Bernard Allison: o blues segue seu próprio caminho

Bernard Allison: o blues segue seu próprio caminho



Ser filho de uma das figuras mais importantes do blues de Chicago poderia representar um peso considerável para qualquer músico. Para Bernard Allison, entretanto, a herança de Luther Allison nunca foi uma obrigação de reproduzir o passado. Foi o ponto de partida para construir uma trajetória própria, marcada pela liberdade musical, pelo gosto por diferentes sonoridades e por uma guitarra que transita naturalmente entre o blues, o rock, o funk e a soul music.

Nascido em 26 de novembro de 1965, em Chicago, Illinois, Bernard cresceu cercado pela música. Era o caçula de nove filhos e teve uma infância privilegiada pelo contato direto com alguns dos grandes nomes do blues. Acompanhava o pai em festivais e apresentações, conhecendo artistas como Muddy Waters, Hound Dog Taylor e Albert King. Não era apenas uma convivência familiar: era uma verdadeira formação musical, construída nos bastidores, nos palcos e nas conversas entre músicos.

Luther percebeu cedo o interesse do filho pela guitarra. Bernard começou a aprender o instrumento ainda criança, por volta dos dez anos, de maneira autodidata. Aos 12, já demonstrava habilidade suficiente para chamar a atenção do pai, que lhe presenteou com uma Fender Stratocaster. Havia, porém, uma condição: antes de seguir profissionalmente na música, precisava concluir os estudos.

Bernard respeitou o acordo. Em 1983, aos 17 anos, participou do Chicago Blues Festival ao lado de Luther, uma experiência decisiva para quem começava a transformar a paixão em profissão. Depois de concluir o ensino médio, ingressou na banda de Koko Taylor, outra referência fundamental do blues de Chicago. A oportunidade ampliou seus horizontes e lhe proporcionou experiência ao lado de uma das grandes vozes do gênero.

Uma identidade além do sobrenome

A proximidade com Luther foi determinante, mas Bernard nunca se limitou a reproduzir o estilo paterno. Seu interesse por guitarristas como Johnny Winter e Stevie Ray Vaughan contribuiu para desenvolver uma abordagem mais expansiva, na qual a tradição do blues elétrico encontra a energia do rock e a pulsação do funk e do R&B.

Em 1989, mudou-se para a Europa, acompanhando a trajetória internacional do pai. Na França, integrou a banda de Luther e assumiu gradualmente responsabilidades maiores como músico e líder de grupo. A experiência europeia também ajudou a consolidar seu nome diante de um público que acompanhava de perto a renovação do blues contemporâneo.

Em 1990, lançou The Next Generation, seu primeiro álbum solo. O título funcionava como uma declaração de intenções: Bernard fazia parte de uma geração que respeitava profundamente os pioneiros, mas não pretendia permanecer presa aos limites estabelecidos por eles.

Nos anos seguintes, construiu uma discografia consistente. Funkifino (1995), Across the Water (2000), Storms of Life (2002), Higher Power (2005) e Chills & Thrills (2007) demonstraram diferentes aspectos de sua personalidade musical. O guitarrista também manteve uma intensa atividade nos palcos, conquistando espaço em festivais e circuitos internacionais.

Em 2013, aproximou-se ainda mais das raízes do blues do Mississippi ao trabalhar com Cedric Burnside no álbum Express. A parceria evidenciou sua disposição para dialogar com diferentes tradições, sem abandonar a força elétrica que caracteriza suas apresentações.

Outro capítulo importante veio em 2018, com Let It Go, lançado pela Ruf Records. O trabalho alcançou o segundo lugar na parada de blues da Billboard e o primeiro lugar na categoria blues rock do Roots Music Report. Em 2022, Bernard apresentou Highs & Lows, álbum que contou com participações de Bobby Rush e Colin James e voltou a explorar a combinação de blues, funk e R&B. O disco também chegou ao primeiro lugar na parada de blues da Billboard e recebeu indicação ao Blues Music Award na categoria Blues Rock Album.

A memória de Luther e a liberdade de Bernard

Em janeiro de 2024, Bernard lançou Luther's Blues, uma homenagem particularmente significativa ao pai. O álbum duplo reuniu 20 interpretações de composições de Luther Allison, selecionadas entre gravações que Bernard havia realizado ao longo de três décadas de carreira.

Mais do que uma coletânea comemorativa, o projeto representou a continuidade de uma promessa pessoal. Bernard sempre procurou incluir músicas do pai em seus discos e apresentações, mantendo viva uma obra fundamental para a história do blues. A diferença é que suas interpretações nunca foram exercícios de imitação. Ele procura compreender cada composição e levá-la para seu próprio território musical.

