2009, levou a reflexão para um repertório ainda mais amplo, combinando canções de inspiração folk, blues tradicional e arranjos que incorporavam piano, órgão, cordas, bateria e baixo.
O reconhecimento veio também pelos prêmios. Manx acumulou sete Maple Blues Awards, seis indicações ao Juno, venceu o Canadian Folk Music Award de Melhor Artista Solo em 2005 e recebeu o Great Canadian Blues Award da CBC Radio em 2007. Mais importante, porém, foi ter construído uma obra que não depende de uma fronteira rígida entre gêneros.
Há algo de viajante permanente em sua música. Mesmo quando permanece dentro de uma estrutura de blues, a Mohan Veena cria outra perspectiva para as notas. A guitarra slide ganha um movimento diferente. A harmônica respira entre os espaços. E a voz de Manx, grave e serena, funciona como um fio que mantém todas essas referências conectadas.
Seu trabalho nunca parece interessado em provar que duas culturas musicais podem coexistir. Ele simplesmente parte do princípio de que elas já conversam. Talvez seja essa a razão pela qual sua música soe menos como uma experiência de laboratório e mais como resultado natural de uma vida inteira atravessando fronteiras.
Falling Upwards
Em 28 de agosto de 2026, Harry Manx voltou a apresentar material novo com Falling Upwards. O álbum mantém sua relação com o blues e o folk, mas novamente abre espaço para a música clássica indiana e para uma série de convidados que ampliam a paleta sonora.
O disco começa com “God’s Gonna Cut You Down”, tradicional do universo folk-blues, com participação do guitarrista Kevin Breit e da cantora Omkara. Em seguida, Manx revisita Bob Dylan em “Gonna Have to Serve Somebody”, acompanhado por músicos indianos, incluindo Gopal G no surbahar, instrumento de registro grave relacionado à família do sitar.
Entre as composições próprias estão “This Joy”, com Joey Landreth, “Pork Pie Turban”, que traz Steve Marriner à guitarra e harmônica, “Find Your Love”, com Simon Godin, Geneviève Jodoin e Mark Ferris, e “Step Softly”, com o violinista nepalês Prasad Anjali. Kevin Breit e Clayton Doley participam de “Steel Rose”, enquanto “A Few Precious Words” reúne novamente Manx e Omkara.
O repertório ainda reserva espaço para “The Water Is Wide”, tradicional folk escocês, e termina com “Without You”, composta por Manx e Omkara. É um encerramento coerente para um álbum que parece interessado menos em fronteiras do que em passagem: entre idiomas musicais, entre continentes e entre diferentes maneiras de ouvir.
Falling Upwards não representa uma mudança de direção para Harry Manx. É outra etapa de uma investigação que começou muito antes, quando um jovem músico criado no Canadá descobriu que a linguagem do blues poderia acompanhá-lo muito além de suas origens. Décadas depois, ele continua fazendo exatamente isso: levando o blues para longe sem deixar que ele perca suas raízes.


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