Misty Blues: 27 Anos Mantendo o Blues em Movimento
Misty Blues: 27 Anos Mantendo o Blues em Movimento
Misty Blues nasceu no encontro entre o acaso e a escuta. Em 1999, Gina Coleman participava da montagem de A Raisin in the Sun, no Williamstown Theatre Festival, em Massachusetts, interpretando uma cantora gospel. Foi durante aquela temporada que o ator Ruben Santiago-Hudson percebeu algo na voz de Gina que talvez nem ela própria tivesse reconhecido completamente: havia ali uma cantora feita para o blues.
Ao final da temporada, Santiago-Hudson entregou a Coleman uma coleção de gravações de mulheres do blues das décadas de 1920 a 1960 e a incentivou a seguir por aquele caminho. A recomendação encontrou terreno fértil. Gina já carregava uma história musical anterior, mas o blues abriria uma estrada nova, que permanece em movimento mais de duas décadas depois.
Nascida e criada no South Bronx, em Nova York, Gina recebeu o primeiro piano aos cinco anos, presente do avô, e teve contato muito cedo com diferentes formas de fazer música. Na adolescência, tocou percussão em uma banda latina e, durante os anos escolares, experimentou instrumentos como o sousafone. Mais tarde, formou-se pelo Williams College, em Williamstown, Massachusetts.
Antes do Misty Blues, Gina havia começado a cantar profissionalmente no início dos anos 1990. Passou pelo grupo folk-rock Cole-Connection e chegou a formar uma banda de cinco integrantes a partir daquele projeto, desenvolvendo também suas próprias composições. Mas foi a experiência teatral de 1999 que transformou a relação dela com o blues.
O Misty Blues surgiu naquele mesmo ano, inicialmente reunindo músicos ligados à trajetória anterior de Coleman. A ideia era simples na origem, mas bastante ambiciosa na prática: mergulhar no blues tradicional sem medo. Ao longo dos anos, a banda passou a incorporar soul, jazz, funk, folk e gospel à sua linguagem, construindo uma identidade própria a partir dessas intersecções.
Gina Coleman tornou-se o centro dessa identidade. Cantora, compositora, percussionista e guitarrista de cigar box, ela conduz o grupo com uma voz que conhece a tradição sem se deixar aprisionar por ela. Entre suas referências estão nomes fundamentais como Koko Taylor, Bessie Smith, Big Mama Thornton, Ruth Brown e Billie Holiday, ao lado de artistas e formações de outras vertentes, como Tuck & Patti e Tedeschi Trucks Band.
O resultado é uma música que pode começar em um blues de estrutura reconhecível e, poucos compassos depois, abrir espaço para uma seção de metais, uma pulsação soul, uma atmosfera gospel ou uma passagem de sabor jazzístico. No Misty Blues, essas mudanças não funcionam como ornamento. Elas fazem parte da própria maneira como a banda entende o blues: uma linguagem viva, capaz de absorver novas experiências sem perder sua memória.
Essa trajetória também aproximou o grupo de alguns dos nomes importantes do blues contemporâneo. Misty Blues gravou com artistas como Charles Neville, Eric Gales e Joe Louis Walker, além de dividir palcos com músicos como Tab Benoit, John Primer, Roomful of Blues, Albert Cummings, Albert Castiglia, Mike Zito e James Montgomery.
Em 2019, a banda chegou à final do International Blues Challenge, em Memphis, uma das principais vitrines internacionais para artistas independentes ligados ao blues. A projeção conquistada fora de Massachusetts acompanhou uma atividade intensa nos anos seguintes, com apresentações pela região da Nova Inglaterra e turnês pelos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido.
A discografia também revela a disposição do grupo para experimentar. Entre seus trabalhos estão None More Blue, lançado em 2021, os registros dedicados a Odetta, Tell Me Who You Are: A Live Tribute to Odetta e I'm Too Old For Games: A Live Tribute to Odetta, além de Silver Lining, lançado no período em que a banda completava 25 anos de trajetória.