Essa relação com a herança familiar também aparece em seu novo trabalho, mas agora dividindo espaço com outras histórias, encontros e influências.



Loving You: encontros, groove e blues contemporâneo

Lançado em 16 de outubro de 2026 pela Ruf Records, Loving You é o mais recente álbum de Bernard Allison. São dez faixas que revelam um artista confortável com sua identidade, interessado em explorar diferentes caminhos sem perder a referência que orienta toda a sua música.

O disco reúne uma série de convidados que acrescentam personalidade ao repertório. Entre eles estão os guitarristas Larry McCray, Devon Allman e Matthew Curry, o pianista e cantor Victor Wainwright e a violinista Heather Hardy. O trabalho também conta com a participação de músicos da própria família Allison, incluindo Jasper e Lyndsey Allison, além de Stevie J Blues.

A abertura, Left Me With My Guitar, apresenta Bernard em clima descontraído. A história de um relacionamento terminado ganha uma resposta bem-humorada: se ficou sem a companheira, ao menos continua com sua guitarra. O resultado é um blues de andamento animado, com espaço para um solo expressivo e cheio de personalidade.

Em 4 O'Clock In The Morning (Waiting On You), Victor Wainwright acrescenta seu piano e sua voz, contribuindo para uma atmosfera que combina blues e R&B. Já Time Traveler aproxima Bernard de Larry McCray. Os dois guitarristas compartilham o espaço com naturalidade, construindo uma conversa musical que valoriza tanto o groove quanto a interação entre os instrumentos.

Outra surpresa aparece em Slide On Over. Com uma sonoridade mais próxima da soul music, a faixa amplia o universo do álbum e recebe os vocais de apoio de Jasper e Lyndsey Allison. É um daqueles momentos em que Bernard demonstra que sua relação com o blues não impede incursões por outros territórios musicais.

O rock entra em cena com Rock & Roll Hoochie Koo, composição de Rick Derringer. A interpretação recupera a energia da canção e abre espaço para a guitarra mais agressiva de Bernard, com a participação de Matthew Curry. Em seguida, Busted & Disgusted oferece uma passagem mais extensa, com pouco mais de seis minutos, permitindo que o guitarrista desenvolva suas ideias sem pressa.

A faixa-título, Loving You, traz Devon Allman e Larry Doc Watkins. O encontro resulta em uma combinação envolvente de blues, soul e funk, com destaque para o trabalho de guitarra de Bernard e Devon. A canção sintetiza bem a proposta do álbum: diferentes personalidades musicais reunidas em torno de uma mesma linguagem.

Em Should I Wait, o repertório recupera uma composição associada ao universo musical de Luther Allison, estabelecendo uma ligação com a história familiar que atravessa toda a carreira de Bernard. Já Pay What You Owe Me chama a atenção pela participação da violinista Heather Hardy, que acrescenta uma textura pouco habitual ao repertório do guitarrista.

O encerramento fica por conta de Blues Thang, uma declaração de compromisso com a música que o acompanha desde a infância. O funk e o blues se encontram em uma faixa que traduz a disposição de Bernard para continuar tocando, viajando e compartilhando sua música com o público.

A recepção inicial também foi positiva. Em resenha publicada em 5 de novembro de 2026, o site Blues Rock Review atribuiu nota 9 de 10 ao álbum. O crítico Moe Moore destacou a qualidade dos músicos convidados e a capacidade de Bernard de incorporar elementos contemporâneos sem perder suas raízes. A publicação apontou Left Me With My Guitar, 4 O'Clock In The Morning, Rock & Roll Hoochie Koo e Loving You entre os destaques.

Hal Horowitz, do Rock & Blues Muse, também ressaltou a diversidade do repertório, observando como o guitarrista percorre diferentes territórios entre o funk, a soul music, o rock e o blues. Para o crítico, a faixa-título representa especialmente bem essa combinação de estilos.

O blues como ponto de partida

Com mais de três décadas de carreira, Bernard Allison não precisa mais provar que é filho de Luther. Sua história já está escrita em discos, apresentações e parcerias que ajudaram a manter o blues vivo em diferentes partes do mundo. O sobrenome abriu algumas portas, mas foi sua personalidade musical que lhe permitiu permanecer.

Loving You não procura reinventar Bernard Allison. Seu mérito está justamente em mostrar um músico que conhece profundamente suas raízes e não tem receio de experimentar. Há guitarras incisivas, ritmos contagiantes, momentos de soul e passagens de rock, tudo conduzido por uma voz e uma maneira de tocar que se tornaram inconfundíveis.

Luther Allison deixou um legado extraordinário. Bernard, por sua vez, encontrou uma maneira própria de honrá-lo: continuar fazendo música com liberdade, personalidade e muito blues.

Ouça Loving You, o novo álbum de Bernard Allison:


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