Frank Stokes: O pai do Memphis blues

Frank Stokes: O pai do Memphis blues



Antes que Memphis se tornasse uma das capitais mundiais do blues, Frank Stokes já fazia da cidade um território musical. Violão nas mãos, uma voz poderosa e um repertório que atravessava blues, ragtime, canções populares, números de medicine shows e antigas músicas do Sul dos Estados Unidos, Stokes construiu nas ruas de Memphis uma linguagem própria. Seu nome hoje está ligado à formação do Memphis blues, mas sua história revela algo ainda mais interessante: ele foi um daqueles músicos que ajudaram a transformar a experiência cotidiana das ruas em uma nova maneira de tocar e cantar.

Frank Stokes nasceu na região de Whitehaven, Tennessee, ao sul de Memphis. A data exata permanece controversa. O National Park Service registra 1º de janeiro de 1888, enquanto outras pesquisas apontam 1877 ou 1878. Órfão ainda criança, Stokes cresceu em Tutwiler, Mississippi, onde aprendeu a tocar guitarra e também a profissão de ferreiro.

A música, porém, o levou regularmente de volta a Memphis. Durante os primeiros anos do século XX, ele viajava nos fins de semana para tocar nas ruas da cidade, especialmente nas proximidades da Beale Street e do Church Park. Ali, desenvolveu um repertório muito mais amplo do que aquilo que posteriormente seria enquadrado simplesmente como blues.

Essa amplitude é fundamental para compreender Frank Stokes. Ele pertencia a uma geração de songsters, músicos que transitavam por diferentes tradições populares e precisavam dominar um repertório suficientemente variado para acompanhar diferentes públicos e situações. Blues, ragtime, canções de salão, músicas de dança, peças populares e números associados aos medicine shows podiam ocupar o mesmo espaço em uma apresentação.

O resultado foi uma música profundamente ligada ao ambiente urbano de Memphis, mas ainda carregada das tradições rurais do Mississippi e do Tennessee.

Frank Stokes e Dan Sane

Foi nesse ambiente que Stokes encontrou Dan Sane, outro guitarrista do Mississippi. A parceria entre os dois se transformaria em um dos capítulos fundamentais da primeira história gravada do blues de Memphis.

Stokes e Sane passaram a tocar juntos pelas ruas de Memphis e, na década de 1920, adotaram o nome Beale Street Sheiks. O duo chamou atenção justamente pela combinação das duas guitarras, pelo ritmo vigoroso e pela maneira como Stokes conduzia as canções com sua voz grave e expressiva.

As gravações dos Beale Street Sheiks para a Paramount, iniciadas em 1927, documentaram uma música que já possuía identidade própria. O diálogo entre as guitarras não funcionava apenas como acompanhamento: as duas partes se movimentavam, criavam tensão rítmica e davam às canções uma sensação quase conversada.

O National Park Service descreve a combinação entre as guitarras de Stokes e Sane como parte de uma linguagem marcada por forte impulso rítmico, letras espirituosas e a voz imponente de Stokes. É justamente nessa interação que podemos perceber uma das sementes do que viria a ser reconhecido como o estilo de guitarra do Memphis blues.

O blues antes das fronteiras

Stokes também participou de medicine shows, espetáculos itinerantes que misturavam música, humor, dança e comércio de medicamentos. Ao lado de Garfield Akers, integrou o Doc Watts Medicine Show durante a Primeira Guerra Mundial.

Essa experiência ajuda a explicar a presença cênica de Stokes. Ele não era apenas um guitarrista interessado em acompanhar uma canção. Era um entertainer, alguém formado em um circuito no qual era preciso conquistar imediatamente a atenção de quem estava diante do palco, da rua ou da tenda.

Em sua música, o blues nunca aparece isolado de outras tradições. Essa característica também ajuda a compreender por que algumas de suas gravações possuem humor, movimento e uma leveza rítmica que podem surpreender quem espera encontrar somente a melancolia associada ao blues rural.

Canções como Mr. Crump Don't Like It, You Shall, Stomp That Thing e Tain't Nobody's Business If I Do mostram um músico atento ao poder narrativo e performático da música popular de seu tempo.

As sessões para a Victor

Em 1928, Frank Stokes entrou em estúdio para registrar seu trabalho como artista solo para a Victor. As gravações continuaram em 1929 e produziram algumas das peças mais importantes de seu legado.

Entre elas estão Downtown Blues, Mistreatin' Blues, Bedtime Blues, South Memphis Blues, Bunker Hill Blues e Memphis Rounders Blues. As sessões também contaram com participações de músicos como Dan Sane e, nas gravações de 1929, o violinista Will Batts.

