Tom Principato: "Twangin!", um álbum sobre timbre, fraseado e maturidade
Tom Principato: "Twangin!", um álbum sobre timbre, fraseado e maturidade
Tom Principato conhece profundamente o idioma da guitarra elétrica. Aos 74 anos, o músico de Washington, D.C., carrega mais de cinco décadas de estrada, milhares de apresentações e uma trajetória construída entre o blues, o rock, o country, o funk e as raízes da música americana. Em Twangin!, seu novo álbum lançado em 3 de abril de 2026 pela Powerhouse Records, ele escolhe deixar a guitarra falar sozinha.
É uma escolha significativa. Este é o primeiro álbum de estúdio de Principato em 13 anos e também um trabalho inteiramente instrumental. Não há voz para conduzir a narrativa, nem letra para indicar o caminho. Restam as seis cordas, o ritmo, o espaço e a experiência de um guitarrista que passou a vida procurando novas maneiras de fazer uma nota dizer alguma coisa.
O resultado é um disco de 11 faixas que passeia pelo blues, boogie, country, gospel, rock e pela tradição instrumental americana sem transformar nenhuma dessas referências em peça de museu. Twangin! é, sobretudo, um álbum sobre timbre, fraseado e maturidade.
Uma vida moldada pela guitarra
Nascido em Washington, D.C., em 1952, Principato começou a tocar guitarra aos 11 anos. Dentro de casa, ouviu discos de Chet Atkins, Les Paul e Charlie Christian, referências que ajudaram a formar seu ouvido antes mesmo de o blues ocupar o centro de sua vida musical.
A mudança decisiva aconteceu em 1969. Aos 17 anos, ainda estudante, Principato assistiu a B.B. King no lendário Cellar Door, em Washington. Foram três noites consecutivas, experiência que o próprio guitarrista considera fundamental para sua formação. Mais do que absorver frases e recursos técnicos, ele percebeu naquele palco algo que continuaria perseguindo durante toda a carreira: dinâmica, nuance e emoção.
O blues passou a ser uma linguagem de vida. Ao mesmo tempo, Principato mergulhou nas guitarras de Roy Buchanan e Danny Gatton, dois nomes fundamentais para compreender a particular tradição instrumental de Washington, D.C. Sua maneira de tocar se formaria justamente nesse cruzamento: a intensidade do blues, a liberdade do rock e o refinamento técnico de guitarristas que tratavam a Telecaster quase como uma extensão do próprio corpo.
Powerhouse e a escola de Washington
No início dos anos 1970, Principato mudou-se para Boston e passou pela James Montgomery Blues Band. Depois, retornou à região de Washington e tornou-se líder do Powerhouse, grupo que se transformou em uma das bandas importantes do circuito de blues da Costa Leste durante aquela década.
O Powerhouse lançou Night Life e ajudou a consolidar a reputação de Principato como guitarrista. Quando a banda terminou, em 1978, ele voltou definitivamente suas atenções para a carreira solo e para uma intensa atividade como músico de estúdio e acompanhante.
Ao longo dos anos, seu caminho cruzou com nomes como Big Mama Thornton, Sunnyland Slim, Billy Price e James Montgomery. Em 1980, também participou do trabalho de Geoff Muldaur, gravando I Ain't Drunk com o grupo Geoff Muldaur and His Bad Feet.
Outro capítulo fundamental veio com Danny Gatton. A parceria entre os dois guitarristas resultou em Blazing Telecasters, registro ao vivo que se tornou uma referência para quem acompanha a linhagem da guitarra elétrica instrumental de Washington.
Principato não apenas participou dessa cena: ajudou a construí-la. À frente da Powerhouse Records, também trabalhou para registrar e divulgar músicos da região, aproximando sua atividade como guitarrista da função de produtor e articulador da cena local.
O guitarrista que nunca precisou escolher um único blues
A discografia de Principato é extensa e revela justamente essa característica. Smokin'!, I Know What You're Thinkin'..., In Orbit, Really Blue, Live and Kickin', House on Fire, Guitar Gumbo, Raising the Roof e Robert Johnson Told Me So mostram um músico pouco interessado em permanecer dentro de uma única gaveta.
Seu blues sempre carregou outras músicas dentro dele. Há rock, swing, soul, country, funk, jazz e uma evidente paixão pela guitarra americana. O próprio Principato já definiu sua trajetória a partir da ideia de uma música de raízes capaz de absorver diferentes influências.
Essa liberdade ajuda a explicar por que Twangin! soa tão natural. O álbum não parece uma tentativa de provar que o guitarrista ainda consegue tocar rápido. Pelo contrário: em vários momentos, Principato parece mais interessado em tocar menos e fazer cada nota permanecer no ar.
Twangin!: a guitarra como voz
O conceito do novo álbum aparece logo no título. “Twang” é uma palavra profundamente associada ao timbre metálico e vibrante das cordas, especialmente dentro das tradições country e de guitarra elétrica americana. Em Principato, esse som encontra o blues.
A abertura com Night Walk, dos Ventures, já estabelece esse território. Em vez de simplesmente reproduzir o espírito surf instrumental associado ao grupo, Principato desloca a composição para seu próprio vocabulário. O resultado é menos reverberação e mais blues, jazz e balanço.
A escolha das versões é reveladora. Blue Star, também dos Ventures, encerra o disco e cria uma espécie de moldura: o álbum começa e termina dialogando com o repertório instrumental da banda californiana. Entre as duas faixas, Principato constrói um percurso muito mais amplo.
Kentucky leva a guitarra para o território do bluegrass. Love Letters, conhecida na gravação de Ketty Lester, recebe uma interpretação lenta e espaçosa. Champagne, composição associada ao universo de Merle Haggard, reforça o lado country do disco.
