Peter Parcek: o blues como linguagem própria

Peter Parcek: o blues como linguagem própria



Peter Parcek chegou ao blues por caminhos que passam por dois lados do Atlântico. Nascido em Middletown, Connecticut, ele ainda jovem se deixou capturar pelos sons que atravessavam o rádio, ouvindo artistas como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Albert Collins. No fim dos anos 1960, mudou-se para a Inglaterra e encontrou em Londres uma cena que transformaria sua relação com a música.

Ali, o blues estava em ebulição. Parcek acompanhou de perto apresentações de Eric Clapton, Jeff Beck e Peter Green e começou a tocar profissionalmente como cantor e gaitista. Chegou a frequentar palcos como o Marquee Club, um dos endereços fundamentais da música britânica, antes de retornar aos Estados Unidos por questões relacionadas à autorização de trabalho.

A volta para casa não significou o fim daquela experiência. Ao contrário. De volta a Connecticut, Parcek passou a observar de perto artistas americanos que estavam na raiz daquela mesma música que os britânicos haviam levado para uma nova geração. Skip James, Muddy Waters, Albert King, Jimi Hendrix, B.B. King e Buddy Guy entraram definitivamente em seu vocabulário.

Quando se estabeleceu em Massachusetts, a guitarra passou a ocupar o centro de sua vida musical. Parcek conta que foi nesse período que deixou de ser apenas alguém que possuía uma guitarra para se tornar, de fato, um guitarrista, chegando a estudar o instrumento durante oito a dez horas por dia.

Boston seria sua casa artística. Na cena local, integrou o Nine Below Zero, banda de blues que ganhou espaço na região e acabou aproximando Parcek de Pinetop Perkins. Nos anos 1990, ele tocou e excursionou com o lendário pianista, experiência que se transformou em uma das escolas mais importantes de sua carreira.

Trabalhar ao lado de Perkins significava conviver diariamente com uma tradição que não precisava de explicações. Era preciso ouvi-la, absorvê-la e, principalmente, saber quando deixar uma nota falar por si mesma. Essa compreensão atravessaria o trabalho de Parcek nas décadas seguintes.

Sua carreira solo ganhou forma em 2000 com Evolution, álbum que já revelava uma característica que se tornaria permanente: a disposição de aproximar composições próprias de canções de outros autores. Entre os convidados estavam Al Kooper e Ronnie Earl.

Depois veio uma passagem pelo Dragonfly, projeto formado com o cantor e compositor Miki Singh, que levou Parcek para uma combinação mais ampla de blues, rock e pop. O grupo lançou dois discos e excursionou internacionalmente.

Parcek retomaria o caminho solo com The Mathematics of Love, lançado em 2010, seguido pelo EP Pledging My Time, em 2011, e por Everybody Wants to Go to Heaven, de 2017. A essa altura, seu vocabulário já não cabia confortavelmente dentro de uma única gaveta.

Há blues elétrico em seu trabalho, mas também há ecos do rock britânico, do folk, do country e do gypsy-jazz. O próprio músico chama essa maneira de tocar de “soul guitar”. Não é apenas uma questão de gênero. É uma forma de colocar sentimento, personalidade e espaço dentro da guitarra.

Em 2020, Parcek lançou Mississippi Suitcase, álbum gravado entre Boston e Nashville e produzido por Ducky Carlisle. O trabalho ampliou sua visibilidade e recebeu uma indicação ao Blues Music Award de 2021 na categoria Blues Rock Album. Também apareceu entre os destaques daquele ano em diferentes premiações e publicações especializadas.

O disco trazia uma característica que Parcek carregaria para o trabalho seguinte: respeito absoluto pela tradição com o ouvido sempre atento. Sua guitarra podia soar áspera, melódica, sinuosa ou explosiva, mas quase sempre permanecia ligada à música que estava acontecendo ao redor dela.



Most of the Time

Seis anos depois de Mississippi Suitcase, Peter Parcek retorna com Most of the Time, lançado em 14 de agosto de 2026 pela Lightnin’ Records. É um álbum que parece olhar simultaneamente para trás e para os lados. A tradição está presente, mas não funciona como limite.

