Boo Boo Davis: o blues que nasce da vida e não pede licença

Boo Boo Davis: o blues que nasce da vida e não pede licença



O blues de Boo Boo Davis não procura enfeites. Sua voz rouca, a gaita carregada de distorção e uma maneira muito particular de conduzir as canções parecem vir de um lugar onde a música não precisa de explicações. É um som cru, inquieto e cheio de personalidade. Um blues que conserva a poeira do Mississippi, mas não tem medo de caminhar por outros territórios.

Nascido em 4 de novembro de 1943, em Drew, Mississippi, James Davis, conhecido artisticamente como Boo Boo Davis, cresceu no coração do Delta. Sua infância foi marcada pelo trabalho nos campos de algodão e pelo contato com uma comunidade em que a música fazia parte da vida cotidiana. As canções entoadas pelos trabalhadores durante as longas jornadas permaneceram em sua memória e ajudaram a formar sua compreensão do blues.

A música também estava presente dentro de casa. Seu pai era músico e tocava diferentes instrumentos. Davis teve a oportunidade de conhecer de perto nomes importantes da tradição regional, como John Lee Hooker, Elmore James e Robert Pete Williams, que frequentavam a residência da família e participavam de encontros musicais. Não era necessário procurar muito longe para encontrar referências: elas estavam ali, acontecendo diante de seus olhos.

Aos cinco anos, começou a cantar e tocar gaita na igreja, acompanhado pela mãe. Aos treze, já se aventurava com a guitarra e, aos dezoito, passou a tocar com o pai e os irmãos na Lard Can Band, grupo familiar que percorreu diferentes localidades do Mississippi. Naquela época, Davis também assumiu a bateria, instrumento que faria parte de sua formação musical.

No início da década de 1960, mudou-se para a região de St. Louis, no Missouri, em busca de trabalho. A mudança não significou um afastamento de suas origens musicais. Pelo contrário. Ao lado dos irmãos, encontrou espaço na cena de East St. Louis, Illinois, onde a família se tornou atração habitual do Tabby's Red Room. Durante aproximadamente dezoito anos, o grupo manteve uma residência musical nos finais de semana, construindo uma reputação entre os frequentadores da casa.

Foi nesse ambiente que Boo Boo Davis consolidou sua identidade como cantor e gaitista. Sua voz ganhou uma característica inconfundível: áspera, grave, por vezes quase falada, mas sempre carregada de intensidade. A gaita acompanha esse temperamento com frases cortantes, notas prolongadas e uma sonoridade que não tenta esconder suas imperfeições. É justamente aí que reside boa parte de seu encanto.

Embora tenha passado boa parte da vida profissional em East St. Louis, sua música nunca perdeu o vínculo com o Delta. Davis escreve sobre situações que conhece, personagens que observa e experiências que fazem parte de seu cotidiano. Em vez de recorrer a uma mitologia distante sobre o blues, transforma acontecimentos aparentemente simples em matéria-prima para suas composições.

Seu primeiro álbum, East St. Louis, apareceu em 2001 pelo selo holandês Black and Tan Records. A parceria com a gravadora abriu caminho para uma sequência de trabalhos que ajudaram a apresentar seu nome a públicos de diferentes países. Vieram Can Man (2002), The Snake (2004), Drew, Mississippi (2006), Name of the Game (2008) e Ain't Gotta Dime (2009).

Essa trajetória também revela um músico que não se acomoda em fórmulas. Em 2008, Davis passou a explorar uma formação de power trio, sem baixo, apoiada na guitarra e na bateria. A ausência do instrumento tradicionalmente responsável pelas frequências graves deixou espaço para uma sonoridade mais aberta, pesada e econômica. O resultado reforçou o caráter direto de suas apresentações.

Outro aspecto interessante de sua carreira é a disposição para dialogar com a música contemporânea. Ao longo dos anos, participou de projetos que aproximaram o blues de batidas eletrônicas, elementos de hip-hop e experiências de produção. Essas incursões não apagaram sua identidade. Pelo contrário, mostraram que a tradição do Delta pode encontrar novas formas de expressão quando está nas mãos de alguém que conhece profundamente suas raízes.



