J.D. Short: do blues rural ao coração de St. Louis
J.D. Short: do blues rural ao coração de St. Louis
J.D. Short nasceu em 26 de dezembro de 1902, perto de Port Gibson, Mississippi, e morreu em 21 de outubro de 1962, em St. Louis, Missouri. Entre essas duas datas está a trajetória de um músico que conheceu o blues rural do Mississippi, acompanhou alguns de seus nomes mais importantes e, depois de décadas praticamente afastado dos estúdios, voltou a ser registrado justamente quando o interesse pelo blues tradicional começava a ganhar novo impulso.
Short foi cantor, guitarrista e gaitista, mas sua musicalidade ia muito além desses instrumentos. Também dominava piano, saxofone, clarinete e bateria. Essa versatilidade ajudou a formar uma identidade sonora pouco convencional para um artista associado ao Delta blues: sua voz, marcada por um vibrato muito particular, podia soar áspera, melancólica e quase fantasmagórica, enquanto o acompanhamento mantinha a simplicidade e a força características do blues acústico.
Do Mississippi para St. Louis
A formação de J.D. Short aconteceu no ambiente musical do Mississippi. Ainda jovem, aprendeu piano e guitarra e passou a tocar em festas e reuniões locais. Em 1923, mudou-se para St. Louis, cidade que naquele período era um importante ponto de encontro entre músicos vindos do Sul e uma crescente cena urbana de blues.
Foi em St. Louis que sua carreira se entrelaçou com a de diversos músicos que ajudariam a construir a história do blues. Short tocou com nomes como Henry Spaulding, David “Honeyboy” Edwards e Big Joe Williams. A ligação com Williams seria particularmente importante e renderia, décadas mais tarde, uma das gravações mais conhecidas de sua discografia.
Os primeiros discos e o silêncio
O primeiro período de gravações de J.D. Short pertence à era dos discos de 78 rotações. Em 1º de junho de 1930, ele participou de sessões para a Paramount, utilizando o nome Jaydee Short. Quatro discos de duas faces foram registrados naquele período. Um deles, “Tar Road Blues” / “Flagin' It to Georgia”, permaneceu durante décadas como uma raridade quase lendária entre colecionadores.
Short também gravou para a Vocalion, em alguns registros utilizando o nome Jelly Jaw Short. Entre suas gravações mais associadas a esse período está “Snake Doctor Blues”, de 1932. Depois dessas primeiras incursões fonográficas, porém, seu nome praticamente desapareceu do mercado fonográfico.
O desaparecimento não significou abandono da música. Short continuou ligado ao circuito musical de St. Louis e manteve contato com músicos do blues. O que se perdeu, por muitos anos, foi o registro documental de sua atividade. Quando o blues começou a ser redescoberto por pesquisadores e pelo público interessado na tradição afro-americana, J.D. Short surgiu como um daqueles músicos que haviam permanecido à margem da história oficial dos discos.
Big Joe Williams e Stavin' Chain Blues
Em 8 de fevereiro de 1958, J.D. Short voltou ao estúdio em St. Louis para uma sessão organizada por Bob Koester, fundador da Delmark. Ao lado de Big Joe Williams, participou das gravações que posteriormente seriam reunidas no álbum Stavin' Chain Blues.
A parceria é especialmente interessante porque coloca dois músicos profundamente ligados às tradições do blues do Mississippi em um mesmo registro. “Stavin' Chain Blues”, “Mean Stepfather”, “Sweet Old Kokomo”, “Jumpin' in the Moonlight” e “Going Back to Crawford, Miss.” estão entre os momentos preservados dessa sessão. A edição também inclui “J.D. Talks”, um pequeno registro falado que acrescenta dimensão documental ao álbum.
O disco seria lançado pela Delmark na década de 1960 e posteriormente receberia novas edições. Mais do que uma colaboração entre dois bluesmen, Stavin' Chain Blues registra uma ponte entre o blues rural do Sul e a cena urbana de St. Louis.
Samuel Charters e o último capítulo
O reencontro mais importante de J.D. Short com os microfones aconteceu em 1961, quando o historiador, produtor e pesquisador Samuel Charters o procurou em St. Louis. Charters estava documentando músicos ligados às raízes do blues para seu trabalho de pesquisa e para o filme The Blues.
