CeDell Davis: o blues sem concessões de um sobrevivente do Delta
CeDell Davis: o blues sem concessões de um sobrevivente do Delta
CeDell Davis não precisava soar como ninguém. Nascido em Helena, Arkansas, em 9 de junho de 1926, Ellis CeDell Davis cresceu no universo musical do Delta do Mississippi, cercado por músicos, rádios, igrejas, juke joints e pelas histórias que circulavam entre as comunidades negras do Sul. O que viria a transformar sua maneira de tocar, porém, não nasceu de uma escolha estética. Foi uma resposta à vida.
Aos quatro anos, Davis foi morar com parentes na plantação E. M. Hood, perto de Tunica, Mississippi. Ali conheceu Isaiah Ross, que mais tarde ficaria conhecido como Dr. Ross the Harmonica Boss. Os dois começaram a descobrir a música juntos. Davis passou pela harmônica e chegou ao violão, depois de experimentar o diddley bow, aquele instrumento rudimentar de uma única corda preso a uma superfície, tão associado às raízes do blues rural.
Aos nove anos, contraiu poliomielite. Depois de quase dois anos internado em Little Rock, voltou para casa com movimentos limitados nos braços e nas mãos e precisando de muletas para caminhar. O violão que conhecia precisou ser reinventado.
Davis era destro, mas já não conseguia usar a mão direita normalmente. Virou o instrumento e passou a tocá-lo como canhoto. Para conseguir produzir o efeito de slide, recorreu a uma faca de mesa. Não era um truque para chamar atenção. Era simplesmente a maneira encontrada para continuar tocando.
E dessa necessidade surgiu uma das sonoridades mais incomuns da história do blues.
A afinação pouco convencional, o ataque irregular e a faca percorrendo as cordas produziram um timbre áspero, instável e muitas vezes dissonante. O resultado podia desconcertar quem esperava do Delta Blues aquela fluência mais conhecida dos discos de Robert Johnson, Son House ou Robert Nighthawk. Em Davis, as notas pareciam estar sempre prestes a escapar do lugar — e justamente por isso carregavam uma tensão especial.
Aos 14 anos, ele já ganhava dinheiro tocando em esquinas e juke joints de Helena. A cidade era um importante ponto de encontro para músicos do Delta. Robert Lockwood Jr., Sonny Boy Williamson, Roosevelt Sykes e outros nomes fundamentais passaram por aquele ambiente. Davis absorveu tudo o que estava ao redor e começou a construir uma carreira que, durante décadas, permaneceria praticamente invisível para o mercado fonográfico.
Um dos capítulos mais importantes dessa trajetória começou em 1953, quando passou a trabalhar com Robert Nighthawk. A parceria duraria cerca de uma década. Nighthawk era um dos grandes mestres do slide guitar e sua influência sobre Davis foi profunda, mas a relação funcionava nos dois sentidos: Davis não se tornou uma cópia do companheiro. Desenvolveu uma linguagem própria dentro daquele universo.
Em 1957, já morando em St. Louis, Davis estava tocando em uma casa noturna com Nighthawk e o baterista Sam Carr quando uma confusão provocou uma debandada no público. No tumulto, Davis foi pisoteado e sofreu ferimentos graves. Suas pernas foram quebradas em diversos pontos. Depois de meses no hospital, passou a depender da cadeira de rodas.
A história poderia ter terminado ali. Para Davis, não terminou.
Ele continuou trabalhando com músicos como Nighthawk, Carr e Frank Frost e, em 1961, voltou ao Arkansas. Estabeleceu-se em Pine Bluff e manteve uma atividade musical constante, embora as oportunidades de gravação praticamente não existissem.
Essa demora é uma das ironias da carreira de CeDell Davis. Ele já era um músico experiente quando finalmente chegou ao estúdio. Registros de campo feitos no Arkansas começaram a circular em compilações, e quatro faixas apareceram em Keep It to Yourself: Arkansas Blues, Volume I, lançado pela Rooster Records em 1983. Até então, Davis havia passado boa parte da vida tocando sem deixar uma discografia proporcional à sua experiência.
O interesse por sua música ganhou força também graças ao escritor e jornalista Robert Palmer. Autor de Deep Blues, publicado em 1981, Palmer tornou-se amigo de Davis e acabou produzindo seu primeiro álbum de grande circulação.
Em 1994, aos 67 anos, CeDell Davis lançou Feel Like Doin' Something Wrong, pela Fat Possum. O disco apresentou ao público uma voz rouca, um violão desconcertante e uma concepção de blues que não parecia interessada em polimento. Palmer entendeu que aquela estranheza não precisava ser corrigida. Era justamente o ponto.
