Henry Spaulding: duas gravações e uma vida comum como barbeiro
Henry Spaulding: duas gravações e uma vida comum como barbeiro
Henry Spaulding deixou uma das discografias mais breves e, ao mesmo tempo, mais intrigantes do blues pré-guerra. Sua carreira fonográfica conhecida resume-se a apenas duas músicas, registradas em uma única sessão em Chicago, em 9 de maio de 1929: “Cairo Blues” e “Biddle Street Blues”. As duas foram lançadas pela Brunswick no mesmo disco de 78 rotações, o Brunswick 7085.
Por muito tempo, a história de Spaulding permaneceu praticamente restrita às lembranças de outros músicos e às notas das antigas compilações de blues. Henry Townsend, que se tornaria uma das figuras centrais do blues de St. Louis, contou que conheceu Spaulding ainda jovem, aprendeu com ele alguns de seus recursos de guitarra e costumava acompanhá-lo em festas. Townsend também descreveu Spaulding como um homem mais velho e barbeiro de profissão.
Essa relação ajuda a compreender a importância de Spaulding. Seu violão tinha uma característica marcante: o uso expressivo do “string-snapping”, uma maneira percussiva de atacar as cordas que chamou a atenção de Townsend e de outros guitarristas ligados à cena de St. Louis. Spaulding aparentemente circulava entre músicos, festas e pequenos espaços de apresentação, muito antes de deixar seus únicos registros em disco.
Também durante muito tempo acreditou-se que Spaulding tivesse morrido pouco depois da gravação de 1929. Essa informação aparece em diversas fontes históricas e foi repetida em notas de discos durante décadas. Pesquisas posteriores, porém, encontraram uma história diferente.
Registros documentais indicam que Henry Hezekiah Spaulding nasceu em 7 de maio de 1901, em Madison, Arkansas, e viveu em St. Louis por muitos anos. Um registro de recrutamento militar de 1942 e documentos relacionados à sua morte apontam que ele faleceu em 16 de junho de 1942, no Homer G. Phillips Hospital, em St. Louis, vítima de tuberculose pulmonar. A pesquisa também confirma sua atividade como barbeiro, profissão já mencionada nas lembranças de músicos contemporâneos.
Assim, a velha imagem de um músico que desapareceu imediatamente depois de gravar seus dois únicos lados precisa ser revista. Spaulding aparentemente continuou sua vida em St. Louis, embora sua trajetória musical tenha permanecido quase completamente fora dos registros fonográficos.
“Cairo Blues” e “Biddle Street Blues”
O que restou dessa carreira cabe em aproximadamente cinco minutos de música. “Cairo Blues” é uma peça particularmente importante dentro do repertório do blues de St. Louis do período entre guerras. Seu estilo de guitarra, a construção melódica e o modo como Spaulding articula voz e instrumento revelam um músico de personalidade própria, apesar da escassez absoluta de registros. “Biddle Street Blues”, gravada no outro lado do mesmo 78 rpm, completa esse pequeno mas significativo legado.
“Cairo Blues” também atravessou o tempo pelas mãos de outros músicos. Henry Townsend, seu antigo parceiro, retomou a composição em seu próprio repertório, ajudando a preservar o nome de Spaulding dentro da tradição do blues de St. Louis. As duas gravações originais continuam aparecendo em importantes coletâneas dedicadas ao blues pré-guerra.
Henry Spaulding permanece, portanto, como uma dessas figuras que a história do blues quase perdeu. Não pela falta de talento, mas pela falta de registros. Sua obra conhecida é mínima: uma sessão, duas músicas e um único disco original. Mas dentro dessas duas performances existe o retrato de um guitarrista que deixou sua marca em músicos que vieram depois dele.
O registro completo de Henry Spaulding
O lançamento reunido abaixo apresenta justamente as duas gravações que constituem toda a discografia conhecida de Henry Spaulding: “Cairo Blues” e “Biddle Street Blues”. É pouco material, mas suficiente para ouvir diretamente o músico cuja influência sobre a guitarra de Henry Townsend ajudou a preservar seu nome na história do blues.
Henry Spaulding — Cairo Blues / Biddle Street Blues
Brunswick 7085 — gravado em Chicago, 9 de maio de 1929.

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