A formação central reúne Parcek nas guitarras e vocais, Marc Hickox no baixo, Tim Carman na bateria e percussão e Tom West no Hammond B3 e Fender Rhodes. Ao redor desse núcleo aparecem músicos como Duke Robillard, Luther Dickinson, Kevin Barry, Mickey Raphael, Mark Earley e Danielle Miraglia.

O álbum começa com Twistified, composição de Parcek que recebe a participação de Duke Robillard. O encontro entre as duas guitarras reforça o caráter elétrico da faixa, enquanto os metais acrescentam peso e movimento. A canção também dialoga diretamente com o blues do Mississippi e com a figura de Booba Barnes.

Na sequência, How Many Times mostra Parcek em território autoral. O groove conduzido por Tim Carman traz uma influência de ritmos da África Ocidental, enquanto órgão, baixo e metais ampliam a arquitetura da faixa. A guitarra permanece expressiva sem transformar a música em simples demonstração de técnica.

A faixa-título é uma releitura de Bob Dylan, originalmente lançada em Oh Mercy, de 1989. Parcek transforma a canção em uma interpretação longa, atmosférica e introspectiva, com Kevin Barry na lap steel e Danielle Miraglia dividindo os vocais. É um dos momentos em que sua abordagem revela maior interesse pelo clima e pela narrativa do que pela velocidade.

Em I Don't Worry 'Bout a Thing, Parcek visita Mose Allison. Just Play Rhythm, Baby é outra composição própria e nasce de uma referência assumida a Ronnie Earl, um dos guitarristas que influenciaram sua formação. Já Mississippi Phone Booth, de John Hiatt, ganha um tratamento elétrico, denso e marcado pelo baixo de Marc Hickox.

Parcek também mergulha no repertório de Elmore James em Stranger Blues, enquanto Poor Boy, escrita por Parcek em parceria com David Herwaldt, acrescenta uma dimensão mais pessoal ao disco. When I'm Dead & Gone traz Luther Dickinson à guitarra e Mickey Raphael na harmônica.

Há ainda Cold In Hand, instrumental dedicado a Albert Collins, e Three Feet In Back Of My Head, composição de Parcek inspirada em uma experiência extracorpórea. Em ambos os casos, a guitarra assume o papel de narradora.

O repertório segue pela tradição do Delta em 61 Highway, de Mississippi Fred McDowell, com Kevin Barry novamente na lap steel. Depois chega Grandma's Hands, de Bill Withers, transformada por Parcek em uma interpretação extensa, que abre espaço para uma longa conversa instrumental entre guitarra, teclados, baixo e bateria.

Na edição completa, Lord Help The Poor & Needy, de Jessie Mae Hemphill, aparece como bônus instrumental. Swooshy fecha o conjunto. São momentos que ajudam a mostrar que Most of the Time não foi concebido apenas como uma coleção de canções, mas como um percurso sonoro com diferentes texturas e intensidades.

As resenhas publicadas desde o lançamento chamaram atenção justamente para essa variedade. A Blues Matters destacou a maneira como Parcek evita o excesso sem perder autoridade, enquanto a Americana Highways apontou a clareza da produção, a força das composições próprias e a forma como as releituras são incorporadas ao conjunto. A espanhola La Hora del Blues também ressaltou a mistura entre raízes e experimentação.

O resultado é um álbum que apresenta Peter Parcek em uma fase madura. Não há necessidade de provar velocidade a cada faixa. A guitarra está ali para criar tensão, responder à voz, dialogar com os músicos e, quando necessário, simplesmente deixar uma nota permanecer no ar.

É talvez aí que esteja a essência de sua “soul guitar”. Parcek aprendeu com o blues britânico, estudou os mestres americanos, tocou ao lado de Pinetop Perkins e atravessou diferentes formações e linguagens. Depois de tantos anos, sua música não precisa escolher entre tradição e contemporaneidade.

Most of the Time mostra justamente esse ponto de equilíbrio: um guitarrista profundamente ligado à história do blues, mas interessado demais no presente para apenas repeti-la.

Ouça Most of the Time


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