The Cold Stares: "Texas" é estrada, peso e memória
The Cold Stares: "Texas" é estrada, peso e memória
Chris Tapp e Brian Mullins não precisaram de uma grande formação para produzir um som gigantesco. Quando começaram a construir a identidade de The Cold Stares, a ideia era quase o oposto: guitarra, bateria e a urgência de quem tinha histórias demais para guardar dentro de si. O resultado foi uma das formações mais contundentes do blues-rock contemporâneo americano.
A história da banda está ligada ao oeste do Kentucky, onde Tapp e Mullins cresceram e tocaram juntos antes de seguirem caminhos diferentes. A amizade, porém, permaneceu. Quando voltaram a trabalhar juntos, encontraram na música uma maneira de reunir experiências pessoais, referências do blues e o peso do rock que os acompanhava desde a juventude.
Do Kentucky para Evansville
Embora The Cold Stares esteja sediado em Evansville, Indiana, sua identidade musical tem raízes profundas no Kentucky. Tapp e Mullins cresceram na região de Madisonville e carregam para a música uma herança sulista que não depende apenas de sotaque ou localização geográfica.
Em entrevistas, os dois músicos já falaram sobre a importância de artistas tão diferentes quanto Son House, Robert Johnson, Johnny Cash, Bob Dylan e Tom Waits, ao mesmo tempo em que reconhecem a influência pesada de Black Sabbath, Led Zeppelin, Free, AC/DC e do rock britânico das décadas de 1960 e 1970.
É justamente nesse encontro que The Cold Stares define sua personalidade. O blues fornece a linguagem, o rock oferece a eletricidade e as experiências humanas dão sentido às canções.
Uma banda que quase não deveria existir
No começo, Tapp e Mullins chegaram a resistir à ideia de formar mais uma banda. A história mudou quando os dois foram chamados para abrir um show de um amigo. Para evitar que o palco parecesse vazio, montaram uma estrutura de amplificadores e encontraram uma maneira de criar um som muito maior do que seria esperado de apenas dois músicos.
A reação do público acabou batizando o grupo. As pessoas simplesmente paravam e olhavam, tentando entender como aquela formação reduzida conseguia produzir tamanha pressão sonora. Daqueles “cold stares”*, nasceu o nome.
*The Cold Stares = “Os Olhares Frios”, numa referência às expressões de surpresa e espanto do público diante do som da dupla.
Durante os primeiros anos, a dupla transformou essa limitação em uma espécie de manifesto. Sem baixista, Tapp encontrou maneiras de preencher as frequências graves enquanto Mullins construía uma bateria poderosa, criando uma sonoridade seca, pesada e direta.
Sobrevivência também faz parte da história
A trajetória de The Cold Stares ganhou uma dimensão particularmente pessoal quando Chris Tapp enfrentou um diagnóstico de câncer no início da década de 2010. A primeira previsão médica apontava para uma expectativa de vida extremamente curta, mas o diagnóstico inicial estava errado.
O episódio acabou modificando a maneira como Tapp e Mullins encaravam a banda e a própria vida. A música deixou de ser apenas uma atividade paralela e passou a representar também uma forma de seguir em frente. Essa perspectiva de sobrevivência, trabalho e enfrentamento atravessa boa parte da identidade lírica de The Cold Stares.
Os primeiros discos e a construção de uma identidade
A banda construiu seus primeiros capítulos de maneira independente. A Cold Wet Night And A Howling Wind, lançado no início da trajetória fonográfica do grupo, ajudou a colocar The Cold Stares no radar do público de blues-rock e alcançou forte desempenho nas plataformas digitais.
Vieram depois trabalhos como Head Bent, de 2017, e Mountain, de 2018. Em 2019, Ways consolidou ainda mais a reputação da dupla como uma formação de grande impacto ao vivo.
O reconhecimento também começou a aparecer fora do circuito tradicional do blues. Músicas da banda foram utilizadas em publicidade, televisão, transmissões esportivas e outros projetos audiovisuais. “Mojo Hand”, por exemplo, ganhou enorme exposição ao integrar a campanha do videogame Cyberpunk 2077.
Heavy Shoes e a chegada da Mascot Records
Em 2021, The Cold Stares iniciou uma nova etapa ao assinar com a Mascot Records. O primeiro lançamento pela gravadora foi Heavy Shoes, um disco que ampliou o alcance da banda sem eliminar a aspereza que havia construído sua identidade.
Gravado em grande parte no lendário Sam Phillips Recording Service, em Memphis, o álbum aproximou ainda mais o blues tradicional da musculatura do rock pesado. A própria banda sempre tratou esse contraste como parte essencial de sua linguagem: o blues do Delta pode dividir espaço com Black Sabbath, enquanto uma guitarra carregada de fuzz pode carregar uma história essencialmente humana.
A pandemia interrompeu temporariamente a rotina de shows, mas não o processo criativo. Quando as estradas voltaram a abrir, The Cold Stares retomou as turnês com uma intensidade ainda maior.
De duo a trio
Em 2022, uma mudança fundamental aconteceu. Depois de aproximadamente uma década funcionando como dupla, Tapp e Mullins decidiram incorporar o baixista Bryce Klueh.