O tributo a Odetta tornou-se particularmente significativo. Tell Me Who You Are permaneceu por 24 semanas consecutivas no primeiro lugar da parada Traditional Folk Albums do Roots Music Report em 2023. A relação do Misty Blues com a tradição, portanto, não se limita à repetição de repertórios conhecidos: a banda procura reencontrar essas canções a partir de sua própria experiência musical.
Silver Lining também marcou um momento de maturidade. O álbum transformou os 25 anos do grupo em matéria musical, reunindo memórias, dificuldades, transformações e a consciência de que uma banda longeva não sobrevive apenas por permanecer fiel ao passado. É preciso continuar procurando.
Nos últimos anos, essa procura levou Gina Coleman também para uma carreira solo. Em 2025, ela lançou Unequivocally Blue. Em 2026, veio Uncrowned: A Tribute to Ida Cox, projeto dedicado à chamada “Uncrowned Queen of the Blues”, ampliando uma relação que Gina sempre manteve com as grandes mulheres da história do gênero.
Still Ticking
É nesse ponto da história que chega Still Ticking. Lançado em 31 de julho de 2026 pela Guitar One Records, o álbum é apresentado como o 18º trabalho de estúdio do Misty Blues e funciona quase como uma declaração de existência: depois de 27 anos de estrada, a banda continua aqui.
O título é mais do que uma constatação cronológica. Há nele uma espécie de desafio. Continuar “ticando” depois de quase três décadas significa continuar criando, questionando e encontrando novas maneiras de fazer o blues respirar.
A maior parte das canções foi escrita por Gina Coleman ao longo de 2025. As composições foram posteriormente trabalhadas por toda a banda durante um encontro de criação em Nantucket, em novembro daquele ano. As gravações aconteceram em fevereiro e março de 2026, no Playing Field Studio, em Williamstown, estúdio da própria banda.
O contexto social e político dos últimos anos também atravessa o repertório. Em vez de transformar essa inquietação em discurso abstrato, Coleman a converte em canções que carregam tensão, desejo, frustração, resistência e, sobretudo, movimento.
Musicalmente, Still Ticking reafirma aquilo que o Misty Blues construiu ao longo de sua trajetória: um blues aberto ao soul, ao gospel, ao funk e ao jazz. A formação reúne Gina Coleman nos vocais e guitarra, Seth Fleischmann na guitarra, Rob Tatten na bateria, vocais e percussão, Aaron Dean no saxofone, Diego Mongue no baixo, percussão, guitarra e órgão, e David Vittone nos teclados.
O repertório percorre diferentes estados de espírito. “State Of The Union” abre o álbum com uma perspectiva diretamente conectada ao seu tempo. “I Don't Wanna Be” e “Gimme Some More” aprofundam a mistura de blues e soul, enquanto “This Love” introduz uma dimensão mais afetiva. “On The Town”, “Endless Tears” e “Roll Right In” ampliam a paleta antes de “Trifling Man”, que conta com a participação da veterana Lady Bianca.
“Mess With Me” e “Passion” conduzem o disco para momentos de maior intensidade vocal e emocional. No encerramento, “Battle Cry” reúne Gina Coleman a Chantell McCulloch, Candice Ivory, Carly Harvey, Alexis P. Suter e Kat Riggins. A escolha transforma a faixa final em uma espécie de coro de resistência feminina, coerente com uma carreira construída em torno de algumas das vozes mais marcantes da história do blues.
Há algo especialmente interessante em Still Ticking: o álbum não tenta provar que Misty Blues ainda pode fazer blues. Isso já está resolvido. O que a banda parece querer demonstrar é outra coisa — que, depois de 27 anos, ainda existe curiosidade suficiente para fazer perguntas novas dentro de uma linguagem antiga.
Talvez seja essa a verdadeira longevidade no blues. Não permanecer imóvel, mas continuar reconhecendo a própria raiz enquanto se avança. Gina Coleman começou sua história musical muito antes de encontrar o Misty Blues, descobriu o blues quase por acaso e transformou aquela descoberta em uma vida artística. Vinte e sete anos depois, a história continua.
Still Ticking é justamente isso: o som de uma banda que conhece sua idade, conhece sua história e, ainda assim, não parece interessada em envelhecer musicalmente.
Ouça Still Ticking, novo álbum do Misty Blues:
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