Louis Myers: a guitarra por trás dos Aces e uma vida dedicada ao Chicago Blues

Louis Myers: a guitarra por trás dos Aces e uma vida dedicada ao Chicago Blues



Louis Myers nasceu em 18 de setembro de 1929, em Byhalia, Mississippi, e morreu em 5 de setembro de 1994, em Chicago. Entre essas duas datas está uma história profundamente ligada à transformação do blues sulista em uma das linguagens elétricas mais influentes da música americana.

Myers chegou a Chicago em 1941, ainda adolescente, acompanhando a mudança da família para a cidade. O blues já fazia parte de sua formação: seu pai, Amos Myers, era músico e havia apresentado aos filhos os fundamentos do instrumento. Em Chicago, porém, Louis encontrou um universo musical muito mais amplo. A família morou próxima ao lendário guitarrista Lonnie Johnson, cuja sofisticação harmônica deixou marcas importantes em sua maneira de tocar.

O jovem guitarrista passou a circular pelo circuito do South Side e a tocar em festas e pequenos eventos. Entre os músicos com quem conviveu estavam Othum Brown, Arthur “Big Boy” Spires e outros nomes que ajudavam a construir, noite após noite, o novo som da cidade. Seu irmão mais velho, Dave Myers, também era guitarrista e se tornaria seu parceiro musical mais constante.

Os Aces

No final dos anos 1940, Louis e Dave começaram a formar a unidade que posteriormente ficaria conhecida como The Aces. A formação ganhou contornos definitivos com a entrada do jovem Junior Wells na harmônica e, em 1950, do baterista Fred Below.

Os Aces tinham uma característica que ajudaria a definir o moderno Chicago Blues: precisão rítmica, balanço e uma interação instrumental em que cada músico sabia exatamente quanto tocar. Dave sustentava a base enquanto Louis acrescentava linhas de guitarra mais melódicas e sofisticadas. Fred Below trazia para aquele universo a experiência do jazz, e Junior Wells completava a formação com sua harmônica.

Foi uma combinação particularmente fértil. O grupo não era apenas uma banda de acompanhamento; funcionava como uma pequena máquina de swing aplicada ao blues.

Em 1952, uma troca decisiva aproximou os Aces de Little Walter. Junior Wells passou a tocar com Muddy Waters, enquanto Little Walter, depois do sucesso de “Juke”, assumiu a frente dos Aces. O encontro produziu algumas das gravações mais importantes da primeira fase do Chicago Blues elétrico.

Com Louis Myers na guitarra, os Aces acompanharam Little Walter em registros como Mean Old World, Sad Hours, Off the Wall e Tell Me Mama. A formação também chegou ao palco do Apollo Theater, em Nova York.

O trabalho daqueles anos estabeleceu uma sonoridade que ultrapassaria a carreira individual de seus integrantes. Os Aces ajudaram a criar o ambiente musical em que a harmônica de Little Walter podia assumir uma liberdade quase jazzística sem perder o pulso do blues.

Um mestre do acompanhamento

Louis Myers deixou os Aces em 1954, mas sua atividade musical estava longe de terminar. Seu nome passou a aparecer ao lado de diferentes artistas do blues de Chicago, entre eles Otis Rush e Earl Hooker.

Essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender a importância de Myers. Ele não construiu uma carreira baseada na exposição constante de seu próprio nome. Seu talento aparecia muitas vezes no espaço entre os músicos, na escolha de um acorde, numa resposta de guitarra ou na maneira de sustentar o andamento de uma canção.

A Earwig Music o descreve como um músico de grande domínio de timbre, técnica e bom gosto, conhecido por não tocar além do necessário. Essa característica é fundamental para entender seu legado: Myers era um daqueles instrumentistas capazes de fortalecer uma gravação sem transformar cada momento em demonstração de virtuosismo.

Guitarra e harmônica

Embora tenha ficado particularmente associado à guitarra, Myers também era um competente harmonicista. Em 1956, lançou pelo selo Abco o single Just Whaling / Bluesy, registros instrumentais que revelavam sua proximidade estilística com a linguagem de Little Walter.

Sua produção como líder, entretanto, permaneceu pequena. Dois registros apareceram pela Delmark em 1968, e somente em 1978 Myers finalmente teve a oportunidade de apresentar um álbum completo sob seu próprio nome.

I'm a Southern Man

Gravado na Califórnia e lançado pela Advent em 1978, I'm a Southern Man revelou uma dimensão de Myers que o trabalho como sideman muitas vezes escondia.

O álbum colocou o guitarrista e harmonicista no centro da própria música. Ao lado de músicos como Freddy Robinson, Larry Taylor, Nathaniel Dove e Buster Jones, Myers revisitou diferentes faces do blues, mantendo a ligação com suas raízes sulistas enquanto trabalhava dentro de uma formação elétrica.

