Z.Z. Hill: a voz marcante do soul-blues dos anos 80

Z.Z. Hill: a voz marcante do soul-blues dos anos 80



Antes de o soul-blues ganhar um nome, uma estética e um lugar definitivo no mercado musical dos anos 1980, Z.Z. Hill já carregava na voz uma espécie de memória. Grave, áspera e profundamente sulista, sua interpretação parecia nascer de um território onde blues, gospel, rhythm & blues e soul nunca haviam deixado de conversar. Quando “Down Home Blues” chegou às rádios, em 1981, Hill já tinha quase três décadas de estrada. O que mudou foi a dimensão alcançada por uma voz que o mercado demorara demais para ouvir.

Arzell Hill nasceu em 30 de setembro de 1935, em Naples, Texas. Criado em uma família religiosa, começou cantando gospel e, ainda jovem, integrou o quinteto Spiritual Five. Em 1954, aos 19 anos, mudou-se para Dallas, onde começou a construir profissionalmente sua relação com a música.

O ambiente musical do Texas lhe ofereceu uma escola particular. Hill absorveu o gospel, mas também acompanhava atentamente artistas que estavam redefinindo a música negra americana. Entre suas referências estavam B. B. King, Bobby “Blue” Bland e Sam Cooke. Dessa mistura surgiria uma maneira de cantar que não separava o sentimento do blues da força melódica do soul.

Seu nome artístico também nasceu dessa admiração. A grafia Z.Z. tornou-se uma espécie de homenagem a B. B. King, seu ídolo, mas Hill construiu rapidamente uma identidade própria. Em 1963, mudou-se para a Califórnia e, no ano seguinte, gravou “You Were Wrong” em um estúdio improvisado em uma garagem. O single chegou à parada pop da Billboard por uma semana e parecia anunciar uma carreira de maior alcance.

O caminho, entretanto, seria menos linear. Vieram gravações por diferentes selos, entre eles Kent, Mankind e os selos ligados a seu irmão Matt Hill. Alguns daqueles discos revelavam um cantor capaz de transitar com naturalidade entre o blues e o soul, mas o reconhecimento nacional demoraria a chegar.

Em 1972, Z.Z. Hill assinou com a United Artists. Gravou três álbuns e colocou seis singles nas paradas de rhythm & blues. Cinco anos depois, já na Columbia, alcançou um de seus maiores sucessos com “Love Is So Good When You’re Stealing It”. Era uma vitória importante, mas ainda não representava a dimensão que sua música alcançaria poucos anos depois.

A virada aconteceu em 1980, quando Hill assinou com a Malaco Records, gravadora do Mississippi que se tornaria uma das casas fundamentais do blues e do soul sulista. Ali, encontrou uma produção que não tentava modernizar sua voz à força. Ao contrário: guitarra, metais, teclados, coro e bateria foram colocados a serviço daquele timbre rouco, encorpado e carregado de experiência.

Em novembro de 1981, a Malaco lançou “Down Home Blues”, composição de George Jackson. A canção começava como uma declaração de princípios e terminava funcionando como manifesto. Em uma época dominada pelo pós-disco e pela ascensão de novas linguagens musicais, Hill cantava sobre a necessidade de ouvir novamente o blues de raiz, sem nostalgia artificial e sem pedir desculpas por sua idade ou por suas referências.

O sucesso foi extraordinário. A faixa se transformou em um dos grandes standards do blues moderno e abriu espaço para uma geração de artistas veteranos que encontraria na Malaco uma nova possibilidade de carreira. Bobby “Blue” Bland, Little Milton, Denise LaSalle, Johnnie Taylor e outros nomes ligados ao soul-blues seriam associados posteriormente a esse movimento.

É nesse contexto que Down Home, lançado em 1982, ganha importância histórica. O álbum não depende apenas da força de sua faixa-título. “Cheatin’ in the Next Room”, “Right Arm for Your Love”, “Everybody Knows About My Good Thing” e “When It Rains It Pours” mostram um cantor plenamente à vontade entre o blues elétrico, o rhythm & blues e o soul sulista.

Hill também tinha humor. Muitas de suas canções tratavam de relações amorosas, ciúmes, traições e pequenas tragédias cotidianas com uma combinação peculiar de malícia e melancolia. Mas reduzir sua obra às histórias de relacionamentos seria perder justamente o que havia de mais interessante em sua interpretação: a capacidade de transformar situações populares em experiências musicais densas, carregadas de igreja, rua e vida.

Seu período na Malaco foi curto, mas decisivo. Depois de Down Home, vieram The Rhythm & The Blues, em 1982, I’m a Blues Man, em 1983, e Bluesmaster, lançado em 1984. Nesse intervalo, Hill ajudou a estabelecer uma sonoridade que posteriormente seria conhecida como soul-blues contemporâneo — uma música que preservava o vocabulário tradicional do blues enquanto dialogava com o público das rádios negras e das pistas de dança.

Em fevereiro de 1984, Hill sofreu um acidente automobilístico. Pouco mais de dois meses depois, em 23 de abril, fez sua última apresentação no Longhorn Ballroom, em Dallas. Quatro dias depois, em 27 de abril de 1984, morreu aos 48 anos. A Texas State Historical Association registra complicações decorrentes de um coágulo sanguíneo formado após o acidente; a Malaco, em sua biografia institucional, registra ataque cardíaco como causa da morte.

O que não há dúvida é sobre a velocidade com que sua história terminou. Z.Z. Hill ainda estava produzindo, gravando e se apresentando quando morreu. Seu último álbum, Bluesmaster, chegou ao público em 1984, transformando-se involuntariamente em parte de um legado interrompido no momento em que sua carreira finalmente havia encontrado um público nacional e internacional.

Talvez por isso sua voz continue soando tão presente. Z.Z. Hill não pertence apenas à história do blues texano, nem exclusivamente ao soul sulista. Sua importância está naquele ponto de encontro em que o blues deixa de ser uma lembrança e volta a funcionar como linguagem contemporânea.



Down Home

Ouvir Down Home hoje é reencontrar o momento em que Z.Z. Hill deixou de ser apenas um veterano respeitado para se tornar uma das vozes definidoras do soul-blues dos anos 1980. Lançado pela Malaco em 1982, o álbum reúne dez faixas e equilibra blues, soul e rhythm & blues com uma produção precisa, sem apagar a aspereza de sua voz.

A faixa-título permanece como seu cartão de visita, mas o álbum cresce justamente quando observado por inteiro. “Cheatin’ in the Next Room” expõe seu lado mais íntimo; “Right Arm for Your Love” mergulha no R&B; “Everybody Knows About My Good Thing” e “When It Rains It Pours” reforçam sua ligação com o blues tradicional. É um disco que parece olhar simultaneamente para trás e para a frente.

Down Home é, portanto, mais do que o álbum que trouxe Z.Z. Hill de volta ao centro das atenções. É um documento de uma transformação importante: a maneira como o blues encontrou novas formas de permanecer vivo nas comunidades negras americanas durante os anos 1980.

Escute Z.Z. Hill, deixe a voz rouca ocupar o ambiente e perceba como, naquele início dos anos 1980, “down home” não significava voltar ao passado. Significava lembrar de onde a música vinha para poder levá-la adiante.


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