EB Davis: do Arkansas à Berlim do blues

EB Davis: do Arkansas à Berlim do blues



Antes de fazer de Berlim sua casa e de transformar o blues em uma espécie de passaporte entre culturas, EB Davis conheceu a música no lugar onde ela fazia parte da vida cotidiana. Nascido em 1945, em Elaine, no Arkansas Delta, e criado em Memphis, Tennessee, ele cresceu cercado por uma cidade que, naquele período, ainda pulsava ao redor da Beale Street. Estava nos bares, nas ruas, nas jam sessions e nas vozes dos músicos que circulavam pela cidade.

Davis conta que tinha cerca de seis ou sete anos quando ouviu blues pela primeira vez. A lembrança ficou. Mais tarde, adolescente, passou a acompanhar de perto aquela cena musical. Em entrevista à revista Jefferson Blues, ele recordou que nomes como Junior Parker, B.B. King, Roscoe Gordon, Gatemouth Moore e Ike Turner podiam ser vistos com frequência em Memphis. Como não tinha idade para entrar nos clubes, muitas vezes escutava os músicos do lado de fora.

Memphis, Beale Street e a descoberta de uma profissão

Aos 14 anos, Davis deixou a vida rural do Arkansas e mudou-se para Memphis. Ali, a música deixou de ser apenas uma experiência de infância e começou a apontar um caminho profissional. Foi também nessa época que entrou em contato com Eugene Goldston, proprietário do 521 Club, em Brooklyn, Nova York. A aproximação acabaria levando Davis para a Costa Leste e para uma etapa decisiva de sua carreira.

Em Nova York, Davis esteve à frente dos Soul Groovers, banda que se tornou conhecida no circuito de soul e R&B. O grupo atuou como banda de apoio e dividiu palcos com artistas importantes da música negra americana, entre eles Wilson Pickett, Isaac Hayes, Rufus Thomas, Millie Jackson, Ray Charles e B.B. King. O período ajudou a ampliar sua compreensão do blues, colocando-o em contato direto com o soul, o R&B e a tradição das grandes bandas de palco.

Os Soul Groovers também passaram pelo Apollo Theatre e mantiveram uma intensa atividade de apresentações durante os anos 1960 e 1970. A experiência deixou em Davis uma característica que continuaria presente em seu trabalho: o blues como música de banda, feita para ser compartilhada com o público, dançada e sentida fisicamente.

Do outro lado do Atlântico

A vida de EB Davis tomou outro rumo quando ele voltou a atuar nas Forças Armadas dos Estados Unidos e foi enviado para Berlim durante a Guerra Fria. Sua história ganhou uma dimensão particularmente incomum nesse período: como músico e integrante de uma unidade de comunicações militares, participou de missões que o levaram ao lado oriental da cidade e a outros pontos da então Alemanha Oriental.

O blues acabou entrando em um território onde a música podia funcionar como ponte. Davis tocava para públicos do outro lado do Muro de Berlim, em apresentações inseridas naquele contexto político e militar peculiar. Décadas depois, essa experiência seria recuperada no documentário How Berlin Got the Blues, dirigido por Victoria Luther. O filme, lançado em 2017, transformou a trajetória do músico em uma história sobre música, Guerra Fria e encontros culturais.

Quando o Muro caiu, em 1989, Davis já estava profundamente ligado à cena musical berlinense. Em vez de retornar definitivamente aos Estados Unidos, decidiu permanecer na Alemanha. A cidade passou a ser sua base, enquanto convites para apresentações o levaram por diferentes países europeus. Em entrevista publicada em 2016, ele explicou que já estava estabelecido no circuito musical local e recebia propostas de trabalho em lugares como Suíça, Suécia, França e Espanha.



A EB Davis Blues Band

Em meados dos anos 1980, Davis formou a EB Davis Blues Band. A banda consolidou uma sonoridade que não tratava o blues como uma fórmula rígida. Havia espaço para o blues tradicional, mas também para soul, R&B, rock and roll e arranjos de metais. A proposta se tornaria ainda mais evidente nas décadas seguintes, quando Davis passou a trabalhar com diferentes formações de sua Superband.