A crítica percebeu isso. O álbum foi recebido como um trabalho singular, e sua produção ajudou a colocar Davis no centro de uma nova atenção ao blues rural do Sul. A Fat Possum também lançou The Best of CeDell Davis, em 1995, e The Horror of It All, em 1998. Este último aprofundou a mesma estética: guitarra angular, vocais ásperos, estruturas econômicas e uma relação com o tempo que parecia obedecer mais à lógica de Davis do que às convenções do estúdio.
O músico nunca precisou esconder suas imperfeições. Ao contrário. Elas faziam parte da identidade de sua música.
Em 2002, When Lightnin' Struck the Pine aproximou Davis de uma geração diferente de músicos. Barrett Martin, baterista do Screaming Trees e integrante do Mad Season, produziu o álbum e reuniu nomes ligados ao rock alternativo, entre eles Peter Buck, do R.E.M., e Scott McCaughey. A experiência mostrou que a música de Davis podia dialogar com o rock sem perder sua origem no Delta.
Essa ponte entre gerações se tornaria cada vez mais importante. Davis não era apenas um sobrevivente de uma tradição musical. Era um artista cuja maneira particular de tocar interessava justamente porque não cabia confortavelmente dentro dela.
Em 2005, um derrame o deixou sem condições de continuar tocando guitarra. Mesmo assim, Davis não abandonou os palcos. Continuou cantando e se apresentando, muitas vezes da cadeira de rodas. Em 2006, o guitarrista Greg “Big Papa” Binns o reencontrou em uma casa de repouso e ajudou a recolocá-lo no circuito musical. Davis voltou a viajar e a tocar para públicos que, décadas antes, provavelmente jamais teriam a oportunidade de conhecê-lo.
Last Man Standing, de 2015, marcou esse retorno à gravação. Um ano depois, veio Even the Devil Gets the Blues, seu último álbum.
Even the Devil Gets the Blues
Lançado em 14 de outubro de 2016 pela Sunyata Records, Even the Devil Gets the Blues é um fechamento especialmente significativo para a trajetória de CeDell Davis. Produzido por Barrett Martin e gravado em Seattle, o álbum coloca o veterano do Delta diante de músicos de outra geração e de uma cena musical associada, sobretudo, ao rock alternativo.
Mike McCready, guitarrista do Pearl Jam, participa de faixas como “Love Blues”, “Got to Be Movin' On” e “Rollin' and Tumblin'”. Ayron Jones aparece em “She's Got the Devil in Her” e “Catfish Blues”. Scott McCaughey, do R.E.M., participa de “Grandma Grandpa”. A formação ainda reúne nomes como Skerik, Alex Veley, Johnny Stephens, Dave Carter, Van Conner e Zakk Binns.
O encontro poderia facilmente ter virado uma tentativa de modernizar artificialmente o blues de Davis. Não é o que acontece. O disco preserva seu canto e sua personalidade enquanto abre espaço para guitarras elétricas, bateria, baixo, teclados e metais. O Delta continua sendo o centro de gravidade, mas Seattle aparece ao redor dele.
“She's Got the Devil in Her”, “Catfish Blues”, “Dust My Broom” e “Rollin' and Tumblin'” conectam repertório tradicional e composição própria. Em “Love Blues” e “Got to Be Movin' On”, Mike McCready encontra um terreno musical que parece distante do Pearl Jam, mas que faz sentido dentro daquela tradição que alimentou boa parte do rock americano.
O título do álbum também combina perfeitamente com a personalidade de Davis. Even the Devil Gets the Blues não soa como uma tentativa de transformar seus últimos anos em uma narrativa sentimental. Há humor, desejo, experiência, ironia e uma disposição quase desafiadora para continuar vivendo. “Ain't Plannin' on Dyin'”, por exemplo, funciona como uma declaração de princípios de um homem que já havia atravessado poliomielite, acidentes, limitações físicas, abandono e um derrame — e ainda encontrava motivos para cantar.
Barrett Martin, que produziu o disco e acompanhou Davis em diferentes momentos, descreveu o músico como alguém que jamais desistia. Essa característica está no álbum. Aos 90 anos, Davis não tenta recuperar o passado. Ele simplesmente continua sendo CeDell Davis.
Even the Devil Gets the Blues acabou sendo seu último registro. CeDell Davis morreu em 27 de setembro de 2017, em Hot Springs, Arkansas, aos 91 anos.
Sua história permanece especialmente poderosa porque não depende apenas da superação de adversidades. O que torna CeDell Davis importante é a música que nasceu delas. A faca transformou-se em slide. A limitação física levou a uma nova técnica. O som aparentemente irregular tornou-se assinatura. E uma carreira que demorou décadas para chegar aos discos encontrou, no fim, ouvintes espalhados por diferentes gerações.
CeDell Davis deixou um blues que não pede licença para ser estranho. Ele range, desafina, tropeça, provoca e segue em frente. Talvez seja justamente por isso que continue tão vivo.
Ouça Even the Devil Gets the Blues:


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