Um blues feito de madeira, ferrugem e memória
Seasick Steve: Um blues feito de madeira, ferrugem e memória
Seasick Steve chegou ao grande público quando já carregava uma vida inteira de música nas costas. Em vez de surgir como uma nova promessa, apareceu na televisão britânica no fim de 2006 com barba, chapéu, uma guitarra de três cordas e um jeito de tocar que parecia ter atravessado décadas sem pedir licença ao tempo. A apresentação de Dog House Boogie no programa Jools Holland's Hootenanny, na virada daquele ano, transformou Steven Gene Wold em uma das figuras mais improváveis do blues contemporâneo.
Nascido em Oakland, Califórnia, em 19 de março de 1951, Steve cresceu cercado pela música americana. O pai tocava piano e sua formação musical passou por uma coleção doméstica que reunia jazz, rhythm and blues, country e os sons que ajudaram a construir a paisagem musical dos Estados Unidos no século XX. Entre suas primeiras referências estavam nomes como The Ink Spots, The Mills Brothers, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Hank Williams, Lefty Frizzell, Patsy Cline e, posteriormente, Buddy Holly, Elvis Presley, doo-wop e Motown.
O blues, para Steve, nunca esteve separado da vida cotidiana. Seu vocabulário musical nasceu da convivência com trabalhadores, músicos de rua, bares, estradas e pequenas histórias. A guitarra, a voz rouca e a percussão rudimentar se tornariam ferramentas suficientes para transformar experiências pessoais em canções que falam de liberdade, sobrevivência, amor, pobreza, trabalho e passagem do tempo.
Antes de Seasick Steve
A biografia de Seasick Steve também exige alguma cautela. Durante anos, sua história foi apresentada como a de um músico errante que teria passado décadas viajando pelos Estados Unidos, trabalhando em empregos temporários e vivendo à margem da indústria musical. Essa imagem contribuiu fortemente para a construção de seu personagem artístico, mas pesquisas posteriores, especialmente a biografia Seasick Steve: Ramblin' Man, de Matthew Wright, publicada em 2016, colocaram em dúvida vários elementos dessa narrativa.
O que está documentado é igualmente interessante. Antes da fama tardia, Steve Wold trabalhou como músico, produtor e engenheiro de gravação, circulando entre diferentes cenas musicais nos Estados Unidos e na Europa. No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, participou do grupo Shanti, ligado à fusão entre música indiana e americana, e posteriormente esteve envolvido com a banda de disco Crystal Grass. Décadas mais tarde, já instalado no estado de Washington, trabalhou em seu próprio estúdio e entrou em contato com a cena alternativa de Olympia e Seattle.
Essa passagem pelo estúdio é particularmente importante para compreender o artista. Steve não era simplesmente um músico desconhecido que reapareceu do nada. Ele possuía uma longa experiência atrás das mesas de gravação e havia convivido com músicos de diferentes universos. Em Olympia, chegou a trabalhar com Kathleen Hanna e outras bandas ligadas à efervescente cena alternativa da região. Também esteve envolvido com trabalhos relacionados ao Modest Mouse.
Existe, portanto, uma ironia bonita na trajetória de Seasick Steve: quando finalmente se tornou conhecido por sua imagem de músico primitivo, espontâneo e quase alheio à indústria, ele já havia passado boa parte da vida justamente dentro dos bastidores da música.
O nascimento de Seasick Steve
O nome artístico veio acompanhado de uma estética que parecia deliberadamente simples. Guitarras modificadas, instrumentos de poucas cordas, diddley bow, stomp box e uma maneira física de tocar ajudaram a criar uma assinatura imediatamente reconhecível.
O apelido “Seasick” também não surgiu de alguma estratégia sofisticada de marketing. Steve contou que sempre teve problemas com enjoo em viagens marítimas e que o nome acabou sendo adotado por amigos. A simplicidade do apelido combinava perfeitamente com o personagem que surgiria pouco depois: um homem aparentemente deslocado do tempo, carregando consigo apenas aquilo que precisava para fazer música.
