Jesse Fuller: o homem que virou uma banda inteira
Jesse Fuller: o homem que virou uma banda inteira
Jesse Fuller aprendeu cedo que, para fazer música, nem sempre era preciso esperar que alguém chegasse para acompanhá-lo. Nascido em 12 de março de 1896, em Jonesboro, na Geórgia, ele atravessou boa parte da vida entre trabalhos, viagens e pequenas apresentações até encontrar, já na maturidade, uma maneira absolutamente particular de transformar suas experiências em canções.
Quando morreu em Oakland, Califórnia, em 29 de janeiro de 1976, aos 79 anos, Fuller havia deixado muito mais do que San Francisco Bay Blues, sua composição mais conhecida. Deixara também uma ideia musical: a de que um único intérprete poderia carregar no corpo inteiro o ritmo, a harmonia, a percussão e a narrativa de uma pequena banda.
Da Geórgia à Califórnia
A infância de Fuller foi difícil. Ainda menino, passou a viver longe da mãe e, segundo os registros biográficos preservados sobre sua trajetória, enfrentou condições de vida bastante duras. Trabalhou em diferentes atividades e conheceu cedo a instabilidade que marcaria boa parte de sua juventude.
A música, entretanto, já estava por perto. Fuller aprendeu a tocar violão ainda criança. Durante os anos seguintes, passou por diferentes lugares e ocupações, seguindo uma trajetória que o levaria do Sul dos Estados Unidos à Califórnia.
Na região de Los Angeles, durante os anos 1920, chegou a trabalhar como extra de cinema. O Oakland Public Library registra sua participação em filmes como The Thief of Bagdad e East of Suez. Mais tarde, Fuller se estabeleceria em Oakland, do outro lado da baía de San Francisco, cidade que permaneceria como sua casa pelo resto da vida.
Antes que a música se tornasse sua profissão, Fuller fez aquilo que tantos trabalhadores migrantes fizeram naquele período: assumiu diferentes empregos para sobreviver. A experiência com ferrovias e outros trabalhos manuais acabaria aparecendo também em seu repertório, especialmente nas canções que falavam de viagens, trabalho e deslocamento.
O nascimento do Lone Cat
Foi somente no início dos anos 1950, quando já tinha mais de cinquenta anos, que Fuller decidiu dedicar-se profissionalmente à música. E não escolheu o caminho mais simples.
Ele desenvolveu um formato próprio de apresentação em que tocava violão de 12 cordas, gaita, kazoo e percussão enquanto acionava com os pés um instrumento de baixo que havia construído. O equipamento ficou conhecido como fotdella, ou footdella, e tornou-se uma das marcas de sua identidade artística.
A lógica era engenhosa: as mãos permaneciam ocupadas com o violão, enquanto os pés assumiam parte da seção rítmica. Uma estrutura presa ao corpo permitia ainda que Fuller tocasse gaita e kazoo. O resultado não era apenas uma curiosidade visual. Era uma solução musical criada a partir de uma necessidade prática.
Fuller havia transformado a limitação de tocar sozinho em linguagem. Seu palco cabia em uma pessoa.
San Francisco Bay Blues
Em 1954, Fuller escreveu aquela que se tornaria sua assinatura: San Francisco Bay Blues. A canção condensava em poucos minutos uma história de partida, saudade e deslocamento, construída sobre um ritmo vivo e uma melodia que parecia feita para ser cantada por qualquer pessoa que tivesse uma estrada pela frente.
O registro mais antigo da composição surgiu em meados dos anos 1950, e a música logo começou a circular no ambiente do folk revival. O Smithsonian Folkways registra que, em 1961, ela já era apresentada por artistas como Ramblin' Jack Elliott, Bob Dylan e Jim Kweskin. Nos anos seguintes, seria gravada por nomes como Richie Havens, Eric Clapton, Paul McCartney, Janis Joplin e Peter, Paul and Mary.
É interessante observar o caminho percorrido pela música. Fuller não escreveu uma canção pensando em construir uma ponte entre gerações ou estilos. Escreveu a partir de sua própria experiência. Mas o blues encontrou uma nova audiência através dela, justamente quando o folk americano começava a redescobrir artistas ligados às tradições musicais afro-americanas.