O catálogo gravado por Stokes para Victor e Paramount tornou-se expressivo para os padrões da época. O Memphis Music Hall of Fame registra 38 lados associados às suas gravações, um número que ajuda a dimensionar sua importância dentro da primeira geração de músicos de Memphis documentados pela indústria fonográfica.

Mas a história de Stokes também mostra como uma carreira pode desaparecer parcialmente dos registros sem que sua importância desapareça da música.

Quando os discos pararam

Com a chegada da década de 1930 e a transformação do mercado fonográfico durante a Grande Depressão, o momento de Stokes nas gravadoras chegou ao fim. Suas últimas gravações conhecidas datam de 1929.

Isso não significou o fim de sua vida musical.

Durante as décadas de 1930 e 1940, Stokes continuou trabalhando como músico e performer. Passou por medicine shows, apresentações itinerantes e chegou a integrar atrações ligadas ao Ringling Brothers Circus. Quando estava em Memphis, continuava tocando nas ruas ao lado de antigos parceiros.

Na década de 1940, mudou-se para Clarksdale, Mississippi, outro território fundamental da história do blues. Ali, segundo registros preservados pelo Memphis Music Hall of Fame, chegou a tocar ocasionalmente com Bukka White.

Era uma existência distante do circuito das grandes gravadoras, mas perfeitamente coerente com a trajetória de um músico que havia aprendido seu ofício antes de o blues possuir uma indústria própria.

O pai do Memphis blues

A expressão “pai do Memphis blues” aparece associada a Frank Stokes em diferentes fontes e acabou se tornando parte de sua memória histórica. O título não significa que ele tenha criado sozinho o blues de Memphis. A cidade já abrigava uma comunidade musical extraordinariamente diversa, formada por guitarristas, pianistas, jug bands, cantores de rua e músicos itinerantes.

O mérito de Stokes está em outro lugar: ele ajudou a consolidar uma maneira de tocar que transformava essa diversidade em linguagem. Sua guitarra possuía movimento, sua voz tinha autoridade e seu repertório não conhecia fronteiras rígidas entre blues, música popular e tradição folclórica.

É possível ouvir em suas gravações uma Memphis anterior à imagem que o século XX construiria da cidade. Uma Memphis de ruas movimentadas, músicos de passagem, festas, trabalhadores, bares e artistas que precisavam transformar habilidade musical em sobrevivência.

Frank Stokes morreu em Memphis, em 12 de setembro de 1955. Sua carreira fonográfica havia terminado mais de duas décadas antes, mas sua música continuou circulando através de reedições e compilações. Com o tempo, pesquisadores, colecionadores e músicos passaram a reconhecer com maior clareza o lugar que ele ocupa na genealogia do blues.

Uma voz antes do mito

Escutar Frank Stokes hoje é voltar a um momento em que o blues ainda não tinha a forma que aprendemos a reconhecer posteriormente. Não havia ainda as grandes bandas elétricas de Chicago, os amplificadores dominando os clubes ou a ideia moderna de uma carreira de bluesman.

Havia um homem, uma guitarra e uma cidade.

Stokes pertence a esse instante em que a música negra do Sul dos Estados Unidos atravessava ruas, tendas, festas e pequenos palcos, absorvendo tudo o que encontrava pelo caminho. Sua importância está justamente nessa liberdade.

Por isso, mais do que uma peça arqueológica do blues, Frank Stokes continua soando como um músico vivo em sua própria linguagem. Há humor em sua música, há balanço, há uma força quase física no canto e, sobretudo, existe a sensação de que cada canção nasceu para ser tocada diante de alguém.

Memphis não inventou Frank Stokes. Mas foi nas ruas de Memphis que ele ajudou a inventar uma maneira de fazer o blues respirar.

Frank Stokes — Top 35 Classics – The Very Best of Frank Stokes

A compilação Top 35 Classics – The Very Best of Frank Stokes é uma boa porta de entrada para a obra de um dos nomes fundamentais da formação do blues de Memphis. Lançada em 2005, a edição reúne 35 gravações de Frank Stokes em pouco mais de uma hora e quarenta minutos de música. 

O repertório permite acompanhar a força de sua voz, a precisão de seu violão e a variedade de uma produção registrada no período em que o blues ainda estava encontrando novas formas de circulação através das primeiras gravações comerciais. Entre os registros está What's the Matter Blues, uma das faixas que ajudam a revelar o caráter direto e expressivo de sua música. 

Mais do que uma simples coleção de clássicos, o álbum funciona como um documento de uma época em que Memphis começava a consolidar uma identidade própria dentro da história do blues. Ouvir Frank Stokes nessa perspectiva é reencontrar uma música anterior às fronteiras que seriam estabelecidas posteriormente entre o blues rural, o blues urbano e suas inúmeras derivações.


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