Evan Nicole Bell: a voz que encontra no blues um caminho para o futuro
Evan Nicole Bell: a voz que encontra no blues um caminho para o futuro
Evan Nicole Bell nasceu em 15 de fevereiro de 1997, no Texas, mas foi em Columbia, Maryland, que sua identidade artística começou a ganhar forma. Cantora, guitarrista, compositora, multi-instrumentista e produtora, Bell vem construindo uma linguagem própria a partir do encontro entre blues, soul, rock, folk e Americana. Seu trabalho parte da tradição, mas não se acomoda diante dela.
Essa característica ajuda a entender por que seu nome começou a circular com tanta força entre os admiradores do blues contemporâneo. Seu trabalho parte da tradição, mas encontra nela espaço para experimentar, acrescentar novas referências e construir uma identidade musical própria. Ela pesquisa suas raízes, absorve sua linguagem e, a partir daí, acrescenta outras referências à equação. O resultado é uma música que pode carregar a rusticidade do blues elétrico em um momento e, logo depois, abrir espaço para elementos de soul, folk, rock ou uma atmosfera quase cinematográfica.
Da fotografia à música
A trajetória de Evan Nicole Bell não começou exclusivamente na música. Durante sua formação, estudou piano, violão fingerstyle e guitarra clássica. Na adolescência, a música já fazia parte de sua rotina, mas foi um presente aparentemente simples que alterou o rumo de sua relação com o instrumento.
No Natal de 2018, sua mãe lhe deu uma guitarra elétrica. Bell batizou a nova companheira de Stormy e passou a mergulhar de maneira cada vez mais intensa no estudo da guitarra, da teoria musical, do canto e do blues. A partir daquele momento, o instrumento deixou de ser apenas mais uma ferramenta artística e passou a ocupar o centro de sua criação.
Ao mesmo tempo, Bell desenvolveu uma carreira ligada à fotografia documental. Formada pela Duke University, onde obteve seu bacharelado, ela realizou trabalhos voltados à documentação de comunidades negras em Durham, na Carolina do Norte, e em Baltimore, além de apresentar exposições individuais. Mais tarde, obteve um certificado de pós-graduação pela Goldman School of Public Policy, da University of California, Berkeley.
Essa experiência ajuda a iluminar um aspecto importante de sua obra musical. Bell não se aproxima do blues apenas pela sonoridade. Existe também um interesse evidente por memória, identidade, história e pela maneira como experiências individuais podem se transformar em narrativa artística.
O blues como herança e linguagem
O vínculo de Bell com o blues também possui uma dimensão familiar. Segundo relatos publicados sobre sua trajetória, existe na família a história de que um de seus tios tocou com Lightnin' Hopkins. A informação aparece como parte da memória familiar e ajuda a contextualizar sua aproximação com uma tradição musical que atravessa gerações.
Mas sua relação com o blues ganhou projeção pública sobretudo por meio das interpretações que publicou nas redes sociais. Entre elas estão versões de “Catfish Blues”, associada ao repertório de Robert Petway, e “Crosscut Saw”, conhecida na interpretação de Albert King. O alcance desses vídeos colocou sua voz e sua guitarra diante de uma audiência muito maior e transformou as redes em uma espécie de primeiro palco internacional.
O sucesso dessas performances não se explica apenas pela fidelidade às canções originais. Bell acrescenta personalidade às interpretações. Seu violão fingerstyle evidencia o estudo da tradição acústica, enquanto a guitarra elétrica assume uma dimensão mais agressiva e livre, marcada por influências que remetem a Jimi Hendrix.
É justamente nesse ponto que sua proposta se torna interessante para o blues atual. Evan Nicole Bell não tenta reproduzir o passado de maneira literal. Ela utiliza o passado como matéria-prima.
Runaway Girl e o primeiro passo autoral
Antes de chegar ao primeiro álbum completo, Bell apresentou em 2024 o EP Runaway Girl. O lançamento marcou uma etapa importante na transição entre a intérprete que havia conquistado espaço na internet e a compositora que começava a apresentar uma identidade própria.
No mesmo período, lançou também os singles “Runaway Girl” e “River”, preparando o terreno para o projeto que definiria sua primeira grande fase artística.
Shades of Blue: tradição, invenção e independência
Em 16 de janeiro de 2025, Evan Nicole Bell lançou Shades of Blue, seu primeiro álbum completo, pela Hummingbird Records. O título já anuncia uma relação ampla com o blues: não existe apenas uma tonalidade, uma forma ou uma maneira de contar essa história.
O álbum reúne dez faixas e foi concebido praticamente como um trabalho de uma mulher só. Bell escreveu e produziu o disco e tocou guitarra elétrica, violão, baixo, piano, sintetizadores, vocais e vocais de apoio. A exceção ficou por conta da bateria.
Essa independência é fundamental para compreender o resultado. Shades of Blue não soa como uma coleção de canções reunidas para apresentar uma nova guitarrista. É um trabalho pensado como obra autoral, no qual composição, arranjo, interpretação e produção fazem parte da mesma visão.