A mudança não foi apenas uma questão de formação. O baixo permitiu que a banda explorasse novas possibilidades de arranjo e, principalmente, que pudesse reproduzir ao vivo a dimensão cada vez maior de suas gravações sem depender de faixas pré-gravadas.
O primeiro grande resultado dessa nova configuração foi Voices, lançado em 2023. Com produção de Mark Needham, o álbum mostrou uma banda mais aberta a atmosferas, texturas e contrastes, sem abandonar os riffs pesados e a tensão característica de suas canções.
O lado sulista de The Cold Stares
Em 2024, a banda aprofundou sua relação com as próprias raízes em The Southern. O álbum assumiu de maneira mais consciente a herança cultural do Sul dos Estados Unidos, não como uma simples coleção de clichês, mas como matéria-prima para falar de família, tradição, trabalho e identidade.
Chris Tapp resumiu essa visão ao explicar que ser sulista, para ele, é mais do que sotaque ou repertório: é também uma relação com família e tradição.
Essa perspectiva ajuda a entender por que The Cold Stares não cabe confortavelmente em apenas uma categoria. É blues-rock, certamente. Mas também existe ali Southern rock, hard rock, soul, gospel e a tradição narrativa da música americana.
Texas: a estrada transformada em música
O capítulo mais recente dessa história atende pelo nome de Texas. Lançado em 1º de maio de 2026, o álbum nasceu das experiências acumuladas durante extensas turnês pelo estado que ajudou a moldar algumas das principais vertentes do blues elétrico americano.
Para registrar esse momento, a banda viajou até Austin, onde gravou as onze faixas do álbum no histórico Bud’s Recording Services. A escolha do estúdio reforçou a intenção de capturar não apenas uma sonoridade associada ao Texas, mas a atmosfera criada pela própria experiência de estar ali.
As referências passam por nomes como Jimmie Vaughan, ZZ Top e Lightnin’ Hopkins, mas Texas não é um exercício de imitação. O que a banda procura capturar é uma sensação: a estrada, o calor, as distâncias, a liberdade e aquela combinação de poeira, eletricidade e melancolia que há muito tempo acompanha o imaginário musical texano.
O álbum começa com “Nowhere To Go”, imediatamente estabelecendo o peso dos riffs e a presença da bateria de Mullins. “Queen of Hearts” mergulha mais profundamente no blues, enquanto “Deeper You Dig” leva o trio para um território ainda mais pesado.
Um dos momentos mais interessantes é “Chains and Things”, única composição não original do disco. A escolha da canção de B.B. King ganha uma leitura mais contemporânea nas mãos de Tapp, sem perder a carga emocional da versão original.
Em contraste, “One Last Chance” reduz a temperatura e coloca o violão ressonador e a interpretação vocal no centro da narrativa. “Burden to Bear” recupera a força do rock, enquanto “Further Down the Road” carrega uma movimentação que remete à tradição do blues-rock texano. Fechando o álbum, “Sugarcane” acrescenta elementos de gospel e soul ao repertório.
O que dizem as resenhas
Texas recebeu avaliações bastante positivas na imprensa especializada. Na Rock and Blues Muse, Hal Horowitz destacou a energia da gravação e considerou o álbum o momento mais convincente da trajetória da banda até então, ressaltando especialmente a evolução vocal de Chris Tapp e a força do trio.
O Blues Rock Review também avaliou o disco de maneira muito favorável, atribuindo 9 de 10. A publicação destacou os riffs, os vocais ásperos, a produção e a capacidade da banda de manter sua identidade sem tentar reinventar artificialmente sua fórmula.
Já a Blues Magazine, em resenha publicada em junho de 2026, chamou atenção para o som mais encorpado proporcionado pelo baixo de Bryce Klueh e para a variedade do repertório, destacando faixas como “Nowhere To Go”, “Deeper You Dig”, “One Last Chance” e “Burden to Bear”.
Texas é estrada, peso e memória
Mais do que um álbum inspirado por um lugar, Texas funciona como o registro de uma banda que aprendeu a transformar quilômetros percorridos em música. The Cold Stares chegou até aqui sem abandonar a essência que nasceu quando Chris Tapp e Brian Mullins descobriram que dois músicos poderiam soar como uma parede de amplificadores.
A entrada de Bryce Klueh não diminuiu essa força. Pelo contrário: acrescentou espaço, profundidade e novas possibilidades ao trio.
O resultado é uma banda que conhece profundamente suas raízes, mas não vive presa a elas. O blues continua no centro, mas ao redor dele estão o rock pesado, o Southern rock, o soul, o gospel e a experiência de quem passou anos na estrada.
Texas é, nesse sentido, um retrato bastante fiel do momento atual de The Cold Stares: uma banda madura, pesada e consciente de sua identidade, ainda disposta a acelerar o amplificador e seguir viagem.
Ouça The Cold Stares — Texas
Álbum: Texas
Artista: The Cold Stares
Lançamento: 1º de maio de 2026
Gravado: Bud’s Recording Services, Austin, Texas
Faixas: 11


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