Memphis Slim: o piano que levou o blues de Memphis a Paris

Memphis Slim: o piano que levou o blues de Memphis a Paris



Memphis Slim nasceu em 3 de setembro de 1915, em Memphis, Tennessee. Mais de um século depois, seu nome continua ligado a uma das grandes transformações do blues no século XX: a passagem do piano dos juke joints e honky-tonks do Sul para os clubes de Chicago, os grandes palcos americanos e, finalmente, para a Europa.

Nascido John Len Chatman, Memphis Slim cresceu cercado por música. Seu pai, Peter Chatman, tocava piano e guitarra, cantava e administrava estabelecimentos onde a música fazia parte da vida cotidiana. O ambiente familiar teve papel decisivo na formação do garoto, que começou a aprender piano ainda criança, por volta dos sete anos, e já tocava blues na adolescência.

De Beale Street ao nome Memphis Slim

A juventude de Chatman foi construída entre Memphis, West Memphis e outros pontos do circuito musical do Sul. Na década de 1930, ele passou por bares, salões de dança e casas de jogo, absorvendo diferentes formas de piano blues. Entre suas primeiras grandes influências estava Roosevelt Sykes, pianista que se tornaria uma referência fundamental para seu desenvolvimento.

Em Memphis, Chatman chegou a substituir Sykes como pianista residente do Midway Café, na Beale Street. A experiência foi importante não apenas pelo trabalho, mas pelo contato direto com uma das principais escolas do blues urbano. Quando chegou a Chicago, no fim dos anos 1930, carregava consigo aquela linguagem, mas ainda encontraria um músico que mudaria definitivamente sua trajetória: Big Bill Broonzy.

Em 1939, Chatman se estabeleceu em Chicago, cidade que naquele momento reunia uma extraordinária concentração de músicos negros vindos do Sul. Foi ali que sua carreira ganhou outra dimensão.

As primeiras gravações vieram em 1940, quando registrou material para a Okeh sob o nome Peter Chatman, nome de seu pai. Poucos meses depois, ao passar para a Bluebird, surgiu o nome que entraria definitivamente para a história: Memphis Slim. A escolha, sugerida pelo produtor Lester Melrose, fazia referência direta à cidade onde o músico havia nascido.

Big Bill Broonzy e a construção de uma identidade

A relação entre Memphis Slim e Big Bill Broonzy foi uma das parcerias mais importantes de sua primeira fase profissional. Slim tornou-se acompanhante de Broonzy e participou de numerosas apresentações e gravações ao lado do guitarrista.

Mas a influência de Broonzy foi além do palco. Em seus primeiros anos, Slim ainda carregava forte admiração pelo estilo de Roosevelt Sykes. Broonzy o incentivou a abandonar a simples imitação e encontrar uma voz própria ao piano. A orientação seria decisiva.

Memphis Slim desenvolveu então um estilo que combinava boogie-woogie, barrelhouse piano e blues urbano, acrescentando uma sofisticação rítmica que acompanhava as mudanças pelas quais o blues passava no pós-guerra. Sua mão esquerda podia funcionar como uma locomotiva, enquanto a direita preenchia os espaços com acordes e frases vigorosas. Sobre tudo isso vinha uma voz grave, autoritária e perfeitamente integrada ao instrumento.

Os House Rockers e o blues urbano

Depois da Segunda Guerra Mundial, Memphis Slim deixou de ser apenas um acompanhante e passou a liderar suas próprias formações. Nascia o House Rockers, grupo que incorporava saxofone, baixo, bateria e piano e dialogava diretamente com a crescente força do jump blues e do rhythm and blues.

Essa fase consolidou Slim como um dos grandes pianistas do blues urbano de Chicago. Ele gravou para diferentes selos e construiu um repertório próprio que atravessaria décadas. Entre suas composições está "Every Day I Have the Blues", canção que se transformaria em um dos standards mais conhecidos do gênero, gravada posteriormente por nomes como Count Basie e B.B. King.

Outra gravação fundamental foi "Messin' Around", que alcançou o primeiro lugar nas paradas de R&B, ajudando a estabelecer Memphis Slim não apenas como pianista, mas como cantor, compositor e líder de banda.

Durante esse período, Slim também trabalhou com importantes nomes do blues de Chicago. Sua atuação como pianista e músico de estúdio o colocou ao lado de artistas como Sonny Boy Williamson, Washboard Sam e Jazz Gillum. O piano de Memphis Slim estava, portanto, no centro de uma rede musical que ajudaria a definir o som urbano do blues no pós-guerra.



Do Chicago Blues à descoberta da Europa

A carreira de Memphis Slim não ficou limitada aos Estados Unidos. No fim dos anos 1950 e começo dos anos 1960, sua presença internacional cresceu rapidamente. Ele participou de apresentações importantes, incluindo o Newport Jazz Festival, e tornou-se um dos artistas associados ao movimento que levou grandes músicos do blues americano aos palcos europeus.

