Ranie Burnette: o blues das colinas do Mississippi que sobreviveu ao tempo

Ranie Burnette: o blues das colinas do Mississippi que sobreviveu ao tempo



Antes que o Hill Country Blues de North Mississippi chegasse aos palcos internacionais, às gravadoras especializadas e ao interesse renovado de novas gerações, ele já existia nas festas, nos juke joints e nas pequenas comunidades espalhadas pelas colinas do norte do Mississippi. Ranie Burnette pertence a esse tempo anterior à fama, quando o blues era sobretudo uma prática comunitária, passada de músico para músico, noite após noite.

Nascido em 4 de julho de 1913, em Pleasant Grove, no condado de Panola, Mississippi, Burnette cresceu em uma região que se tornaria um dos territórios fundamentais para compreender a sonoridade particular do Hill Country Blues. Durante as décadas de 1940 e 1950, tocou em festas e juke joints da região, dividindo o circuito musical com nomes como Mississippi Fred McDowell.

Seu instrumento era o violão, mas o elemento mais marcante de sua música não estava apenas nas notas. Havia um sentido de repetição, pulsação e movimento que aproximava seu blues da tradição das bandas de fife and drum do norte do Mississippi. É uma característica que ajuda a explicar por que o Hill Country Blues soa muitas vezes menos preocupado com a arquitetura convencional de versos e refrões e mais interessado em estabelecer um groove hipnótico.

Um músico conhecido antes de ser gravado

A história de Ranie Burnette também revela uma das contradições mais fascinantes da documentação do blues: um músico pode ser importante para uma comunidade e, ao mesmo tempo, permanecer praticamente invisível para a indústria fonográfica.

Burnette passou décadas tocando localmente antes de deixar registros conhecidos. Segundo a biografia publicada pela Fat Possum Records, suas primeiras gravações conhecidas surgiram apenas entre os anos 1970 e o início dos anos 1980, quando ele vivia em Senatobia. Entre esses registros estão duas faixas lançadas em um single regional e outras gravações realizadas pelo pesquisador e produtor holandês Leo Bruin.

Uma dessas primeiras documentações ganhou posteriormente nova importância: “Shake ’Em On Down” apareceu na compilação Afro-American Folk Music from Tate and Panola Counties, Mississippi, ampliando o registro de uma música que até então circulava principalmente no universo local.

O contato com Leo Bruin levaria Burnette ainda mais longe. Em novembro de 1980, o músico foi registrado em Groningen, nos Países Baixos. No ano seguinte, em 22 de agosto de 1981, Bruin voltou a gravá-lo em Senatobia. As sessões preservaram uma voz e uma guitarra que haviam passado décadas amadurecendo dentro da tradição musical do norte do Mississippi.

Ranie Burnette e R.L. Burnside

A importância de Burnette também pode ser percebida através de sua relação com uma geração que posteriormente colocaria o Hill Country Blues diante de uma audiência muito maior. R.L. Burnside, um dos grandes nomes surgidos dessa região, conviveu e tocou com Burnette, que é descrito pelas fontes da Fat Possum como seu mentor.

O próprio percurso de Burnside ajuda a dimensionar essa conexão. Décadas depois, Burnside se tornaria uma das figuras centrais na popularização internacional do Hill Country Blues, mas sua linguagem musical estava profundamente ligada à tradição local e a músicos anteriores a ele. O Mississippi Blues Trail também registra a influência de Ranie Burnette sobre Burnside.

Assim, Burnette ocupa um lugar especial nessa genealogia: não necessariamente como um artista que alcançou fama em vida, mas como parte de uma cadeia de transmissão musical que ajudou a manter vivo um modo muito particular de tocar blues.

O som de uma tradição

Ouvir Ranie Burnette é entrar em um blues econômico, insistente e físico. Sua guitarra não precisa de excesso para produzir tensão. O ritmo se estabelece, a voz encontra seu espaço e a música avança como se tivesse sido construída para acompanhar uma noite inteira de dança.

É justamente essa sensação de continuidade que aproxima sua música da tradição das bandas de fife and drum. No Hill Country do Mississippi, o ritmo ocupa um lugar central. A guitarra pode funcionar quase como um instrumento percussivo, criando células que se repetem e se transformam lentamente. O resultado é um blues que não parece querer chegar rapidamente a algum lugar. Ele quer permanecer.