Em 2004, apareceu Cheap, trabalho associado aos Level Devils. Dois anos depois veio Dog House Music, registro que começaria a mudar completamente sua história. O álbum foi lançado em 2006 e, no final daquele mesmo ano, a apresentação de Dog House Boogie no Hootenanny de Jools Holland colocou Seasick Steve diante de uma audiência britânica muito maior.
A partir dali, sua carreira ganhou uma velocidade que ninguém poderia prever. Em 2007, veio o reconhecimento do MOJO Awards como revelação. Festivais britânicos, grandes palcos e uma audiência internacional passaram a fazer parte de sua rotina. O homem que parecia ter chegado atrasado à indústria musical transformou justamente sua idade, sua aparência e suas limitações instrumentais em elementos de força artística.
O blues depois dos 50
O sucesso comercial veio com I Started Out with Nothin and I Still Got Most of It Left, lançado em 2008. O título já carregava uma das principais características da obra de Steve: transformar precariedade em narrativa, humor em resistência e experiência acumulada em matéria-prima para canções.
O álbum alcançou o Top 10 da parada britânica e consolidou uma carreira que rapidamente passou de fenômeno cult a presença constante nos grandes festivais. O repertório misturava country blues, boogie, folk e rock, enquanto a produção ampliava o universo sonoro sem apagar a aspereza de sua voz ou a fisicalidade de suas performances.
Nos anos seguintes, Steve construiu uma discografia extensa. Man from Another Time chegou em 2009; Songs for Elisabeth, em 2010; You Can't Teach an Old Dog New Tricks, em 2011; Hubcap Music, em 2013; Sonic Soul Surfer, em 2015; Keepin' the Horse Between Me and the Ground, em 2016; Can U Cook?, em 2018; Love & Peace e Blues in Mono, ambos em 2020; Only on Vinyl, em 2022; e A Trip A Stumble A Fall Down On Your Knees, em 2024.
O reconhecimento também pode ser medido pelos números. Ao longo dessa trajetória, Seasick Steve colocou cinco álbuns no Top 10 britânico, com A Trip A Stumble A Fall Down On Your Knees chegando ao sexto lugar em 2024. Man from Another Time alcançou o Top 10 em 2009, enquanto Sonic Soul Surfer, You Can't Teach an Old Dog New Tricks e Love & Peace também tiveram desempenhos expressivos.
Um blues feito de madeira, ferrugem e memória
Existe algo profundamente bluesístico na maneira como Seasick Steve transforma objetos e experiências em instrumentos de narrativa. Sua música não depende da sofisticação técnica para produzir impacto. Ao contrário: muitas vezes, a força está justamente na sensação de que a canção poderia ter sido encontrada no fundo de uma oficina, em um posto de gasolina ou numa estrada perdida no mapa.
Mas reduzir Steve à imagem do “velho bluesman” seria perder justamente a parte mais interessante de sua trajetória. Ele é também produtor, engenheiro de gravação, músico de estúdio e observador atento das transformações da música popular americana. Sua obra cruza country blues, boogie, folk, rock e elementos da tradição popular sem transformar essas referências em peças de museu.
Seu instrumento mais poderoso, porém, continua sendo a narrativa. Steve canta sobre aquilo que conhece: pessoas, estradas, dinheiro, amor, envelhecimento, trabalho, solidão e liberdade. É um blues que frequentemente parece uma conversa. E talvez seja essa intimidade que explique por que sua música conseguiu atravessar gerações e fronteiras.
O blues diante da América
Em 2024, Steve e sua esposa Elisabeth atravessaram os Estados Unidos em uma viagem de carro entre Miami e Los Angeles. A intenção era aproveitar a estrada e reencontrar o país natal, mas a experiência acabou produzindo uma impressão muito diferente: pobreza, falta de moradia, polarização e uma sensação crescente de divisão social às vésperas da eleição presidencial daquele ano.