No início dos anos 1960, Slim participou do American Folk Blues Festival, projeto que levou ao público europeu artistas como Willie Dixon, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson e outros mestres do blues. Essas apresentações tiveram impacto profundo sobre jovens músicos europeus que começavam a descobrir diretamente os artistas que haviam criado aquela música.

Em 1962, Memphis Slim decidiu estabelecer-se definitivamente em Paris. A mudança transformou a relação do músico com a Europa. Paris tornou-se sua casa, seu centro de trabalho e uma nova plataforma para divulgar o blues.

Ali, Slim passou a atuar regularmente em clubes e festivais, gravou extensamente e tornou-se uma figura conhecida também fora dos círculos estritamente ligados ao blues. Criou o Memphis Melodies Club, participou de programas de televisão, apareceu em filmes franceses e chegou a compor a trilha do filme À nous deux France, de 1970.

Um embaixador do blues

A permanência em Paris fez de Memphis Slim uma espécie de ponte entre duas culturas musicais. Ele não abandonou suas raízes americanas; levou-as consigo e passou a apresentá-las para uma audiência europeia que demonstrava enorme interesse pelo blues.

Em 1986, o governo francês o nomeou Commandeur de l'Ordre des Arts et des Lettres, uma das mais importantes distinções culturais da França. A homenagem simbolizava o lugar que Slim havia conquistado naquele país e a dimensão de sua contribuição para a cultura musical.

Seu reconhecimento também atravessou o Atlântico. O Senado dos Estados Unidos o homenageou com o título de Ambassador-at-Large of Good Will, reforçando a imagem de um músico que havia transformado sua carreira em uma verdadeira missão de divulgação do blues.

O último capítulo

Memphis Slim permaneceu em Paris até o fim da vida. Morreu em 24 de fevereiro de 1988, aos 72 anos. O Smithsonian Institution confirma a data e a identificação de John Len Chatman como seu nome de nascimento.

Seu retorno simbólico a Memphis aconteceu após a morte. Seu corpo foi levado de volta à cidade natal e enterrado no Galilee Memorial Gardens, encerrando um percurso que havia começado nas ruas de Memphis e atravessado Chicago antes de ganhar uma dimensão internacional.

No ano seguinte, em 1989, Memphis Slim foi incluído postumamente no Blues Hall of Fame, reconhecimento compatível com a dimensão de sua obra e de sua influência sobre gerações de pianistas e cantores de blues.

Um piano entre duas margens

Memphis Slim ocupa um lugar singular na história do blues porque sua trajetória acompanha algumas das principais transformações do gênero. Ele veio da tradição do piano sulista, encontrou o blues elétrico e urbano de Chicago, ajudou a alimentar a expansão do rhythm and blues e terminou seus dias como uma das figuras mais respeitadas do blues na Europa.

Sua grandeza, porém, não está apenas na quantidade de gravações ou na importância dos palcos que frequentou. Está na capacidade de transformar referências em identidade. O garoto de Memphis que começou imitando Roosevelt Sykes tornou-se justamente aquilo que Big Bill Broonzy havia aconselhado: um músico com uma voz própria.

Ao piano, Memphis Slim tinha força. Ao cantar, tinha autoridade. E ao contar histórias sobre o blues, carregava consigo uma memória musical que vinha dos juke joints do Sul, passava pelas noites de Chicago e chegava às salas de concerto de Paris.

Celebrar Memphis Slim em 3 de setembro é celebrar não apenas o nascimento de um grande pianista, mas o nascimento de uma das vozes que ajudaram o blues a atravessar fronteiras.

Tribute to Big Bill Broonzy

A ligação entre Memphis Slim e Big Bill Broonzy ganha um significado especial quando revisitamos Memphis Slim's Tribute to Big Bill Broonzy, Leroy Carr, Cow Cow Davenport, Curtis Jones, Jazz Gillum.

Registrado em 16 de janeiro de 1961, em Nova York, para a Candid Records, o álbum reúne Memphis Slim ao lado do gaitista Jazz Gillum e do guitarrista Arbee Stidham, sob supervisão de Nat Hentoff. O repertório presta homenagem não apenas a Broonzy, mas a diferentes nomes fundamentais da tradição do piano e do blues urbano.

Entre as faixas estão "I Feel So Good" e "Rockin' Chair Blues", associadas a Big Bill Broonzy; "Cow Cow Blues", de Cow Cow Davenport; "Miss Ida B.", ligada a Roosevelt Sykes; "Trouble in Mind", de Curtis Jones e Richard M. Jones; e "Worried Life Blues", de Big Maceo Merriweather.

Ouvir esse disco é, de certa forma, retornar ao ponto em que a história de Memphis Slim ganhou novo rumo. Big Bill Broonzy havia sido seu parceiro, mentor e incentivador. Anos depois, Slim voltaria ao repertório de seu antigo companheiro para registrar, ao seu modo, a memória de um dos grandes mestres que ajudaram a construir o blues moderno.

É uma homenagem de um mestre a outro — e uma excelente porta de entrada para compreender a dimensão artística de Memphis Slim.


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