The Cash Box Kings: a tradição de Chicago em movimento

The Cash Box Kings: a tradição de Chicago em movimento



O blues de Chicago tem uma história marcada por guitarras elétricas, gaitas cortantes, vozes intensas e ritmos feitos para ocupar as pistas dos clubes. Manter essa linguagem interessante para novas gerações é um desafio que exige mais do que reproduzir fórmulas consagradas. É justamente nesse território que se movimenta o The Cash Box Kings, banda que encontrou uma maneira própria de celebrar a tradição sem abrir mão da criatividade.

Fundado em 2001, em Madison, Wisconsin, pelo gaitista, cantor e compositor Joe Nosek, o grupo nasceu da admiração pelos grandes nomes do blues elétrico dos anos 1940, 1950 e 1960. Nosek cresceu nos subúrbios de Chicago e, ainda adolescente, começou a frequentar os clubes da cidade para assistir a apresentações de músicos como Junior Wells, James Cotton, Otis Rush, Jimmy Rogers e Sunnyland Slim. Essas experiências tiveram papel decisivo em sua formação musical.

Depois de se estabelecer em Madison, onde estudou na Universidade de Wisconsin, Nosek começou a reunir músicos interessados em recuperar a energia do blues de Chicago. A proposta não era simplesmente reproduzir gravações antigas, mas devolver à música aquela espontaneidade que fazia dos pequenos clubes ambientes de encontros, improvisos e celebração.

O primeiro resultado dessa caminhada foi Live! At The King Club, lançado em 2003. Vieram depois Black Night Fallin' (2005) e The Royal Treatment (2006), trabalhos que ajudaram a consolidar a identidade da banda no circuito regional.

A parceria que definiu uma identidade

Uma mudança importante aconteceu em 2007, quando Nosek se aproximou do cantor Oscar Wilson, músico de Chicago cuja voz profunda e carregada de personalidade trouxe uma nova dimensão ao projeto. A combinação entre a gaita expressiva de Nosek e a interpretação vigorosa de Wilson passou a ser uma das marcas registradas do The Cash Box Kings.

Wilson, conhecido pelo apelido Mr. 43rd Street, carregava em sua maneira de cantar a herança dos intérpretes do South Side de Chicago. Sua presença ajudou a estabelecer uma conexão ainda mais direta com a tradição vocal de artistas como Muddy Waters e Howlin' Wolf, sem transformar essa influência em simples imitação.

Em 2010, o grupo lançou I-94 Blues, seguido por Holler & Stomp (2011), pela Blind Pig Records. O reconhecimento cresceu com Black Toppin' (2013), que recebeu o Blues Blast Music Award de Traditional Blues Album of the Year. Em 2015, Holding Court ampliou o repertório temático da banda, abordando questões contemporâneas como a pirataria digital e as transformações urbanas provocadas pela gentrificação.

Essa disposição para olhar além dos assuntos tradicionais do gênero sempre foi um diferencial dos Cash Box Kings. Suas composições combinam humor, observação social e histórias cotidianas, mantendo o espírito narrativo do blues sem depender exclusivamente dos temas mais conhecidos do repertório.



The Essential Cash Box Kings: uma porta de entrada para o universo da banda

Lançado em 4 de setembro de 2015 pela Blind Pig Records, The Essential Cash Box Kings funciona como uma excelente apresentação da personalidade musical do grupo. A coletânea reúne 12 faixas que percorrem diferentes momentos de sua trajetória até aquele período, oferecendo uma amostra consistente do trabalho desenvolvido por Nosek, Wilson e seus companheiros.

O repertório começa com I Ain't Gonna Be No Monkey Man e passa por composições como Gotta Move Out to the Suburbs, uma observação bem-humorada sobre as mudanças na vida urbana, e Cash Box Boogie, que destaca a vocação da banda para os ritmos acelerados e dançantes.

