Nat Myers: a poesia inquieta de um bluesman do século XXI

Nat Myers: a poesia inquieta de um bluesman do século XXI



Nat Myers encontrou no blues uma maneira de contar histórias que atravessam gerações. Cantor, guitarrista e compositor norte-americano de ascendência coreana, ele combina a sonoridade rústica do country blues com uma escrita atenta às contradições da vida contemporânea. Sua música carrega a poeira das estradas, a solidão de quem está sempre em movimento e a consciência de alguém que conhece o peso das palavras.

Nascido no Kansas e criado entre o oeste do Tennessee e o norte do Kentucky, Myers teve uma relação com a música que passou primeiro pela escuta e pela literatura. Seu pai gostava de blues, mas foi o interesse pela poesia que ajudou o jovem artista a compreender a dimensão narrativa desse repertório. Ao mergulhar nas gravações de pioneiros como Blind Lemon Jefferson e Charley Patton, percebeu que aqueles músicos eram muito mais do que instrumentistas: eram contadores de histórias, cronistas de uma América marcada por desigualdades, deslocamentos e conflitos.

Essa descoberta mudou sua perspectiva. Myers passou a enxergar o blues como uma forma de literatura popular, capaz de transformar experiências individuais em narrativas que dizem respeito a muita gente. A partir daí, sua escrita musical começou a aproximar a linguagem da poesia das estruturas tradicionais do gênero.

Entre a poesia e as ruas

O interesse pela palavra levou Myers a estudar poesia na The New School, em Nova York. Durante esse período, ele também tocou nas ruas e nas estações de metrô, experiências que ajudaram a desenvolver sua presença como intérprete e sua capacidade de estabelecer contato direto com o público.

A vida de músico itinerante deixou marcas em seu repertório. A estrada não aparece apenas como cenário, mas como condição de existência: viajar, encontrar desconhecidos, escapar de situações difíceis e tentar compreender o que se procura pelo caminho. Há uma inquietação permanente em suas canções, como se cada parada fosse provisória e o próximo destino guardasse uma resposta ainda desconhecida.

Antes de alcançar um público mais amplo, Myers lançou trabalhos independentes como Field Recordings (2020) e Hobo Wine & Remedy Blues (2021). Nessas gravações, já estavam presentes o apreço pelo blues acústico, a interpretação sem excessos e a vontade de construir uma identidade própria a partir de referências antigas.

Durante a pandemia, com as apresentações ao vivo interrompidas, o músico passou a divulgar vídeos de suas performances nas redes sociais. Foi assim que chamou a atenção de Dan Auerbach, vocalista e guitarrista do The Black Keys e fundador do selo Easy Eye Sound. O contato abriu caminho para uma parceria que ampliaria consideravelmente o alcance de seu trabalho.



Yellow Peril: tradição, identidade e enfrentamento

Lançado em 23 de junho de 2023, Yellow Peril é o álbum de estreia de Nat Myers. Produzido por Dan Auerbach, o disco foi gravado na casa centenária do produtor, em Nashville, num ambiente que contribuiu para preservar a atmosfera orgânica e intimista das canções. Em vez de recorrer a uma produção excessivamente polida, as gravações valorizam o violão, o ritmo, a voz e a energia de uma interpretação que parece acontecer diante do ouvinte.

O resultado reúne dez faixas de blues, folk e música de raízes norte-americanas. Os arranjos são econômicos, mas não acomodados. Há levadas aceleradas, ritmos sinuosos, guitarras de sonoridade crua e uma voz que alterna ironia, urgência e melancolia. Myers não tenta reproduzir mecanicamente os discos que o formaram. Ele absorve aquela linguagem e a utiliza para falar de seu próprio tempo.

A faixa-título concentra uma das dimensões mais importantes do álbum. A expressão Yellow Peril, historicamente associada a estereótipos racistas contra povos asiáticos, ganha um significado contundente na composição. Escrita durante a pandemia de Covid-19, a canção confronta o preconceito e a hostilidade dirigidos às comunidades asiáticas, que se intensificaram naquele período. O blues, nesse contexto, deixa de ser apenas uma referência musical e se torna instrumento de denúncia.

Há uma escolha artística significativa nessa abordagem. Myers, um músico asiático-americano, utiliza uma tradição musical historicamente desenvolvida por artistas negros para contar histórias ligadas à própria experiência. Não se trata de apagar as origens do blues nem de reivindicar para si uma história que não lhe pertence. Trata-se de reconhecer a força dessa linguagem, respeitar sua herança e encontrar nela recursos para expressar conflitos atuais.

O álbum também sabe respirar. Em 75-71, o artista evoca a geografia e a experiência de viver no Kentucky, enquanto Ramble No More e Duck N’ Dodge destacam o impulso rítmico e o espírito errante que atravessam o repertório. Já Misbehavin’ Mama e Undertaker Blues exploram o imaginário tradicional do gênero, com personagens, ambiguidades e situações que parecem ter atravessado décadas sem perder a capacidade de surpreender.

Em Pray For Rain, a sonoridade de raízes ganha uma energia contagiante. A faixa ajuda a mostrar como o disco equilibra a familiaridade do blues antigo com uma execução viva, sem transformar a reverência aos pioneiros em exercício de nostalgia. São dez músicas que mantêm a tradição em movimento e dão espaço à personalidade de seu intérprete.

Um blues que não vive no passado

O mérito de Nat Myers está em compreender que o blues não precisa ficar confinado à reprodução de fórmulas históricas para preservar sua autenticidade. A tradição continua relevante quando oferece ferramentas para interpretar o presente, seja ao falar de preconceito, deslocamento, solidão ou da busca por algum sentido em meio à instabilidade.

Em Yellow Peril, essa perspectiva aparece tanto nas letras quanto na própria construção musical. A guitarra acústica, os ritmos de aparência antiga e a interpretação direta convivem com uma visão de mundo formada no século XXI. O passado está presente, mas não dita sozinho os caminhos do disco.

Com sua estreia, Myers apresentou um trabalho que chamou a atenção para uma voz singular no blues contemporâneo. Um artista que escreve como poeta, toca com a urgência de quem aprendeu nas ruas e canta como alguém que sabe que as histórias mais importantes raramente terminam onde começaram.

Ouvir Yellow Peril é acompanhar esse movimento: uma viagem pelas raízes do blues norte-americano conduzida por um músico que não tem medo de acrescentar sua própria experiência à narrativa. Nat Myers olha para trás para compreender a linguagem que escolheu, mas é no presente que encontra as histórias que precisa contar.

Ouça Yellow Peril, de Nat Myers


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