SaRon Crenshaw: alma profunda e um blues que respira

SaRon Crenshaw: alma profunda e um blues que respira



Estou ouvindo um álbum de 2017 de um guitarrista chamado SaRon Crenshaw. Músicas longas, guitarras cortantes. Seu som carrega o eco dos mestres, mas não se limita a reverenciá-los — há algo ali que pulsa diferente, como se cada nota tivesse sido vivida antes de ser tocada.

Esse álbum é “Drivin’”, um trabalho que não se apressa. São dez faixas distribuídas em dois discos, com mais de 80 minutos de duração — e várias delas ultrapassando os dez minutos, como se o tempo fosse apenas mais um elemento a ser moldado pelo blues .

Um bluesman formado na estrada

SaRon Crenshaw aprendeu guitarra ainda jovem, por volta dos dez anos, e construiu sua carreira longe dos atalhos. Nos anos 1970 e 1980, trabalhou como baixista em bandas que rodavam entre Nova Jersey, Nova York e Carolina do Sul — uma escola prática que moldou sua musicalidade e senso de groove .

Antes de assumir de vez o protagonismo, dividiu palcos e experiências com nomes como Lee Fields, Roy Roberts, Denise LaSalle e Bobby Rush, além de abrir shows para gigantes como B.B. King e Robert Cray . Não por acaso, sua guitarra principal é uma Gibson “Lucille” assinada pelo próprio B.B. King — uma herança simbólica que se reflete no timbre e na abordagem.

Com o tempo, Crenshaw consolidou seu nome nos circuitos de blues da costa leste dos Estados Unidos e também em turnês europeias, construindo uma base fiel de público e respeito entre músicos .

Blues com alma — e identidade

As influências são claras: B.B. King, Albert King, Albert Collins, Stevie Ray Vaughan e Buddy Guy. Mas Crenshaw não soa como uma colagem. Ele próprio define sua música como “blues com um toque de soul” — e isso aparece tanto na guitarra quanto na voz .

Há também elementos de R&B e até de country, que atravessam suas composições como uma estrada longa e imprevisível. Seu fraseado é econômico, mas carregado de intenção. Como já disse um crítico, guitarras falam — e desperdiçar notas é desperdiçar palavras .



Drivin’ (2017): uma viagem sem pressa

Lançado em 2017, “Drivin’” é seu primeiro álbum de estúdio e também sua obra mais ambiciosa. Um disco duplo, com todas as composições assinadas por ele, construídas ao longo de anos .

A inspiração para o álbum veio de uma história quase banal: a compra de um Cadillac antigo que vivia quebrando. Dessa experiência nasceu a faixa-título — e, mais do que isso, uma metáfora para a própria vida na estrada .

Gravado com abordagem quase analógica, o disco privilegia takes contínuos, sem correções ou edições digitais, preservando a sensação de performance ao vivo. O resultado é um som orgânico, cru e profundamente honesto .

A banda que acompanha Crenshaw no álbum é formada por:

SaRon Crenshaw – vocal e guitarra
Tom Larsen – guitarra rítmica e solos
Eric Finland – órgão Hammond C3
Jimmy Odum – baixo
Jordan Rose – bateria
Wayne Tucker – metais
Thomas Hutchings – saxofone
Richard Lee – trompete

O álbum percorre diferentes paisagens do blues: do elétrico vibrante de “Drivin’” ao peso emocional de “World of Misery”, passando por momentos acústicos e introspectivos como “Jailer Blues”. Tudo isso sem pressa, sem concessões.

Por onde anda SaRon Crenshaw?

Após o lançamento de “Drivin’”, Crenshaw seguiu ativo em palcos e festivais, especialmente nos Estados Unidos e na Europa. Há registros de apresentações recentes em circuitos europeus e eventos de blues, indicando que o músico segue em atividade .

No entanto, novos lançamentos de estúdio não surgiram com a mesma frequência. Em tempos de excesso de informação e produção acelerada, Crenshaw parece seguir outro caminho — o da constância silenciosa, da estrada, do palco.

Fica a pergunta que todo ouvinte atento inevitavelmente faz: por onde anda esse excelente bluesman?

Talvez a resposta esteja justamente no som. Em discos como “Drivin’”, o blues não é produto — é processo. Não é pressa — é permanência.

Um nome que merece ser ouvido com atenção

SaRon Crenshaw não é um artista de consumo rápido. Sua música pede tempo, entrega, escuta ativa. Em troca, oferece algo raro: verdade.

“Drivin’” permanece como um registro poderoso de um músico que entende o blues não como gênero, mas como linguagem. E enquanto houver estrada, guitarra e história para contar, nomes como o dele continuarão existindo — mesmo longe dos holofotes.

© Todo Dia Um Blues


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