Marcus Bonfanti: quando o blues encontra a eletricidade do rock

Marcus Bonfanti: quando o blues encontra a eletricidade do rock



A guitarra de Marcus Bonfanti tem a aspereza do blues, a energia do rock e uma voz que parece carregar as marcas de cada história que conta. Nascido em Londres, o músico construiu uma trajetória que combina composições próprias, apresentações intensas e uma compreensão ampla da música de raiz americana. Em vez de reproduzir fórmulas consagradas, Bonfanti fez do encontro entre o blues tradicional e a eletricidade do rock um caminho para desenvolver sua identidade.

Sua história começou longe dos palcos que mais tarde ocuparia. Durante a juventude, estudou trompete e tocou em bandas de metais. A guitarra entrou definitivamente em seus planos aos 16 anos, depois de ouvir “Black Dog”, do Led Zeppelin. O impacto daquela gravação mudou sua direção musical e abriu uma porta para um universo que, pouco a pouco, o levaria de volta às raízes do próprio rock: o blues.

Para comprar seu primeiro instrumento, Bonfanti chegou a trabalhar longas jornadas em uma cozinha. A dedicação também o levou ao Liverpool Institute for Performing Arts, instituição na qual estudou antes de decidir que a experiência profissional como músico seria o melhor caminho para sua formação.

A estrada como escola

No início da carreira, Bonfanti trabalhou como músico acompanhante e passou anos tocando com diferentes artistas. Essa experiência ampliou seu repertório e lhe deu contato com diversas maneiras de abordar a guitarra, a interpretação vocal e a composição. Ao mesmo tempo, desenvolveu seu próprio trabalho, apostando em canções que não escondem suas referências, mas tampouco se limitam a elas.

Em 2008, lançou Hard Times, seu primeiro álbum completo. O disco apresentou um compositor interessado em explorar as tensões da vida cotidiana por meio de um blues-rock direto, com guitarras expressivas e uma interpretação vocal marcada pela rouquidão. Era uma estreia que anunciava a chegada de uma voz própria à cena britânica.

Dois anos depois, What Good Am I to You? ampliou esse reconhecimento. O álbum apareceu entre os 50 melhores discos de 2010 em uma seleção da revista Classic Rock, enquanto a canção “Give Me Your Cash” também recebeu destaque. Em 2012, Bonfanti conquistou o British Blues Award de melhor compositor, confirmação de que seu trabalho ultrapassava o interesse restrito aos apreciadores da guitarra.

A sequência veio com Shake the Walls, lançado em junho de 2013. O álbum foi gravado em fita analógica, uma escolha coerente com a sonoridade orgânica que o músico buscava. A publicação Classic Rock incluiu o trabalho entre seus destaques de blues daquele ano, e faixas do disco chegaram à programação da BBC Radio 2 e da BBC Radio 6 Music. Bonfanti também recebeu o British Blues Award de melhor instrumentista acústico em 2013 e 2014.

Do circuito de blues aos grandes palcos

Ao longo desse percurso, Bonfanti dividiu palcos com nomes importantes do blues e do rock, entre eles Robert Cray, Chuck Berry, Shuggie Otis, Jack Bruce, John Mayall e Beth Hart. Também trabalhou como acompanhante de artistas como Joe Louis Walker, Eric Burdon e P. P. Arnold, acumulando experiências que ajudaram a consolidar sua reputação como guitarrista versátil.

Em Londres, participou ainda do Ronnie Scott’s Blues Explosion, projeto ligado à tradicional casa de jazz Ronnie Scott’s. A convivência com músicos de diferentes gerações reforçou uma característica central de seu trabalho: a capacidade de transitar entre o blues acústico, a guitarra elétrica e o rock sem perder a conexão com a canção.

Em 2014, recebeu o convite para assumir os vocais e a guitarra do Ten Years After, grupo fundamental para a história do blues-rock britânico, conhecido também por sua participação no festival de Woodstock, em 1969. Bonfanti passou a integrar uma formação que incluía os integrantes históricos Ric Lee e Chick Churchill, além do baixista Colin Hodgkinson.

A tarefa exigia equilíbrio. Era preciso respeitar o legado de uma banda associada à guitarra incendiária de Alvin Lee sem transformar os concertos em simples reproduções do passado. Bonfanti levou sua personalidade ao repertório, contribuindo para manter as canções em circulação diante de novas plateias. Sua passagem pelo grupo se estendeu por cerca de uma década, paralelamente ao trabalho solo.



Um blues de identidade própria

A trajetória de Marcus Bonfanti revela um músico que compreende o blues como linguagem viva. Suas referências atravessam a tradição americana, o blues britânico e o rock, mas encontram expressão em composições que privilegiam a força da interpretação. A guitarra pode soar áspera e incisiva; em outros momentos, o formato acústico deixa as canções mais expostas, aproximando o ouvinte da voz e das histórias.

Essa alternância não é uma contradição. É justamente o que dá dimensão ao seu trabalho. Bonfanti conhece o peso da eletricidade, mas também sabe que uma canção pode ganhar intensidade quando os arranjos deixam espaço para a interpretação respirar.

Seu percurso, da estreia independente aos palcos do Ten Years After, mostra a persistência de um artista que construiu seu lugar sem abandonar a composição. E é em Hard Times, o álbum que apresentou Marcus Bonfanti ao público em 2008, que encontramos o primeiro retrato completo dessa personalidade musical.

Hard Times: a estreia de uma voz britânica

Lançado em 2008 pelo selo P3 Music, Hard Times reúne dez faixas em aproximadamente 37 minutos. O repertório é inteiramente creditado a Bonfanti como compositor, e o músico também assumiu um papel amplo na produção e na execução dos instrumentos. O resultado é um disco de blues-rock que aposta na personalidade das canções, na guitarra como elemento narrativo e em uma interpretação vocal que não procura polir as arestas.

A abertura, “Diamonds in the Rust”, apresenta o lado mais incisivo do álbum. “Not Meant for This World” aprofunda o clima introspectivo, enquanto a faixa-título concentra a atmosfera de resistência que atravessa o repertório. Em “Now I'm Gone (Is Your Life Better?)”, o título já sugere o desconforto de uma despedida; “Teach the Preacher” e “Judgement Day” exploram imagens e temas que dialogam com a tradição do blues, sem abandonar a abordagem contemporânea do guitarrista.

O disco segue por diferentes nuances até “The Girl I Knew”, “When You Come Home” e “Waitin' for My Life”, completando um conjunto que alterna intensidade elétrica, reflexão e narrativa pessoal.

O interesse de Hard Times está menos na tentativa de reinventar o blues do que na maneira como Bonfanti transforma suas influências em material próprio. O álbum tem a urgência de uma estreia e a segurança de alguém que passou anos aprendendo a música no palco, observando outros artistas e encontrando sua própria voz.

Para quem deseja conhecer Marcus Bonfanti além de sua passagem pelo Ten Years After, este é o ponto de partida ideal: um disco que apresenta o compositor, o guitarrista e o intérprete em plena formação, com a energia de quem tem muito a dizer e não precisa esconder suas raízes.


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