The Sons of Blues: O Chicago Blues dos Anos 80

The Sons of Blues: O Chicago Blues dos Anos 80



Quando Billy Branch começou a reunir jovens músicos em Chicago nos anos 1970, o blues da cidade atravessava uma mudança de geração. Os grandes nomes continuavam ocupando os palcos, mas uma nova turma já aprendia o idioma diretamente com eles, dentro dos clubes, das bandas e das famílias que carregavam aquela música de uma década para outra. Foi nesse ambiente que nasceram os Sons of Blues.

A história do grupo está profundamente ligada a Branch, um dos grandes harmonicistas surgidos no Chicago Blues moderno. Nascido em 3 de outubro de 1951, em Great Lakes, Illinois, ele se mudou para Chicago ainda jovem e mergulhou na cena local. Em 1975, passou a integrar a banda de Willie Dixon, ocupando o posto de gaitista que havia sido de Carey Bell. Pouco depois, começaria a montar sua própria banda.

Os filhos do blues

O nome Sons of Blues não foi escolhido por acaso. A primeira formação reunia Billy Branch na harmônica e nos vocais, Lurrie Bell na guitarra, Freddie Dixon no baixo e Garland Whiteside na bateria. Lurrie era filho do gaitista Carey Bell; Freddie, filho de Willie Dixon. A própria formação transformava o grupo em uma espécie de encontro entre gerações do blues de Chicago.

A história oficial da Alligator Records registra outra formação importante no período inicial: Jeff Ruffin aparece como baterista no grupo que participou de Living Chicago Blues III. O disco apresenta Branch, Lurrie Bell e Freddie Dixon ao lado de Ruffin e documenta uma banda ainda jovem, formada por músicos que não estavam apenas reproduzindo uma tradição familiar, mas começavam a encontrar suas próprias vozes.

Em 1977, Branch, Bell e Dixon estiveram entre os jovens músicos de Chicago levados à Alemanha para a apresentação New Generation of Chicago Blues, dentro do Berlin Jazz Festival. A experiência internacional ajudou a colocar aquela nova geração diante de uma audiência que acompanhava o blues americano com enorme atenção.

Living Chicago Blues

Um ano depois, os Sons of Blues entraram em estúdio para participar de Living Chicago Blues Volume III, projeto da Alligator Records que se tornou uma das iniciativas mais importantes de documentação do blues de Chicago no final dos anos 1970. A gravadora descreve aquela participação como a primeira gravação da formação de Branch com os Sons of Blues.

O registro também ajuda a entender por que o grupo chamou tanta atenção. Não havia ali uma tentativa de transformar o blues em peça de exposição. Havia músicos jovens tocando uma música que conheciam por dentro, absorvida nos clubes e nas bandas de seus pais e mestres. Lurrie Bell já demonstrava personalidade na guitarra, enquanto Branch construía sua identidade como um dos grandes nomes da harmônica elétrica de sua geração.

A presença dos Sons of Blues na série colocou o grupo ao lado de artistas fundamentais da cena de Chicago e contribuiu para o reconhecimento internacional de uma geração que incluía músicos como Lurrie Bell e outros jovens instrumentistas que começavam a ocupar espaço ao lado dos veteranos.

A formação que chegou à Europa

No início dos anos 1980, a composição da banda havia mudado. Para as gravações de 1982, a formação reunia Billy Branch na harmônica e nos vocais, Lurrie Bell na guitarra e vocais, Elisha “Eli” Murray também na guitarra, J.W. Williams no baixo e Mose Rutues Jr. na bateria.

Essa formação aparece em Chicago's Young Blues Generation, gravado em junho de 1982, e também no repertório registrado durante a turnê do American Folk Blues Festival daquele mesmo ano. A documentação do catálogo L+R confirma as sessões realizadas em Frankfurt e Palma de Mallorca, enquanto os créditos de Live ’82 registram os cinco músicos que participaram das apresentações.

Era uma banda compacta, elétrica e bastante representativa do Chicago Blues daquele momento. A guitarra de Lurrie Bell dialogava com a harmônica de Branch, enquanto a seção rítmica de Williams e Rutues sustentava um repertório que combinava tradição, intensidade de palco e espaço para improvisação.



Live ’82

É justamente essa formação que pode ser ouvida em Live ’82, álbum que merece atenção especial agora que voltou a circular nas plataformas digitais. As gravações foram feitas durante a turnê do American Folk Blues Festival em novembro de 1982, com registros realizados em Frankfurt, na então Alemanha Ocidental, e em Palma de Mallorca, na Espanha.

