Sherman Robertson: a guitarra entre o fogo do Texas e as raízes da Louisiana
Sherman Robertson: a guitarra entre o fogo do Texas e as raízes da Louisiana
Sherman Robertson tinha uma maneira muito particular de tocar blues. Sua guitarra era incisiva, cheia de energia e capaz de transformar um riff em convite para dançar. Na voz, carregava a mesma intensidade. E, por trás desse som elétrico, havia uma formação musical que atravessava diferentes tradições do sul dos Estados Unidos, do swamp blues ao rhythm and blues, passando pelo zydeco, a música de raízes crioulas da Louisiana.
Nascido em 27 de outubro de 1948, em Breaux Bridge, Louisiana, Sherman cresceu em Houston, no Texas. Essa mudança de território ajudou a definir sua identidade musical. De um lado, as cadências e os ritmos festivos de sua terra natal; de outro, a guitarra elétrica texana, com seus ataques vigorosos, solos prolongados e timbres cortantes. Robertson não precisou escolher entre essas influências. Encontrou justamente na combinação delas sua assinatura.
Uma guitarra descoberta ainda na adolescência
A música entrou na vida de Sherman por meio de uma experiência que ele jamais esqueceu. Aos 13 anos, assistiu pela televisão a uma apresentação de Hank Williams. O cantor country despertou sua curiosidade, e o jovem começou a perceber como a música podia carregar elementos do blues mesmo quando vinha de outro universo musical.
Seu pai comprou para ele um violão Stella usado, por apenas 12 dólares. Sherman passou a estudar guitarra com dedicação impressionante, explorando o repertório de Freddie King e Floyd London. Ainda adolescente, já tocava com músicos locais e se apresentava em bares do Fifth Ward, bairro de Houston conhecido por sua intensa vida musical.
A proximidade com o ambiente das gravadoras Duke e Peacock também colocou Robertson em contato com artistas e profissionais que ajudaram a alimentar sua formação. Houston oferecia uma mistura de blues, soul e rhythm and blues que encontraria espaço em seu modo de tocar nos anos seguintes.
A escola de Clifton Chenier
Em 1982, um encontro mudou o rumo de sua carreira. Sherman se apresentava no Crosstown Blues Festival quando chamou a atenção de Clifton Chenier, uma das figuras fundamentais do zydeco. O acordeonista reconheceu o talento do guitarrista e o convidou para integrar sua banda.
A experiência foi decisiva. Na estrada com Chenier, Robertson aprofundou seu contato com os ritmos da Louisiana e aprendeu uma lição que levaria para toda a carreira: a música precisa funcionar diante do público, fazer o corpo responder e estabelecer uma comunicação direta com quem está ouvindo.
Depois da morte de Chenier, Sherman também trabalhou com Rockin' Dopsie e, posteriormente, com Terrance Simien & the Mallet Playboys. Essas experiências ampliaram seu repertório e o levaram a palcos internacionais. O músico ainda participou das sessões de Graceland (1986), álbum de Paul Simon que aproximou a música popular norte-americana de sonoridades africanas.
Apesar dessa trajetória ligada ao zydeco, Robertson sentia vontade de retomar o blues como centro de sua expressão artística. No início dos anos 1990, começou a preparar o caminho para uma carreira solo mais consistente.
A carreira solo ganha força
Em 1994, Sherman lançou I'm the Man, álbum que apresentou ao público uma combinação de guitarra vigorosa, vocais potentes e composições que dialogavam com o blues contemporâneo. O trabalho saiu pelo selo Code Blue, ligado à Atlantic Records, e ajudou a ampliar sua presença no circuito internacional.
Dois anos depois, veio Here & Now, dando continuidade à proposta e mostrando um artista interessado em explorar diferentes nuances do gênero, sem abandonar a força rítmica que havia desenvolvido ao longo dos anos.