Também aparecem I'm a Real Lover, Black Toppin', Run Run Run e Blues Falling Down on Me. Já Trying Really Hard (To Try and Get Along with You) revela o talento do grupo para construir narrativas com ironia e personalidade. A seleção ainda inclui Holler & Stomp, Blues Come Around, Off the Hook e Feel Like Going Home.

Em pouco mais de 40 minutos, o álbum apresenta um conjunto que sabe alternar o peso do Chicago blues elétrico, a leveza do jump blues e a pulsação do boogie. A gaita de Nosek ocupa um lugar central, enquanto a voz de Wilson acrescenta profundidade e autenticidade às interpretações. É um registro particularmente interessante para quem deseja conhecer a fase que antecedeu a chegada da banda à Alligator Records.

Vale destacar que a coletânea não deve ser confundida com um álbum de estúdio inédito. Seu valor está justamente em reunir diferentes gravações e oferecer um panorama acessível de uma etapa importante da discografia do grupo.

Da Blind Pig à Alligator Records

Em 2017, o The Cash Box Kings iniciou uma nova etapa ao assinar com a Alligator Records. Royal Mint, lançado naquele ano, foi o primeiro trabalho da banda pela gravadora e recebeu destaque da revista britânica MOJO, que o incluiu entre os melhores álbuns de blues daquele período.

Dois anos depois, chegou Hail to the Kings! (2019), trabalho que reafirmou a força da parceria entre Nosek e Wilson. O disco recebeu três indicações ao Blues Music Awards e contou com a participação especial de Shemekia Copeland em uma das faixas. O repertório combina composições próprias e releituras de canções de Jimmy Reed e Mercy Dee Walton.

Em 2023, a banda lançou Oscar's Motel, seu terceiro álbum pela Alligator. Produzido por Joe Nosek e gravado em Chicago, o trabalho reúne 11 faixas, entre composições originais e interpretações de músicas de Muddy Waters e Sonny Boy Williamson. A cantora Deitra Farr e o gaitista e cantor John Németh também participam do disco.

O reconhecimento veio acompanhado de apresentações em importantes festivais dos Estados Unidos e da Europa. Chicago Blues Festival, New Orleans Jazz & Heritage Festival, Cambridge Folk Festival, Moulin Blues Festival e Lucerne Blues Festival estão entre os eventos que receberam o grupo. Em 2023, o The Cash Box Kings conquistou o prêmio de Blues Band of the Year no Blues Blast Music Awards.

Uma nova voz para os próximos capítulos

Em 2026, a história do grupo passou por outra transformação. Oscar Wilson deixou a formação para seguir novos caminhos, encerrando uma parceria que havia começado em 2007 e sido fundamental para a projeção internacional da banda.

O novo capítulo trouxe Cameron Webb, cantor nascido e criado no South Side de Chicago, que começou a se apresentar ainda criança na igreja de seu pai. Com influências do gospel, soul, jazz, R&B e blues, Webb já havia dividido os vocais com Wilson em apresentações anteriores, tornando-se uma escolha natural para assumir uma posição de destaque.

Ao lado de Joe Nosek, a nova formação reúne os teclados de Lee Kanehira, o baixista John W. Lauler, os guitarristas Billy Flynn e Andrew Diehl e os bateristas Derek Hendrickson e Kenny Beedy Eyes Smith. Um novo álbum está previsto para o início de 2027, sinalizando que a banda pretende continuar explorando as possibilidades de sua sonoridade.

Mais de duas décadas depois de sua criação, o The Cash Box Kings permanece ligado à essência do blues de Chicago, mas não trata essa herança como uma obrigação de repetir o passado. O grupo entende que a tradição só continua relevante quando encontra espaço para novas histórias, novos músicos e novas maneiras de tocar.

Para quem ainda não conhece o trabalho da banda, The Essential Cash Box Kings é um excelente ponto de partida. Uma seleção que reúne energia, personalidade e aquele balanço irresistível que faz do blues uma música tão próxima da vida real.

Ouça The Essential Cash Box Kings


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