O repertório percorre algumas das pedras fundamentais do blues elétrico. “Never Make Your Move Too Soon”, “Did You Ever Love a Woman”, “Eyesight to the Blind”, “Sweet Little Angel” e “Reconsider Baby” aparecem ao lado de “My Kind of Woman”. A edição também inclui “Detroit, Michigan”, de Albert King, e “Goin’ on Main Street”, de Billy Branch, como faixas adicionais.

Os créditos revelam ainda uma divisão interessante dos vocais. Lurrie Bell canta em boa parte do repertório, Branch assume a voz em algumas faixas e J.W. Williams aparece em outras. A guitarra fica dividida entre Bell e Eli Murray, criando uma frente instrumental especialmente rica para uma banda cujo centro de gravidade está na harmônica de Branch.

O álbum foi lançado originalmente em 1983 e posteriormente ganhou edição em CD pela Evidence Records em 1994. Portanto, a novidade para quem o encontra agora no streaming está na disponibilidade digital, não na origem das gravações: Live ’82 é um documento de mais de quatro décadas de história.

Depois de Lurrie Bell

Lurrie Bell deixou os Sons of Blues no começo dos anos 1980 e a banda entrou em uma nova fase sob a liderança de Branch. Para Where's My Money?, gravado em 1983, Carlos Johnson assumiu a guitarra e J.W. Williams permaneceu no baixo. O disco mostra como os Sons of Blues não dependiam de uma formação fixa para preservar sua identidade.

Essa capacidade de mudar de músicos sem perder o eixo acompanharia o grupo durante as décadas seguintes. A discografia inclui trabalhos como Where's My Money?, o álbum homônimo de 2000 e Blues Shock, de 2014. A trajetória também se cruza com projetos de Branch ao lado de nomes como Hubert Sumlin, James Cotton, Junior Wells e Carey Bell.

O próprio Branch continuou conduzindo os Sons of Blues muito além daquele primeiro período. A formação mudou diversas vezes, incorporando músicos de diferentes gerações. Em uma biografia oficial do grupo, aparecem, entre outros, o baixista Nick Charles, o baterista Mose Rutues Jr., o pianista Sumito Ariyoshi, conhecido como Ariyo, e o guitarrista Dan Carelli.

Mais recentemente, os Sons of Blues continuam ligados ao circuito de Chicago. Em 2026, a banda participou do Chicago Blues Festival em uma apresentação que celebrou os 75 anos de Billy Branch, com participações de Ronnie Baker Brooks e Kenny Neal.

Uma banda que atravessa gerações

Talvez a característica mais interessante dos Sons of Blues esteja justamente nessa continuidade. O grupo nasceu quando jovens músicos ainda estavam descobrindo como ocupar um espaço que havia sido construído por seus pais e mestres. Lurrie Bell carregava o sobrenome de Carey Bell. Freddie Dixon carregava o de Willie Dixon. Billy Branch, embora não fosse filho de uma lenda do blues, tornou-se um dos principais responsáveis por conectar aquela geração à seguinte.

Com o passar do tempo, os nomes mudaram, mas a proposta permaneceu reconhecível: tocar Chicago Blues com músicos capazes de conhecer profundamente a tradição sem transformar a linguagem em fórmula. É uma história que começou nos clubes da cidade, atravessou a Europa e chegou a diferentes gerações de ouvintes.

Mais de quarenta anos depois, Live ’82 permite voltar justamente ao momento em que essa história ganhava uma dimensão internacional. A gravação captura Branch, Lurrie Bell, Eli Murray, J.W. Williams e Mose Rutues Jr. no palco, diante de um público europeu, fazendo aquilo que os Sons of Blues sempre fizeram melhor: colocar o blues de Chicago em movimento.

Live ’82: uma fotografia sonora de 1982

Ouvir Live ’82 hoje é reencontrar uma formação particularmente importante dos Sons of Blues e uma banda em plena atividade, ainda jovem, mas já suficientemente madura para enfrentar grandes palcos. A gravação preserva a força da guitarra de Lurrie Bell, o domínio de Billy Branch sobre a harmônica e uma cozinha que mantém cada faixa pulsando.

Não é um álbum novo. É melhor compreendê-lo como um documento que ganhou uma nova possibilidade de escuta. Registrado em 1982, lançado originalmente em 1983 e posteriormente recuperado em CD, Live ’82 chega às plataformas para lembrar que parte importante da história do Chicago Blues continua acontecendo no presente sempre que uma gravação antiga volta a encontrar novos ouvidos.


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