What Kind of Shit Is This?: blues sem maquiagem

Lançado originalmente em 2014 pelo selo Black and Tan Records, What Kind of Shit Is This? é um daqueles trabalhos que chamam a atenção já pelo título. A provocação combina perfeitamente com a personalidade musical de Boo Boo Davis: direta, irreverente e avessa a qualquer tentativa de tornar o blues mais comportado do que ele precisa ser.

Com treze faixas e aproximadamente 58 minutos, o álbum apresenta um repertório que passeia por diferentes nuances do blues elétrico. Há guitarras carregadas de sujeira, ritmos que parecem nascer espontaneamente e uma gaita que ocupa os espaços com autoridade. A voz de Davis conduz tudo com sua habitual aspereza, sem perder o senso de humor e a malícia que fazem parte de sua interpretação.

A abertura com Back In The Woods estabelece o clima do disco. O título já aponta para um território familiar ao músico, enquanto a interpretação mantém aquele balanço rústico que remete às raízes do Mississippi. Em Blues On My Mind, o andamento permite que sua voz e a gaita explorem o lado mais expressivo do repertório.

O álbum também reserva espaço para temas como Bring Back My Baby, Bye Bye Baby e Let Me Love You Baby, nos quais o amor, os desencontros e os relacionamentos aparecem sob diferentes perspectivas. Já Half A Rap revela uma faceta mais brincalhona, enquanto If You Ain't Never Had The Blues funciona quase como uma declaração de princípios. Davis não precisa explicar sua relação com o gênero: sua interpretação fala por ele.

Mais adiante, Plane Station, Somebody's Fool e The Rope ajudam a diversificar o percurso. Esta última, com mais de cinco minutos, permite que o clima se desenvolva sem pressa. O repertório segue com What You Got On Your Mind e chega ao encerramento com Sorry Baby, mantendo a coerência de um trabalho que não depende de grandes arranjos para prender a atenção.

O que torna o álbum interessante não é apenas sua ligação com o blues tradicional. É a maneira como Boo Boo Davis transforma essa herança em uma linguagem própria. Existe sujeira, improviso, humor e uma boa dose de irreverência. Nada parece excessivamente planejado. A música respira, tropeça, avança e encontra seu caminho.

Em sua discografia, What Kind of Shit Is This? ocupa um lugar especial justamente por reunir características fundamentais de seu trabalho: a força da interpretação, a simplicidade dos arranjos e a liberdade de quem não precisa seguir tendências para encontrar seu público. O álbum também voltou a aparecer em plataformas digitais em 2021, ampliando seu acesso a novos ouvintes.

Um bluesman de seu próprio tempo

Boo Boo Davis construiu uma carreira internacional sem abandonar a essência musical que trouxe de Drew, Mississippi. Suas apresentações passaram por festivais importantes, incluindo o Montreux Jazz Festival, e sua música encontrou admiradores muito além das fronteiras norte-americanas.

O reconhecimento não depende de virtuosismos ou de uma produção sofisticada. Davis tem outros recursos: uma voz que parece carregar décadas de histórias, uma gaita que soa como uma extensão de sua personalidade e uma compreensão muito particular daquilo que o blues pode representar.

Em tempos nos quais o gênero frequentemente é apresentado sob diferentes roupagens e interpretações, Boo Boo Davis lembra que ainda existe uma força extraordinária na música feita sem artifícios. Seu trabalho não tenta reproduzir o passado como uma fotografia. Ele mantém viva uma tradição porque continua fazendo aquilo que sempre fez: transformar a própria experiência em canção.

E talvez seja essa a melhor maneira de entender seu blues. Não como uma tentativa de recuperar um tempo perdido, mas como a expressão de alguém que continua vivendo, tocando e encontrando novas histórias para contar.

Álbum em destaque: What Kind of Shit Is This? (2014)


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