Em Berlim, sua presença se tornou parte da própria história do blues feito na Alemanha. O palco virou extensão natural de sua trajetória: uma música nascida no Delta do Arkansas, amadurecida em Memphis e Nova York e levada para uma Europa que havia encontrado no blues uma linguagem própria de identificação e troca.

O reconhecimento institucional veio em 2008, quando recebeu o título oficial de Blues Ambassador to the State of Arkansas. No mesmo ano, o Deutscher Rock & Pop Musikerverband o escolheu como melhor cantor de R&B. A denominação de “Blues Ambassador”, portanto, não surgiu apenas como uma expressão promocional: passou a fazer parte da maneira como sua carreira é apresentada tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.

Um blues que não ficou parado no tempo

O trabalho de Davis interessa justamente porque sua música não ficou presa a uma única geografia. O Arkansas está lá. Memphis também. O soul de Nova York aparece na experiência dos Soul Groovers. E Berlim acrescenta outra camada, marcada pelo contato com músicos europeus e pela formação de bandas internacionais.

Essa combinação aparece em suas gravações. As canções transitam entre blues, soul e R&B, alternando números de andamento mais intenso com baladas e composições em que os metais ajudam a criar uma identidade sonora robusta. A atual formação da Superband mantém essa característica, reunindo voz, piano, órgão, guitarra, baixo, bateria e saxofones.

Davis continua ligado à atividade musical em Berlim. Sua trajetória, que começou no Arkansas em 1945, atravessou Memphis, Nova York e a Alemanha da Guerra Fria e chegou ao século XXI sem perder a conexão com o palco. Em 2026, sua agenda ainda inclui apresentações com a EB Davis & The Superband em Berlim, mostrando que a história não terminou com a queda do Muro nem ficou confinada aos documentários sobre o passado.

Good Time Blues

Se a trajetória de EB Davis pode ser entendida como uma longa viagem entre diferentes territórios do blues, Good Time Blues é um retrato particularmente interessante dessa mistura. O álbum foi originalmente lançado em 1991 pela Acoustic Music Records, creditado à EB Davis Blues Band. A página oficial de Davis registra o lançamento em 7 de abril daquele ano, enquanto a edição atualmente disponível no Spotify aparece catalogada como 2011, evidência de uma edição posterior do material.

São 12 faixas que percorrem diferentes lados de seu repertório: “Mr. DJ (Why Don't You Play No Blues)”, “I Love to Sing the Blues”, “Dirty Dance”, “Wait, Honey!”, “What You Gonna Do”, “Don't Wanna Leave This Town”, “She's Like the Weather”, “Since You Left Me”, “A Little Love and a Good Blues Song”, “Love You So Long”, “You Better Treat Me Right” e “Groovin' Together”.

O disco também ajuda a entender por que a expressão Good Time Blues combina tão bem com Davis. Há blues, mas há igualmente rock and roll, soul e uma preocupação evidente com o groove. “What You Gonna Do”, com seus mais de sete minutos, e “Groovin' Together” mostram uma banda interessada tanto na construção do clima quanto na força coletiva do conjunto.

Os créditos originais registram EB Davis nos vocais, Freimuth Fischkal e Guiro Loc Joe nas guitarras, Eberhard Post no baixo, Jürgen Magiera no piano e órgão, Peter Behne na bateria, Paul Griesbach nos metais e saxofones e Don Marriott no trompete e trombone. É uma formação ampla, capaz de sustentar justamente aquela combinação de blues, R&B, soul e rock and roll que define o álbum.

Ouvir Good Time Blues hoje é reencontrar um músico que atravessou fronteiras sem deixar para trás suas raízes. EB Davis levou consigo a memória do Arkansas e de Memphis, a experiência dos palcos de Nova York e a história singular de Berlim. No caminho, fez do blues uma linguagem de movimento. E talvez seja essa a melhor maneira de entender sua música: não como uma fotografia de um lugar, mas como uma estrada.

Ouça o álbum

EB Davis Blues Band — Good Time Blues


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Top 10 - Os Blues Mais Regravados de Todos os Tempos

Got My Mojo Working: o poder do Blues na expressão da alma afro-americana

Little Walter: O Gênio da Gaita que Mudou o Blues para Sempre