Essa característica aparece com força nas gravações posteriormente reunidas em Ranie Burnette’s Hill Country Blues. A coleção preserva uma performance sem maquiagem, distante das convenções de estúdio e muito próxima da maneira como Burnette construiu sua reputação entre músicos e ouvintes da região.

As gravações que sobreviveram

As sessões de Leo Bruin são particularmente importantes porque documentam Burnette já em idade avançada, mas ainda profundamente conectado à linguagem que havia desenvolvido décadas antes.

Das onze faixas reunidas no álbum, nove foram gravadas em novembro de 1980, em Groningen. As outras duas — “One String Baby” e “Yonder Goes My Baby” — foram registradas em 22 de agosto de 1981, em Senatobia. Nessas duas gravações, Burnette canta e toca guitarra acompanhado por Abe “Keg” Young na harmônica.

O repertório inclui “Coal Black Mattie”, “Lonesome Moon Blues”, “Gone Dead on You”, “Two and Two Blues”, “One String Baby”, “Miss Mabelle”, “Hungry Spell”, “Dough Roller Blues”, “Turn on Down”, “Shake ’Em on Down” e “Yonder Goes My Baby”. A sequência funciona quase como um documento sonoro de uma tradição que raramente chegou aos grandes estúdios.

O álbum foi lançado em 2012 e posteriormente recebeu edição pela Fat Possum Records, em associação com a Big Legal Mess Records. A Fat Possum mantém Ranie Burnette entre os artistas de seu catálogo, reforçando a importância de sua obra dentro da documentação do blues do Mississippi.

Uma voz descoberta tarde demais

Existe uma melancolia particular na história de Ranie Burnette. Quando suas gravações começaram a circular com maior alcance, ele já pertencia a uma geração que havia passado quase toda a vida longe da indústria fonográfica. Não houve uma longa discografia, turnês internacionais ou uma carreira construída em torno de lançamentos sucessivos.

Houve algo diferente: memória.

Memória de uma região, de um repertório, de uma maneira de tocar guitarra e, principalmente, de uma tradição que atravessou gerações sem depender de reconhecimento comercial. Burnette morreu em Memphis, Tennessee, em 23 de janeiro de 2000. Tinha 86 anos. Foi enterrado no cemitério da Ebenezer Missionary Baptist Church, em Como, Mississippi.

O que permaneceu foi pouco em quantidade, mas extraordinariamente significativo em contexto. Suas gravações permitem ouvir uma das raízes do Hill Country Blues antes que essa expressão se transformasse em uma referência internacional.

Ranie Burnette’s Hill Country Blues

Lançado em 2012, Ranie Burnette’s Hill Country Blues é mais do que uma compilação póstuma. É um retrato tardio de um músico que passou grande parte da vida tocando onde o blues realmente acontecia: perto das pessoas, dentro das comunidades e longe dos holofotes.

As onze faixas registradas por Leo Bruin revelam uma música construída sobre repetição, ritmo e presença. “Coal Black Mattie” abre a coleção estabelecendo imediatamente o território sonoro; “Lonesome Moon Blues” e “Hungry Spell” aprofundam esse universo, enquanto “One String Baby” e “Shake ’Em on Down” deixam evidente a força rítmica que atravessa o repertório.

Uma resenha publicada pela KFJC em 2012 chamou atenção justamente para a combinação entre a voz de Burnette e o forte sentido rítmico das canções, destacando ainda a influência das bandas de fife and drum. É uma observação que ajuda a compreender por que essas gravações, apesar da idade, continuam soando tão vivas.

Ranie Burnette’s Hill Country Blues é, portanto, uma porta de entrada para uma história maior. A história de um blues que nasceu nas colinas do Mississippi, atravessou gerações e chegou até nós através de registros feitos quando seu protagonista já havia vivido quase sete décadas de música.

Escutar Ranie Burnette é ouvir uma tradição antes de ela se transformar em gênero reconhecido. É ouvir a guitarra como memória, o ritmo como linguagem e o blues como uma coisa que não precisava de palco para existir.

Ouça Ranie Burnette


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Top 10 - Os Blues Mais Regravados de Todos os Tempos

Got My Mojo Working: o poder do Blues na expressão da alma afro-americana

Little Walter: O Gênio da Gaita que Mudou o Blues para Sempre