O compositor, que havia passado décadas longe dos grandes palcos, tornou-se então uma referência para uma geração mais jovem.
Quando o blues revival encontrou o Lone Cat
A partir do final dos anos 1950, Fuller ganhou espaço no movimento de redescoberta do blues e do folk nos Estados Unidos. Sua maneira singular de tocar chamou atenção de músicos e produtores ligados à cena tradicionalista, e sua carreira ganhou uma dimensão que dificilmente teria sido imaginada quando ele ainda trabalhava em empregos ocasionais.
Em 1960, segundo o arquivo do African American Museum & Library at Oakland, Fuller já estava em condições de realizar uma turnê pela Europa e passou a dedicar-se integralmente à música. O contato com o público europeu ampliou ainda mais sua circulação.
Ele também participou do ambiente dos festivais e do circuito de casas de shows e universidades que ajudou a manter o blues tradicional em contato com uma nova geração. O Smithsonian Folkways preservou, por exemplo, sua interpretação de San Francisco Bay Blues registrada em 12 de outubro de 1962, durante um concerto do Friends of Old Time Music, em Nova York.
O sucesso não apagou, porém, a essência do artista. Fuller continuou sendo o homem sozinho diante do público, com o violão de 12 cordas, a gaita, o kazoo, a percussão e a fotdella formando uma pequena orquestra improvisada ao redor de seu corpo.
Uma invenção que virou assinatura
A fotdella talvez seja a melhor metáfora para entender Jesse Fuller. O instrumento não nasceu de uma tradição estabelecida nem de uma escola musical. Foi uma invenção prática de um músico que precisava produzir baixo enquanto tocava sozinho.
O Smithsonian descreve o equipamento como um instrumento de baixo acionado pelos pés. Fuller construiu sua própria solução para preencher o espaço que normalmente seria ocupado por outro músico.
Essa característica ajuda a explicar por que suas gravações soam tão particulares. Há sempre a sensação de que alguma coisa está acontecendo além do que seria possível esperar de um cantor acompanhado apenas por um violão.
Fuller não procurou esconder que estava sozinho. Fez dessa condição o centro do espetáculo.
O legado do Lone Cat
Jesse Fuller morreu em Oakland em 29 de janeiro de 1976. Tinha 79 anos e deixava para trás uma carreira que só havia começado profissionalmente quando já era um homem maduro. O arquivo do Oakland Public Library conserva uma coleção dedicada a ele, reunindo fotografias, recortes e gravações que ajudam a preservar a trajetória desse personagem singular da música americana.
Seu legado, entretanto, não depende apenas de documentos ou coleções. Está espalhado por uma canção que atravessou o folk, o blues e o rock e por uma maneira de pensar a performance que continua fascinante.
San Francisco Bay Blues tornou-se a obra mais conhecida de Fuller, mas reduzi-lo a essa música seria perder justamente aquilo que fazia dele um artista tão especial. O repertório de Jesse Fuller guarda o trabalhador, o viajante, o contador de histórias, o homem que conheceu a estrada e encontrou na música uma maneira de reunir todas essas experiências.
Talvez seja por isso que o apelido The Lone Cat continue fazendo sentido. Fuller estava sozinho no palco, mas sua música nunca pareceu solitária.
Para ouvir: San Francisco Bay Blues: Collection 1954-61
A compilação San Francisco Bay Blues: Collection 1954-61 reúne 43 faixas distribuídas em dois discos e oferece um panorama especialmente interessante da produção de Jesse Fuller durante os anos em que sua carreira começou a ganhar projeção. Lançada em 2019, a coleção percorre blues, spirituals, canções de trabalho e peças instrumentais, permitindo acompanhar a riqueza de um repertório que vai muito além de sua composição mais famosa.
Entre os destaques estão Railroad Worksong, John Henry, Railroad Blues, San Francisco Bay Blues, Leavin' Memphis Frisco Bound, Motherless Children e outras gravações que revelam o equilíbrio entre a tradição e a personalidade de Fuller.
É uma boa porta de entrada para conhecer o homem por trás da canção que atravessou a baía de San Francisco e acabou chegando a músicos de várias gerações.


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