Gyasi encontra o blues das montanhas em Songs From The Holler
Gyasi encontra o blues das montanhas em Songs From The Holler
Gyasi costuma ocupar o palco como quem acende um fósforo perto de um tanque de gasolina. Glam rock, guitarras elétricas, figurinos exuberantes e uma presença cênica construída para não passar despercebida fazem parte do vocabulário do músico de West Virginia. Em Songs From The Holler, porém, quase tudo isso fica do lado de fora. O que permanece é a guitarra, a voz e uma relação antiga com o blues.
Lançado em 18 de setembro de 2026 pela Alive Naturalsound Records, o álbum representa uma mudança radical de perspectiva para Gyasi Heus. Em vez da eletricidade e do impacto de seus trabalhos ligados ao glam rock, ele retorna às montanhas de West Virginia, onde cresceu, para revisitar a música que ouviu desde a infância. O resultado é um disco de folk-blues essencialmente acústico, construído com economia de recursos e atenção aos detalhes.
De volta ao holler
A palavra “holler”, presente no título, ajuda a entender o espírito do projeto. No vocabulário dos Apalaches, o termo está associado a um vale estreito entre montanhas. Para Gyasi, é também uma volta ao lugar onde sua formação musical começou. Antes dos amplificadores, do glam e da teatralidade, havia os discos de blues que faziam parte da vida doméstica.
Essa memória ganha forma física na gravação. Segundo a Alive Naturalsound, o álbum foi registrado quase “ao vivo na natureza”, utilizando apenas dois microfones. A escolha não é mero exercício de nostalgia analógica. Ela coloca a voz e a guitarra no centro da gravação, preservando ruídos, respirações e pequenas imperfeições que aproximam o ouvinte do músico.
O efeito é particularmente interessante porque Gyasi não tenta apagar sua identidade para se transformar em um bluesman de outra época. Ele conhece a tradição, respeita suas formas e entende a importância do silêncio entre uma nota e outra, mas continua sendo o músico que construiu sua carreira a partir de uma linguagem visual e sonora muito própria.
Robert Johnson, Blind Blake e Lightnin' Hopkins
O repertório de Songs From The Holler funciona como uma pequena cartografia do blues acústico. O disco passa por Robert Johnson em “Preachin'”, por Barbecue Bob em “Motherless Child”, por Blind Blake em “Police Dog”, por Lightnin' Hopkins em “Hello Central” e “C'mon Baby”, por Sleepy John Estes em “Drop Down Mama”, por Leroy Carr em “How Long” e por J.B. Lenoir em “Mama Talk To Your Daughter”.
Não se trata de uma seleção feita apenas para demonstrar conhecimento. Gyasi procura as características musicais que unem esses compositores: a força do fraseado, a elasticidade do ritmo, a relação íntima entre voz e instrumento e aquela capacidade tão particular do blues de transformar uma estrutura aparentemente simples em território para improvisação.
“Poor Boy”, tradicional e arranjada por Gyasi, é outro momento revelador. Instrumental, a faixa desloca a atenção para os dedos e para a construção melódica. É justamente nesse tipo de passagem que o guitarrista demonstra que sua ligação com o blues não nasceu de uma decisão estética recente.
“Man From The Mountain”
Entre as composições próprias, “Man From The Mountain” talvez seja a faixa que melhor resume o conceito do álbum. A música nasceu diretamente da relação de Gyasi com suas raízes apalaches e com o músico David Blanchard, uma das figuras que participaram de sua formação.
A canção não precisa de grandes arranjos para criar atmosfera. A guitarra trabalha com contenção, enquanto a voz mantém uma interpretação deliberadamente despojada. Existe nela algo de antigo, mas não porque Gyasi esteja tentando reproduzir uma gravação de décadas atrás. A sensação vem da maneira como ele entende o espaço, o tempo e a economia que caracterizam boa parte do blues rural.
Em entrevista à Goldmine, Gyasi cita Robert Johnson e Lightnin' Hopkins como referências importantes para sua escrita: o primeiro pela sofisticação das composições e pelo caráter enigmático de suas letras; o segundo pela liberdade e pelo improviso. Essa dupla de influências ajuda a explicar o equilíbrio encontrado em Songs From The Holler entre forma e espontaneidade.
Quando o glam encontra o blues
O contraste com a trajetória recente de Gyasi é inevitável. O músico construiu uma persona associada ao glam rock e às referências de David Bowie, Marc Bolan e T. Rex. Seus discos anteriores, como Pronounced Jah-See, de 2022, e Here Comes The Good Part, de 2025, exploram justamente esse universo de guitarras, atitude e teatralidade.
Songs From The Holler revela que por baixo dessa estética existe uma formação musical muito mais ampla. O garoto que cresceu em West Virginia ouvindo blues não desapareceu quando Gyasi descobriu o glam. Ele apenas encontrou outra maneira de colocar essa herança em cena.
É por isso que a mudança de linguagem não soa como um disfarce. O slide, o fingerpicking, os desenhos rítmicos e a maneira de acompanhar a própria voz parecem menos uma reinvenção do que uma retomada. O guitarrista que aparece aqui é o mesmo músico de palco, apenas sem a necessidade de preencher todos os espaços.
Um disco de proximidade
Grande parte da força de Songs From The Holler está na proximidade. As gravações deixam o ouvinte perceber o som do instrumento, a dinâmica da mão direita, o peso das notas e a respiração antes de uma frase. A produção não tenta polir essas características. Ao contrário, faz delas parte da narrativa.
Essa opção foi percebida também por críticos que ouviram o álbum. A Soul Bag destacou a combinação de guitarra, voz, batidas de pé e uma percussão rudimentar, além da captação ao vivo com dois microfones. A publicação francesa também chamou atenção para a maneira como Gyasi utiliza dedos, palheta e slide com domínio técnico e respeito pelo repertório.
O Roots Music Report chegou a uma conclusão semelhante ao destacar o trabalho de guitarra e o fraseado vocal de Gyasi, apontando sua familiaridade real com o blues profundo. Já a avaliação publicada pela Qobuz observa que o disco não pretende necessariamente criar uma versão definitiva do blues acústico, mas revelar uma dimensão pouco explorada da personalidade musical do artista.
A tradição como ponto de partida
O mérito de Songs From The Holler está menos na ideia de “voltar ao passado” do que em demonstrar que Gyasi pode atravessar diferentes momentos da história da música sem precisar escolher uma única identidade. O glam rock continua sendo parte de seu vocabulário. O blues, porém, aparece aqui como uma espécie de idioma de origem.
Nas faixas de Robert Johnson e Lightnin' Hopkins, nas peças tradicionais e nas próprias composições, Gyasi encontra um território onde não precisa competir com o espetáculo. Basta tocar. E quando a guitarra assume o primeiro plano, fica evidente que a extravagância visual de sua carreira nunca foi a totalidade de sua música.
Songs From The Holler é, portanto, mais do que uma guinada inesperada na discografia de Gyasi. É um encontro entre o artista que o público conhece e o músico que existia antes dele. Um disco feito de cordas, voz e memória, gravado com uma simplicidade que permite ouvir aquilo que, muitas vezes, a produção excessiva esconde: o músico diante da canção.
No fim, o caminho percorrido por Gyasi parece fazer sentido. Das montanhas de West Virginia aos palcos do glam rock, a distância pode ser grande na aparência. Musicalmente, porém, há uma linha contínua. Ela passa pela guitarra, pelo blues e pela necessidade de contar uma história. Em Songs From The Holler, essa linha finalmente fica exposta.


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