Jerron Paxton: tradição, memória e um blues que continua mudando
Jerron Paxton: tradição, memória e um blues que continua mudando
Jerron Paxton nasceu em Los Angeles, em 26 de janeiro de 1989, mas boa parte da música que o formou veio de muito mais longe. Sua família carregava raízes profundas na Louisiana, e foi dentro de casa, sobretudo ao lado da avó, que ele começou a entender que determinadas canções não pertenciam apenas ao passado. Elas eram parte da vida.
Criado em South Central Los Angeles, Paxton cresceu cercado por histórias, comida, costumes e músicas trazidas do Sul por sua família. A migração dos parentes da Louisiana para a Califórnia, na década de 1950, criou uma espécie de ponte cultural que atravessava gerações. O menino que escutava a avó cantar e tocar acabaria encontrando nessa herança o caminho para se tornar um dos mais interessantes intérpretes contemporâneos da música negra tradicional americana.
O encontro decisivo com o blues aconteceu ainda na infância. Por volta dos oito anos, Paxton ouviu gravações antigas de artistas como Bukka White e Scott Dunbar e percebeu que aquela música lhe dizia alguma coisa que outras não diziam. A descoberta foi acompanhada por uma curiosidade quase obsessiva. Ele gravava músicas do rádio e da televisão em fitas, voltava a ouvi-las inúmeras vezes e tentava entender como cada instrumento, frase e ritmo se encaixava.
Aos 12 anos começou a estudar violino. Dois anos depois, chegou ao banjo. O aprendizado não ficou restrito às aulas: sua formação aconteceu também pela escuta, pela convivência familiar e pela tentativa permanente de reconstruir aquilo que ouvia. Sua avó teve papel fundamental nesse processo, transmitindo fragmentos de canções e ensinando-o a perceber como uma melodia poderia encontrar outra.
É aí que começa a ficar difícil definir Jerron Paxton apenas como bluesman. Ele toca guitarra, banjo, piano, violino, harmônica e outros instrumentos associados a diferentes tradições. Seu repertório atravessa country blues, ragtime, old-time, música cajun e formas antigas da música popular negra americana. Paxton prefere se apresentar como songster, uma definição que faz sentido diante da amplitude de sua abordagem.
Em vez de separar essas linguagens em compartimentos, ele procura enxergar as relações entre elas. O blues de doze compassos pode dividir espaço com o ragtime; uma frase de banjo pode carregar ecos africanos; uma canção aparentemente simples pode reunir experiências familiares, memória histórica e observações sobre a vida contemporânea.
Na adolescência, outro acontecimento mudaria sua relação com o mundo. Paxton começou a perder a visão e, aos 17 anos, foi considerado legalmente cego. O processo não interrompeu sua trajetória musical. Pelo contrário: a música continuou sendo uma forma de autonomia, descoberta e comunicação.
Em 2007, depois de concluir o ensino médio, ele deixou a Califórnia e passou um período no estado de Nova York, onde estudou no Marist College. A mudança também abriu caminho para sua presença na cena musical de Nova York. Foi ali que o jovem músico começou a construir uma carreira profissional ligada aos circuitos de folk, blues e música de raízes.
Paxton não demorou a chamar atenção por uma característica rara: sua relação com a música antiga não parecia resultar de uma tentativa de recriação estética. Ele não estava simplesmente procurando soar como alguém de 1930. Aqueles sons faziam parte de sua formação. Ele os havia estudado, ouvido dentro de casa, absorvido de discos e aprendido com pessoas que carregavam aquela tradição na própria vida.
Por isso, sua interpretação tem uma qualidade particular. Há domínio técnico, mas também humor, espontaneidade e uma espécie de conversa permanente com quem está ouvindo. Paxton pode tocar com precisão histórica e, no instante seguinte, introduzir uma ironia ou uma observação que traz a canção de volta para o presente.
Essa relação entre passado e presente se tornou ainda mais clara em Things Done Changed, lançado em 18 de outubro de 2024 pela Smithsonian Folkways. O álbum representa um momento importante em sua trajetória porque reúne, pela primeira vez em um disco de longa duração, apenas composições próprias.
São doze músicas nas quais Paxton utiliza estruturas e sonoridades associadas ao blues, ao ragtime, ao zydeco e a outras formas da música negra tradicional para falar de assuntos que pertencem ao seu próprio tempo. A linguagem musical olha para trás. As histórias, não necessariamente.
A faixa-título, “Things Done Changed”, parte de uma experiência íntima de transformação para falar sobre aquilo que já não pode voltar a ser como antes. Em “Baby Days Blues” e “Out in This World”, aparecem solidão, memória e a consciência de que algumas experiências ficam para trás mesmo quando continuam vivendo dentro da gente.
“Oxtail Blues” leva esse olhar para uma questão social bastante contemporânea. A música usa o encarecimento do rabo de boi, antes associado a refeições populares e à cozinha de comunidades negras e caribenhas, como ponto de partida para refletir sobre gentrificação e sobre a transformação de bairros e hábitos culturais.
Em “So Much Weed”, Paxton observa com humor as mudanças na maneira como a sociedade passou a enxergar a maconha. A canção funciona justamente porque não abandona a linguagem cotidiana do blues: parte de uma experiência concreta e encontra nela uma contradição do mundo ao redor.
“It’s All Over Now” guarda uma história ainda mais antiga. Paxton escreveu a música quando tinha apenas 16 anos, depois de aprender com sua avó uma maneira de tocar banjo ligada ao chamado stroke style. Quase duas décadas depois, a composição reaparece no álbum como uma espécie de registro do próprio percurso.
Em “What’s Gonna Become of Me”, essa ligação familiar também é fundamental. A composição retoma uma lição recebida da avó e estabelece uma conexão entre diferentes gerações da música negra. O passado, aqui, não é uma coleção de referências. É matéria-prima para continuar criando.
Esse talvez seja o aspecto mais interessante de Jerron Paxton. Ele conhece profundamente a música que veio antes dele, mas não parece interessado em congelá-la. Sua obra mostra que tradição também significa transformação. Uma canção antiga pode carregar uma pergunta nova. Um instrumento centenário pode comentar a vida de uma cidade que mudou completamente. Uma melodia aprendida dentro de casa pode atravessar décadas e encontrar um público que ainda não havia escutado aquela história.
Em Things Done Changed, Paxton assume esse papel de maneira definitiva. O disco soa familiar para quem conhece o blues, o folk e o ragtime, mas não é uma viagem turística ao passado. É uma obra contemporânea construída com ferramentas antigas, escrita por alguém que aprendeu que memória não serve apenas para lembrar.
Serve também para entender.
E talvez seja justamente aí que Jerron Paxton encontre sua força. Ele toca como quem conhece a árvore pelas raízes, mas sabe que uma árvore viva continua crescendo. Sua música olha para trás sem perder o presente de vista. E, ao transformar histórias familiares em novas canções, ele mantém em movimento uma tradição que nunca deixou de existir.
Things Done Changed
Lançado pela Smithsonian Folkways em 2024, Things Done Changed reúne 12 composições de Jerron Paxton e foi produzido por Alex Hall, com gravações realizadas no Hi-Style Studios, em Chicago. O repertório passa pelo blues, ragtime, zydeco e outras vertentes da música negra tradicional americana, sempre filtradas pela experiência pessoal do artista.
É um álbum sobre mudanças, memória, família, deslocamento, humor e sobrevivência cultural. Mas, acima de tudo, é a afirmação de um músico que compreendeu que conhecer profundamente uma tradição não significa repetir o que já foi feito. Significa ter elementos suficientes para continuar a história.


Comentários
Postar um comentário