Robertson tinha uma concepção bastante clara de seu trabalho. Para ele, o blues não precisava ficar restrito à melancolia. A música também podia ser festiva, dançante e cheia de vitalidade. Essa visão aparece na maneira como sua guitarra conduz as canções: mesmo quando o tema é doloroso, o ritmo mantém o corpo em movimento.
Going Back Home: o encontro de suas raízes com o blues elétrico
Lançado em 15 de setembro de 1998, Going Back Home é um dos trabalhos mais representativos de Sherman Robertson. Produzido por Joe Harley e gravado em Hollywood, o álbum captura a força de suas apresentações ao vivo em um registro de estúdio que privilegia a guitarra, a voz e o entrosamento entre os músicos.
A banda reúne nomes experientes. Bill Payne, do Little Feat, toca piano, órgão Hammond B-3 e piano elétrico Wurlitzer; Richie Hayward, também integrante do Little Feat, assume a bateria; Bob Glaub toca baixo; e Joe Sublett acrescenta o saxofone tenor. O resultado é uma sonoridade encorpada, que dá espaço para os solos sem perder a fluidez dos arranjos.
A abertura com “Guitar Man” estabelece o tom do disco. Robertson apresenta sua guitarra com autoridade, combinando precisão rítmica e ataques que parecem nascer diretamente da energia dos palcos. Em “I Don't Want No Woman”, o shuffle texano ganha destaque, enquanto “Me, My Guitar and the Blues” explora um andamento mais lento, permitindo que cada frase instrumental respire.
Um dos momentos especiais é “Don't Throw Your Love On Me So Strong”, composição associada a Albert King. Robertson revisita a canção sem simplesmente reproduzir o modelo de seu antecessor: a guitarra carrega sua própria personalidade, sustentada por uma base que evoca o clima de um bar texano.
A faixa-título, “Going Back Home”, reforça a ligação do músico com suas origens e com a necessidade de encontrar um lugar próprio dentro da tradição. Já “Fall in Love” recupera o balanço ligado à Louisiana, mostrando como as experiências com o zydeco continuavam presentes mesmo quando o blues elétrico ocupava o primeiro plano.
O encerramento com “Driving All Night” evidencia outra qualidade de Robertson: a capacidade de unir interpretação vocal expressiva e guitarra intensa em uma canção de atmosfera noturna. Ao longo das onze faixas, originais e releituras convivem sem que o álbum perca unidade.
Going Back Home não é apenas uma demonstração de habilidade instrumental. É o retrato de um músico que absorveu diferentes tradições, percorreu muitos palcos e chegou a um estilo próprio. A produção deixa a guitarra ocupar o espaço necessário, enquanto a banda sustenta o groove com segurança e naturalidade.
Um músico de palco
A reputação de Sherman Robertson cresceu também por suas apresentações. Seus shows podiam se estender por horas, com solos de slide, mudanças de dinâmica e uma relação direta com a plateia. Ele tinha técnica, mas não fazia da técnica um fim em si mesma. A guitarra precisava contar uma história, provocar uma reação e manter a música viva.
Em 2005, lançou Guitar Man – Live, registro que documenta essa faceta e reafirma a importância do palco em sua trajetória. O trabalho também mostra a continuidade de sua dedicação ao blues depois dos álbuns que marcaram sua fase mais conhecida nos anos 1990.
Sherman Robertson morreu em 28 de janeiro de 2021, aos 72 anos, em Silver Lake, Ohio. Sua trajetória deixou um legado que vai além da discografia: ele ajudou a aproximar diferentes tradições regionais e demonstrou como o blues pode preservar suas raízes sem perder o movimento.
Para quem ainda não conhece seu trabalho, Going Back Home é um excelente ponto de partida. O álbum reúne o fogo da guitarra texana, o balanço da Louisiana e uma banda que entende exatamente quando acompanhar e quando abrir espaço. É Sherman Robertson fazendo aquilo que sabia fazer melhor: transformar o blues em música de presença, ritmo e personalidade.
Ouça Going Back Home e descubra um guitarrista que nunca precisou escolher entre a tradição e a própria voz.


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