O interessante é que Principato não tenta esconder as diferenças entre esses estilos. Ele deixa que elas convivam. O blues não desaparece quando o country entra em cena; ele muda de sotaque.
Os cinco originais
As cinco composições próprias são o centro autoral de Twangin!: Beyond the Stars, Smoky Blue, The Bone Head Shuffle, Head First e Drop D Boogie.
Drop D Boogie é provavelmente a síntese mais direta da proposta. O boogie está presente, mas sem transformar a faixa em uma demonstração de velocidade. O groove é mais importante que a exibição técnica.
Em The Bone Head Shuffle, o guitarrista trabalha uma atmosfera mais descontraída, com um balanço que deixa espaço para a melodia respirar. Já Head First mergulha em uma sonoridade que remete ao universo de J.J. Cale, com aquela economia de movimentos que tornou possível transformar simplicidade em assinatura.
Smoky Blue cresce de maneira contida. Principato não precisa incendiar o amplificador para criar tensão. O timbre, a sustentação das notas e a maneira de conduzir a melodia fazem o trabalho.
E então chega Beyond the Stars. É uma das faixas mais delicadas do álbum, construída quase como uma conversa entre a guitarra e o silêncio. Com pouco acompanhamento, Principato deixa as notas suspensas, criando uma atmosfera contemplativa que talvez seja a melhor representação da maturidade que atravessa todo o disco.
Menos fogo, mais nuance
As primeiras décadas da carreira de Tom Principato foram marcadas por uma guitarra de alta voltagem. Os próprios títulos de alguns de seus discos contam essa história: Smokin'!, House on Fire, Fingers on Fire e Blazing Telecasters.
Twangin! escolhe outro caminho.
Em resenha publicada pelo Rock and Blues Muse, Hal Horowitz observa justamente essa mudança de temperatura: Principato continua tecnicamente afiado, mas reduz a intensidade e trabalha com mais nuance. A análise destaca ainda a beleza de Kentucky, o caráter jazzístico de Love Letters, o balanço de Night Walk e a atmosfera tranquila de Beyond the Stars.
Outra avaliação, publicada pelo Blues Magazine, chama atenção para o caráter integralmente instrumental do álbum e para a maneira como Principato transforma a guitarra em elemento narrativo. A publicação também destaca Drop D Boogie, Smoky Blue e The Bone Head Shuffle entre os momentos mais expressivos do trabalho.
Já a resenha do Bluestown Music apresenta uma leitura mais crítica, apontando algumas escolhas de bateria que podem incomodar determinados ouvintes, mas reconhece uma série de faixas como destaques e define o álbum como uma agradável experiência de guitarra.
As três leituras chegam a um ponto comum: Twangin! não é uma tentativa de repetir o passado.
É justamente aí que está sua força.
A tradição da Telecaster
Tom Principato pertence a uma linhagem muito particular da guitarra americana. Roy Buchanan e Danny Gatton foram referências decisivas para sua formação, e a Telecaster tornou-se ao longo dos anos uma espécie de território de identidade.
Em 2022, Principato lançou It's Tele Time, uma coleção dedicada à tradição que recebeu de Buchanan e Gatton. O próprio guitarrista já explicou que não se coloca simplesmente como herdeiro desses músicos, mas reconhece neles os mestres que ajudaram a definir seu vocabulário.
Em Twangin!, essa herança aparece sem necessidade de ser anunciada. Está na maneira como a nota é atacada, nos bends, no espaço entre as frases e principalmente no respeito ao timbre.
É uma guitarra que conhece a história, mas não precisa ficar presa a ela.
Um álbum de maturidade
Existe uma ironia bonita no fato de um guitarrista conhecido por sua energia voltar ao estúdio depois de 13 anos para fazer justamente um disco em que a contenção é uma de suas maiores virtudes.
Principato já passou dos 5 mil shows, atravessou décadas de transformações na música, excursionou extensivamente pela Europa e construiu uma discografia que atravessa diferentes momentos do blues contemporâneo. O Washington Post já descreveu sua relação com a guitarra como resultado de uma busca contínua pela clareza e pela graça, uma procura que só se aprofunda com o tempo.
Twangin! parece nascer desse ponto da estrada.
Não é um álbum que tenta impressionar a cada segundo. É um álbum que confia na experiência do músico. Principato sabe quando acelerar, quando segurar, quando deixar uma nota morrer e quando permitir que o silêncio faça parte da música.
Talvez por isso o disco seja tão representativo de sua trajetória. O blues está ali, mas não como fórmula. O country está ali, mas não como fantasia. O rock aparece, o gospel atravessa algumas passagens, o boogie movimenta o corpo e a Telecaster costura tudo.
Depois de mais de cinco décadas tocando guitarra, Tom Principato parece ter chegado a uma conclusão simples: não é preciso tocar mais para dizer mais.
Em Twangin!, ele deixa as seis cordas conversarem.
Tom Principato — Twangin!
01. Night Walk
02. Kentucky
03. Drop D Boogie
04. Smoky Blue
05. The Bone Head Shuffle
06. All Night, All Day (Angels Watching Over Me)
07. Champagne
08. Beyond The Stars
09. Head First
10. Love Letters
11. Blue Star
O álbum foi lançado pela Powerhouse Records em 3 de abril de 2026, com 11 faixas e aproximadamente 35 minutos de duração. A formação reúne, entre outros músicos, Dave Elliott e Jim Brock na bateria, Steve Wolf e Jim Robeson no baixo, Big Joe Maher e Tommy Lepson, que participa no órgão.
Ouça Twangin!, novo álbum de Tom Principato:


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