As gravações aconteceram na própria casa de Short. Segundo o relato de Charters, parte do material foi registrada na cozinha, escolhida como um espaço mais protegido dos ruídos da rua. O resultado possui justamente essa característica íntima: não há a sensação de uma produção de estúdio convencional, mas a impressão de estar diante de um músico reconstituindo sua própria memória musical.
Short revisitou canções antigas, apresentou novas composições e falou sobre os músicos que conhecera. Entre suas lembranças estava Charlie Patton, uma das figuras fundamentais do Delta blues. Essas gravações acabariam se tornando um dos registros mais importantes para compreender não apenas o músico, mas também a tradição da qual ele fazia parte.
O material de Charters foi lançado em 1963 pela Folkways no álbum Blues from the Mississippi Delta, dividido entre J.D. Short e Son House. A edição apresenta cinco faixas de Short: “So Much Wine”, “Train, Bring My Baby Back”, “You Been Cheating Me”, “Charlie Patton” e “Fighting for Dear Old Uncle Sam”. O álbum também preserva a voz de Short falando sobre Charlie Patton, transformando o disco em documento musical e histórico.
Um bluesman redescoberto tarde demais
J.D. Short não chegou a acompanhar a repercussão de seu próprio retorno. Morreu em 21 de outubro de 1962, em St. Louis, aos 59 anos, pouco depois das gravações realizadas por Samuel Charters.
Sua participação no documentário The Blues, dirigido por Charters, também foi póstuma. O filme reuniu músicos que representavam diferentes tradições do blues e incluiu Short entre seus participantes. Ele morreu antes que o trabalho chegasse ao público.
A ironia de sua trajetória está justamente aí. Quando o interesse pelo blues tradicional começava a recuperar músicos esquecidos e a procurar testemunhas de uma geração praticamente desaparecida, J.D. Short estava novamente diante dos microfones. Mas não viveu para assistir à segunda vida de sua música.
A importância de J.D. Short
A obra de J.D. Short não é extensa quando comparada à de artistas como Big Joe Williams, Son House ou Charley Patton. Sua importância está em outro lugar. Short representa uma das muitas vozes que conectam o blues registrado nos anos 1930 ao movimento de redescoberta ocorrido nas décadas de 1950 e 1960.
Sua voz carregada de vibrato, a habilidade em diferentes instrumentos e o conhecimento adquirido entre Mississippi e St. Louis revelam um músico que não cabia confortavelmente em uma única categoria. Era um homem do Delta vivendo em uma cidade grande, um artista de festas e encontros que acabou se transformando em fonte para pesquisadores interessados na memória do blues.
Ouvir J.D. Short hoje é encontrar um blues que parece existir entre dois tempos. De um lado estão os discos antigos, raros e quase desaparecidos da Paramount e da Vocalion. Do outro, as gravações de 1961, feitas quando o próprio passado do blues começava a ser investigado. Entre esses dois momentos existe uma vida inteira de música que, durante décadas, permaneceu praticamente fora dos registros.
É justamente por isso que sua pequena discografia tem um peso tão grande. J.D. Short não deixou uma obra volumosa. Deixou vestígios. E, no blues, às vezes é nesses vestígios que a história fala mais alto.
The Sonet Blues Story
Para conhecer uma dimensão mais ampla desse legado, vale chegar a The Sonet Blues Story, compilação que reúne registros de J.D. Short associados ao projeto The Legacy of the Blues, desenvolvido a partir do trabalho de Samuel Charters. Entre as faixas aparecem momentos como “Starry Crown Blues”, “Slidin' Delta”, “You're Tempting Me”, “Help Me Some” e “I'm Just Wasting My Time”.
O álbum funciona como uma espécie de porta de entrada para esse capítulo menos conhecido da história do blues. É J.D. Short em primeiro plano, com sua voz inconfundível e seu violão, revelando um músico que permaneceu longe dos holofotes durante boa parte da vida, mas cuja música sobreviveu ao próprio tempo.
J.D. Short morreu em 1962. Sua voz, porém, continua atravessando o Mississippi, St. Louis e as décadas que vieram depois.


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