O disco também mostrou que o músico que durante décadas havia construído a música dos outros possuía voz própria. Não era apenas o homem por trás de Little Walter, Otis Rush ou outros artistas de Chicago. Havia ali um intérprete e compositor com repertório e personalidade próprios.

O retorno dos Aces

Durante os anos 1970, os Aces voltaram a se reunir e passaram a circular também pela Europa. A antiga formação havia se tornado uma espécie de memória viva do primeiro grande momento do Chicago Blues elétrico, mas continuava funcionando como uma unidade musical eficiente.

As reuniões também ajudaram a recolocar Louis Myers em contato com uma geração de ouvintes que começava a redescobrir os músicos responsáveis pela transformação do blues de Chicago nas décadas anteriores.



Tell My Story Movin'

O capítulo final da discografia de Louis Myers tem uma história particularmente forte. Tell My Story Movin' foi gravado no Acme Recording Studio, em Chicago, e lançado pela Earwig em 1992. A sessão reuniu músicos importantes da cena local, entre eles Steve Freund e John Primer nas guitarras, Robert Stroger no baixo, Sam Burton na bateria e “Barrelhouse” Chuck Goering ao piano.

O álbum ganhou um significado ainda maior porque Myers já enfrentava as consequências de um derrame. A doença havia comprometido sua capacidade de tocar guitarra, e ele participou da gravação principalmente com voz e harmônica. A própria Earwig registra que ele completou o trabalho apesar dessas limitações.

É uma circunstância que muda a maneira de ouvir o disco. Tell My Story Movin' não deve ser tratado simplesmente como uma demonstração tardia do guitarrista dos Aces. É também o registro de um músico tentando preservar sua voz artística quando justamente o instrumento que o tornou conhecido já não respondia como antes.

O repertório mistura composições de Myers com clássicos associados a nomes como Sonny Boy Williamson, Arthur “Big Boy” Crudup, Leroy Carr, Willie Dixon e Big Maceo Merriweather. Entre as faixas estão Wiggle Tail, Blue and Lonesome, Bottom of the Harp, Whoopin' Cough, One More Break, Tribute to the Aces, Heart Attack, Worried Life Blues e a faixa-título, Tell My Story Movin'.

O próprio título parece resumir uma trajetória inteira: contar a própria história enquanto a música continua andando.

As avaliações do álbum são marcadas por essa circunstância. A resenha de Bill Dahl para a AllMusic observa que o disco não poderia representar integralmente o enorme talento de Myers justamente por causa das limitações provocadas pelo derrame, mas destaca sua coragem ao concluir a gravação e registra a presença de músicos como Steve Freund e John Primer.

Na formação reunida pela Earwig, Myers aparece nos vocais e na harmônica, enquanto Steve Freund e John Primer assumem as guitarras, Robert Stroger toca baixo, Sam Burton ocupa a bateria e Barrelhouse Chuck Goering toca piano. O resultado é uma sessão profundamente enraizada no Chicago Blues, mas também atravessada pela memória de toda a carreira de seu protagonista.

Uma história contada em silêncio

Louis Myers morreu em Chicago em 5 de setembro de 1994, aos 64 anos, poucos anos depois de registrar aquele que seria seu último álbum.

Sua trajetória ajuda a lembrar que a história do blues não é construída apenas pelos nomes que aparecem em letras grandes nas capas dos discos. Existe também uma arquitetura feita por músicos que sustentam, acompanham, respondem e dão forma à música de outros artistas.

Louis Myers foi um desses arquitetos.

Na guitarra dos Aces, ajudou a estabelecer a linguagem que acompanharia Little Walter em gravações fundamentais. Na harmônica, demonstrou que também poderia ocupar o centro da cena. Como líder, deixou uma discografia pequena, mas significativa. E em Tell My Story Movin', deixou algo ainda mais raro: o registro de um músico enfrentando as limitações do próprio corpo sem abandonar a música.

Ouvir Louis Myers hoje é voltar àquele Chicago em que o blues elétrico estava descobrindo novas formas de caminhar. E talvez seja justamente essa a melhor maneira de contar sua história: seguir ouvindo enquanto a música continua movendo-se.

Louis Myers — Tell My Story Movin'

O álbum foi lançado pela Earwig em 1992 e reúne 12 faixas, com pouco mais de uma hora de música. É a despedida discográfica de Louis Myers como líder e uma oportunidade de ouvir, em sua voz e em sua harmônica, um dos músicos fundamentais para a construção do som dos Aces e do Chicago Blues dos anos 1950.


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