Durante uma parada em um clube de New Orleans, uma frase dita pelo líder de uma banda da casa a dois músicos belgas chamou sua atenção: “Welcome to the last season of America”. A expressão ficou na cabeça de Steve e acabou se transformando no ponto de partida para seu novo álbum.
É justamente aí que sua história encontra o presente. O músico que durante anos construiu canções a partir das pequenas experiências da estrada agora olha para uma questão muito maior: o que aconteceu com o país que ajudou a formar sua identidade musical?
The Last Season of America
The Last Season of America está previsto para 18 de setembro de 2026 e inaugura uma nova etapa na carreira de Seasick Steve, agora por meio de seu próprio selo, Eastcote Recordings. O disco foi produzido pelo vencedor do Grammy Martin Terefe, nos Eastcote Studios, em Londres. Steve divide a formação principal com seu baterista de longa data, Dan Magnusson, enquanto Dave Okumu participa nas guitarras e Terefe toca baixo.
O resultado é apresentado como um álbum de protesto, mas a palavra não deve sugerir apenas confronto político. As dez faixas funcionam também como um inventário emocional de uma sociedade em crise. Steve observa a pobreza, a desigualdade, a perda de perspectivas e a divisão política a partir de uma posição profundamente pessoal: a de alguém que nasceu naquele país e passou a vida absorvendo sua música, sua cultura e suas contradições.
A faixa-título transforma essa sensação em uma espécie de lamento. Bad Things assume uma crítica política mais direta, enquanto Bootstraps aborda a diminuição das possibilidades de ascensão social. Somebody mergulha na incerteza diante de um momento histórico difícil. O disco, porém, não termina no desespero. Existe esperança entre as ruínas, uma crença de que as coisas ainda podem mudar e de que o amor permanece como força de transformação.
Essa combinação entre indignação e esperança talvez seja a característica mais bluesística do novo trabalho. O blues nunca precisou fingir que o mundo estava bem. Sua tradição nasceu justamente da capacidade de transformar sofrimento em linguagem, injustiça em memória e dor em música. Em The Last Season of America, Seasick Steve leva essa tradição para o presente sem esconder sua idade, sua experiência ou suas dúvidas.
O repertório reúne dez faixas:
1. The Last Season of America
2. Bad Things
3. Above Ground Boogie
4. Bootstraps
5. El Camino
6. Surf's Flat
7. Free Man
8. Somebody
9. Matilda From Ottawa
10. Feel The Sun
O álbum chega em um momento particularmente simbólico. Vinte anos depois daquela aparição que apresentou Seasick Steve a uma enorme audiência britânica, o músico continua fazendo aquilo que sempre esteve no centro de sua obra: pegar a experiência vivida e transformá-la em canção.
Agora, porém, a estrada parece ter mudado de direção. O homem que durante anos cantou sobre sua própria caminhada olha para o país inteiro como quem observa uma paisagem conhecida se transformar diante dos olhos. The Last Season of America nasce desse desconforto. É um disco sobre a América, mas também sobre memória, envelhecimento, pertencimento e a necessidade de continuar acreditando mesmo quando o cenário parece desabar.
Se o blues é uma música que aprendeu a sobreviver às circunstâncias, Seasick Steve encontrou novamente uma maneira de fazê-lo falar. Desta vez, sua guitarra não aponta apenas para a estrada. Ela aponta para o país que ficou para trás e pergunta, com a simplicidade de quem já viu muita coisa: o que aconteceu conosco?
The Last Season of America — Seasick Steve
O novo álbum de Seasick Steve tem lançamento previsto para 18 de setembro de 2026 pelo Eastcote Recordings. O pré-lançamento já está disponível no Spotify.


Comentários
Postar um comentário