Hayes McMullan: um capítulo pouco conhecido do blues do Mississippi

Hayes McMullan: um capítulo pouco conhecido do blues do Mississippi



Hayes McMullan passou boa parte da vida longe dos palcos, dos discos e da ideia de construir uma carreira musical. Quando sua voz finalmente chegou aos registros, ele já era um homem idoso e carregava décadas de histórias, trabalho no campo, igreja e vida comunitária. O que poderia ter sido apenas uma lembrança perdida do blues do Mississippi acabou se transformando, muitos anos depois, em um dos documentos mais singulares sobre a tradição do Delta.

Nascido em 1902, no Mississippi, McMullan cresceu em um ambiente no qual a música fazia parte da vida cotidiana. Seu irmão Tom foi seu primeiro professor de violão, quando Hayes ainda tinha quatro anos. A música o acompanhou pela juventude e o levou a circular por festas, juke joints e outros espaços onde o blues sobrevivia como música de trabalho, dança, bebida, desejo e sobrevivência.

Foi nesse período que McMullan conheceu músicos importantes do Delta. Entre eles estava Charley Patton, figura central da primeira geração do blues gravado. Em entrevistas realizadas décadas depois, McMullan contou a Gayle Dean Wardlow que havia tocado com Patton nos anos 1920. O relato também aparece em registros ligados à pesquisa de Wardlow sobre Patton e seu círculo de músicos. É uma história que precisa ser lida dentro desse contexto: a memória de um homem que viveu aquela época e que, décadas mais tarde, reconstruía diante de um pesquisador episódios de sua juventude.

Quando o blues ficou para trás

A trajetória de McMullan tomou outro rumo durante os anos 1930. Depois da morte de seu irmão Tom, acontecimento que ele associava a envenenamento, Hayes abandonou progressivamente a vida de músico e se aproximou da igreja. Tornou-se diácono e passou a dedicar boa parte de sua existência à comunidade religiosa.

A mudança não apagou o músico. Apenas o colocou em silêncio.

McMullan também trabalhou como sharecropper, uma condição comum entre trabalhadores rurais negros do Sul dos Estados Unidos, e participou de atividades ligadas ao movimento pelos direitos civis no Mississippi. Entre essas ações estava o trabalho de registro de eleitores negros durante os anos 1960. Sua história, portanto, não se resume ao blues: ela atravessa o trabalho rural, a religião, as transformações sociais do Sul e a luta por cidadania.

O encontro com Gayle Dean Wardlow

Em 1967, o pesquisador, colecionador e documentarista Gayle Dean Wardlow estava no Mississippi em busca de discos antigos e de pessoas que pudessem ajudá-lo a reconstruir a história do blues do Delta. O encontro com McMullan aconteceu quase por acaso, no condado de Tallahatchie.

Wardlow descobriu que aquele homem aparentemente distante do universo musical conhecia histórias sobre Charley Patton e afirmava ter tocado com ele. A descoberta mudou o rumo daquela pesquisa. Em vez de encontrar apenas um informante capaz de falar sobre músicos desaparecidos, Wardlow percebeu que tinha diante de si um guitarrista que ainda guardava dentro de si uma linguagem musical de outra época.

McMullan havia deixado de tocar blues havia décadas. Mesmo assim, Wardlow levou um gravador e um violão até sua casa em uma propriedade rural próxima a Tutwiler. Aos poucos, a música voltou. O pesquisador registrou canções, conversas e lembranças, preservando uma voz que poderia facilmente ter desaparecido junto com a geração que a formou.

Novas sessões aconteceram em 1967 e 1968. Algumas foram feitas em campo; outras resultaram de encontros posteriores. As gravações revelam um músico de repertório amplo, confortável em diferentes afinações e capaz de alternar a narrativa falada com uma guitarra econômica, rítmica e profundamente enraizada no blues rural do Mississippi.



Um violão sem pressa

Escutar McMullan hoje exige outra disposição. Não há a preocupação de transformar cada frase em demonstração de virtuosismo. Seu violão parece conversar com a voz, deixando espaço para pausas, repetições e pequenas imperfeições. O resultado é íntimo. Em vez de apresentar uma versão congelada do blues dos anos 1920, McMullan revela o que aquela linguagem havia se tornado depois de atravessar quase meio século de vida.

Em faixas como Fast Old Train, Hurry Sundown, Goin' Away Mama Blues, Bo Weevil Blues e Roll and Tumble, aparecem diferentes faces desse repertório. Há momentos em que a tradição do Delta surge de maneira evidente; em outros, a voz madura e a experiência religiosa de McMullan dão às interpretações uma cadência própria.

Delta Walk, uma das peças instrumentais do conjunto, merece atenção especial. Sem a necessidade de uma narrativa cantada, o violão assume o papel de contador de histórias. É um pequeno retrato da técnica e da personalidade de um músico que passou décadas sem tocar para uma audiência.

Um álbum encontrado meio século depois

Hayes McMullan morreu em 1986, aos 84 anos. Ele nunca viu o material gravado por Wardlow transformar-se em um lançamento de carreira. Isso só aconteceria em 2017, quando a Light in the Attic Records reuniu as gravações em Everyday Seem Like Murder Here.

O álbum funciona como uma cápsula do tempo, são 31 faixas, entre músicas e trechos de entrevistas, reunindo performances registradas originalmente décadas antes. O material também inclui histórias nas quais McMullan fala sobre Patton, a vida dos músicos itinerantes, os espaços onde o blues era tocado e acontecimentos de sua própria trajetória.

O lançamento recupera ainda uma dimensão importante de seu trabalho: McMullan não aparece apenas como testemunha de uma tradição. Ele é o próprio músico, com uma voz e uma maneira particular de tocar que sobreviveram ao período em que decidiu abandonar o blues.

Everyday Seem Like Murder Here

Ouvir Everyday Seem Like Murder Here é entrar em contato com um blues que escapou por pouco do esquecimento. As gravações de Gayle Dean Wardlow preservaram não apenas canções, mas a presença de um homem que carregava na memória uma parte do Mississippi que já não existia da mesma maneira quando voltou a tocar.

O disco também muda a perspectiva sobre o que significa preservar o blues. Nem sempre a história está nos artistas que gravaram dezenas de discos ou permaneceram em atividade durante décadas. Às vezes ela sobrevive na voz de alguém que deixou a música para trás e, por uma dessas coincidências que tornam a história da música tão fascinante, encontrou um pesquisador disposto a apertar o botão de gravação.

Hayes McMullan não construiu uma discografia durante a vida. Construiu algo mais raro: uma memória musical que permaneceu intacta o suficiente para atravessar o tempo. Quando finalmente ouvimos seu violão d sua voz, mais de meio século depois daqueles primeiros encontros com Wardlow, o silêncio termina.

Ouça o álbum

Everyday Seem Like Murder Here, de Hayes McMullan, foi lançado pela Light in the Attic em 2017, com as gravações originais remasterizadas e notas de Gayle Dean Wardlow e John Miller. O repertório reúne músicas, histórias e registros que ajudam a aproximar o ouvinte de um capítulo pouco conhecido do blues do Mississippi.


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