A abertura com “River” apresenta uma das características mais interessantes do processo criativo de Bell: a canção nasceu de uma nota de voz gravada dentro de um carro, e os primeiros segundos da gravação preservam esse registro original. É um detalhe pequeno, mas revelador da maneira como a artista transforma momentos cotidianos em matéria musical.
Em “Liar's Anthem”, uma composição que amadureceu ao longo de anos, aparece outro aspecto de seu trabalho: a capacidade de deixar uma canção crescer junto com a própria autora. Já “Flame” surgiu de maneira muito mais rápida, mostrando que o repertório de Shades of Blue nasceu de processos diferentes, unidos posteriormente pela mesma concepção artística.
O álbum ainda percorre diferentes territórios em faixas como “Wish It Wasn't You”, “It's Not My Cross To Bear”, “Catfish Blues”, “Runaway Girl” e “Burn”. O disco termina com uma versão ao vivo de “Catfish Blues”, reforçando a ligação entre o trabalho de estúdio e a experiência que inicialmente apresentou Bell ao público.
Uma artista entre fronteiras
A imprensa especializada percebeu rapidamente que Evan Nicole Bell não se encaixa confortavelmente em uma única categoria. O Blues in Britain destacou a maneira como ela ultrapassa estruturas convencionais, enquanto o compositor norte-americano Todd Snider resumiu sua impressão com uma comparação que se tornou recorrente: “Prince meets Lightnin' Hopkins”.
A comparação funciona porque Bell reúne elementos que normalmente aparecem separados. Há a força rítmica e a liberdade de Prince, a tradição acústica e narrativa de Lightnin' Hopkins, a expressividade de Albert King e uma dimensão vocal ligada ao soul. A própria imprensa também identificou ecos de Jimi Hendrix e Etta James em sua maneira de tocar e cantar.
Mais importante, porém, é que essas referências não parecem funcionar como fantasias colocadas sobre uma artista em busca de identidade. Elas fazem parte de um repertório que Bell vem reorganizando para construir sua própria linguagem.
O reconhecimento de Shades of Blue
Shades of Blue rapidamente ultrapassou a condição de estreia promissora. O álbum chegou ao primeiro lugar da parada de álbuns de Singer/Songwriter da Roots Music Report e também apareceu em rankings e listas como o iTunes Top 100, a parada de álbuns da Americana Music Association e o Big Blues Chart.
As edições físicas em CD e vinil chegaram a esgotar, enquanto a música de Bell passou a alcançar ouvintes em mais de 22 países. Seu trabalho também recebeu divulgação em veículos como NPR Music, Baltimore Magazine, Blues in Britain e Blues News, ampliando consideravelmente o alcance de uma artista ainda em início de carreira.
Em 2025, Bell recebeu ainda o Baker Artist Award em Música, reconhecimento ligado à cena artística de Baltimore. No mesmo ano, participou de “Feel Me Better”, composição que contou com sua colaboração ao lado de G. Love para o álbum Ode to R.L., projeto dedicado ao bluesman de Hill Country R.L. Boyce.
Uma nova geração olhando para trás sem ficar presa ao passado
Existe uma questão particularmente interessante na trajetória de Evan Nicole Bell: ela pertence a uma geração que descobriu parte da história musical por meio da internet, mas decidiu aprofundá-la através do estudo dos instrumentos e das tradições que vieram antes.
Seu trabalho demonstra que conhecer a história do blues não significa necessariamente reproduzi-la. Pelo contrário. Para Bell, a tradição parece funcionar como ponto de partida para uma conversa com o presente.
É nesse espaço que sua música encontra força. A guitarra pode soar áspera e elétrica, o violão pode recorrer ao fingerpicking tradicional, a voz pode carregar soul, enquanto a produção abre caminhos para o rock, a música folk, o pop e a Americana. Tudo isso permanece conectado por uma compreensão bastante clara de que o blues é mais do que uma sequência de recursos musicais: é uma tradição de narrativa, memória e transformação.
O próximo capítulo
Depois de estabelecer sua identidade com Shades of Blue, Evan Nicole Bell trabalha em seu segundo álbum, previsto para este ano. O próximo passo será especialmente importante porque seu primeiro disco já estabeleceu uma assinatura artística bastante definida.
O desafio, portanto, não será simplesmente repetir o que funcionou. Será descobrir até onde essa linguagem pode avançar.
Evan Nicole Bell chegou ao blues através da guitarra, da pesquisa, da memória e da curiosidade. Encontrou na tradição uma história que também poderia contar a partir de sua própria perspectiva. Shades of Blue é o primeiro registro completo dessa descoberta: um álbum em que o passado não aparece como destino, mas como matéria para construir alguma coisa nova.
Ouça Shades of Blue
O álbum de estreia de Evan Nicole Bell, Shades of Blue, foi lançado em 16 de janeiro de 2025 pela Hummingbird Records e reúne dez faixas que sintetizam sua aproximação entre blues, soul, rock, folk e Americana.


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