Sean Costello: o blues que amadureceu depressa demais
Sean Costello: o blues que amadureceu depressa demais
Sean Costello nasceu na Filadélfia, em 16 de abril de 1979, mas foi em Atlanta que sua história musical ganhou forma. A família se mudou para a Geórgia quando ele tinha nove anos e, pouco depois, o garoto começou a tocar guitarra. Primeiro vieram o rock pesado e a curiosidade de quem queria entender o instrumento. Então apareceu o blues. Um dia, encontrou uma fita de Howlin’ Wolf numa loja de discos e, a partir dali, sua direção ficou muito mais clara.
Costello cresceu cercado por uma tradição que não enxergava o blues como peça de repertório, mas como linguagem. O guitarrista Felix Reyes tornou-se um de seus primeiros mentores e ajudou a desenvolver no jovem músico algo que permaneceria essencial em sua carreira: ouvir antes de tocar. Mais tarde, Ronnie Earl ampliaria essa formação, enquanto nomes como Levon Helm e Donnie McCormick também deixariam marcas profundas em sua maneira de pensar música, composição e palco.
A precocidade de Costello não demorou a chamar atenção. Aos 14 anos, ele venceu o concurso de novos talentos da Memphis Blues Society. O prêmio incluía tempo de estúdio, oportunidade que resultou em Call The Cops, seu álbum de estreia. O disco apresentava um adolescente com impressionante domínio do blues elétrico das décadas de 1940 e 1950, mas também revelava uma característica que acompanharia sua trajetória: a capacidade de absorver referências históricas sem desaparecer dentro delas.
A passagem por Memphis também aproximou Costello de Susan Tedeschi. Ele acabou se tornando seu guitarrista e participou da gravação de Just Won’t Burn, álbum que ajudaria a projetar Tedeschi nacionalmente e que posteriormente receberia certificação de ouro. A experiência colocou o jovem músico em contato com um público muito maior e com uma rotina profissional intensa, justamente quando sua própria identidade artística começava a se consolidar.
Em 2000 veio Cuttin’ In. Aos 20 anos, Costello já não era apenas o adolescente prodígio que impressionava pelo instrumento. Sua voz começava a ganhar corpo, as composições ficavam mais pessoais e o repertório se expandia. O álbum lhe rendeu uma indicação ao W.C. Handy Award como novo artista de blues, reconhecimento que confirmava uma percepção cada vez mais evidente: havia ali um músico jovem, mas artisticamente muito mais maduro do que sua idade sugeria.
Moanin’ For Molasses, lançado em 2002, aprofundou esse caminho. Costello mergulhou ainda mais no blues de Chicago e de Nova Orleans, revisitou Jimmy Rogers, Buddy Guy, Jody Williams, J.B. Lenoir e Otis Rush, mas também aproximou sua música do soul e do rhythm and blues. Essa combinação se tornaria uma de suas marcas. O blues continuava sendo a raiz, mas Costello não parecia interessado em permanecer parado diante dela.
Em 2005, o álbum simplesmente chamado Sean Costello ampliou essa perspectiva. Produzido por Steve Rosenthal, o disco aproximou guitarra, soul, funk e rock, reunindo músicos de grande peso, entre eles Levon Helm, Steve Jordan e Willie Weeks. Costello estava cada vez mais interessado na força de uma canção e na intensidade de uma interpretação. A guitarra continuava afiada, mas já não precisava ocupar todo o espaço.
Esse amadurecimento aparece de maneira ainda mais clara em We Can Get Together. Lançado pela Delta Groove em 19 de fevereiro de 2008, o disco seria seu quinto e último álbum lançado em vida. Costello assumiu também a produção e, das 11 faixas, nove eram composições próprias, a maior concentração de material autoral de sua discografia até então.
É um álbum em que o blues conversa abertamente com soul, gospel, funk e R&B. “Can’t Let Go” tem uma elegância soul que contrasta com a aspereza de “Hard Luck Woman”. “How In The Devil” mostra que a velha eletricidade da guitarra continuava intacta, enquanto “Going Home” leva o repertório para o território do gospel. No encerramento, “Little Birds” recebe um tratamento que une tradição e personalidade, com Costello colocando sua guitarra a serviço da atmosfera da canção.
O mais interessante talvez esteja na relação entre voz e guitarra. Costello já não precisava provar que sabia tocar. Seu fraseado podia ser econômico, áspero ou explosivo conforme a música exigisse. A voz, por sua vez, carregava uma espécie de desgaste precoce, uma rouquidão que fazia suas interpretações soarem vividas mesmo quando vinham de alguém que ainda não havia completado 29 anos.
Costello também construiu uma trajetória paralela como músico de apoio e colaborador. Tocou ao lado de artistas que pertenciam ao próprio imaginário musical que o havia formado, entre eles B.B. King, Buddy Guy, James Cotton, Pinetop Perkins, Hubert Sumlin e Dr. John. Em 2007, seu trabalho com Nappy Brown ganhou destaque em Long Time Coming, álbum de retorno do veterano cantor de rhythm and blues. Costello estava entre os guitarristas responsáveis por criar o ambiente musical para uma das vozes históricas do gênero.
Havia, portanto, uma curiosa inversão em sua trajetória. Quando adolescente, Costello era o garoto que chegava aos palcos para tocar ao lado de músicos que admirava. Pouco mais de uma década depois, já era ele quem carregava a experiência acumulada de diferentes gerações e começava a ser visto como uma referência para quem vinha depois.
Sean Costello morreu em Atlanta em 15 de abril de 2008, um dia antes de completar 29 anos. Sua morte interrompeu uma trajetória que parecia estar entrando justamente em sua fase mais interessante. We Can Get Together havia chegado às lojas menos de dois meses antes e apresentava um artista mais seguro como compositor, cantor, guitarrista e produtor.
Talvez seja essa a razão de sua obra continuar causando uma sensação tão particular. Costello não deixou uma discografia extensa. Deixou cinco álbuns e uma série de participações importantes. Mas esses registros documentam uma evolução rápida, quase vertiginosa: do jovem guitarrista fascinado pelo blues de Chicago ao músico que conseguia aproximar blues, soul, gospel e R&B sem perder a tensão elétrica da guitarra.
We Can Get Together
É por We Can Get Together que vale voltar a Sean Costello. O disco não funciona apenas como despedida involuntária, mas como retrato de um artista que havia encontrado um equilíbrio próprio. Há tradição, mas também composição; há força instrumental, mas a canção vem primeiro; há blues, mas as fronteiras permanecem abertas.
Escutá-lo hoje é perceber o tamanho do caminho que Costello já havia percorrido e, principalmente, imaginar para onde poderia ter levado aquela música. Em vez de responder essa pergunta, o melhor é deixar o álbum tocar. As onze faixas fazem esse trabalho por ele.


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