Chicago Blues: Cinco Vozes, Uma História

Chicago Blues: Cinco Vozes, Uma História



Chicago não inventou o blues, mas transformou profundamente a maneira como ele seria ouvido. A cidade recebeu músicos vindos do Mississippi, Arkansas, Louisiana e de outras regiões do Sul dos Estados Unidos, especialmente durante a Grande Migração, e ofereceu a eles uma paisagem urbana onde guitarras elétricas, harmonicas, pianos, baterias e vozes ganharam uma nova potência. Nos bares, clubes e pequenos salões dos lados West e South, o blues deixou de ser apenas memória rural: tornou-se linguagem cotidiana.

Booba Barnes, Barkin’ Bill Smith, Lee Solomon, James “Tail Dragger” Jones e  Jake Dawson pertencem a diferentes capítulos dessa história. Suas trajetórias não são idênticas, tampouco seus estilos. O que os aproxima é uma ligação profunda com a cena dos bairros onde o blues sobrevivia longe dos holofotes nacionais, sustentado por músicos, donos de clubes e um público que conhecia aquelas canções antes que elas chegassem aos discos.

Booba Barnes: o Mississippi que voltou para Chicago

Roosevelt Melvin “Booba” Barnes nasceu em 25 de setembro de 1936, em Longwood, Mississippi. Sua formação musical começou no Sul, em um ambiente onde o blues ainda fazia parte da vida cotidiana. Em 1960, iniciou profissionalmente sua trajetória tocando guitarra com os Swinging Gold Coasters, banda do Mississippi. Quatro anos depois, mudou-se para Chicago.

A experiência na cidade foi importante, mas não definitiva naquele primeiro momento. Barnes tocava em bares e clubes quando encontrava trabalho, até retornar ao Mississippi em 1971. De volta a Greenville, aprofundou sua relação com os juke joints e com uma tradição de blues elétrico particularmente áspera, direta e ligada à dança.

Em 1985, abriu o Playboy Club, estabelecimento que rapidamente se tornou um ponto importante da cena local. Barnes e sua banda, os Playboys, funcionavam praticamente como a banda da casa. O clube ajudou a consolidar seu nome no circuito regional e, posteriormente, abriu caminho para o contrato com a Rooster Blues.

O primeiro álbum, The Heartbroken Man, chegou em 1990. O disco apresentou ao público mais amplo uma guitarra de personalidade incomum e uma voz que carregava a aspereza do Delta sem abandonar a eletrificação. Depois do lançamento, Barnes excursionou pelos Estados Unidos e pela Europa.

Seu vínculo com Chicago, portanto, não pode ser reduzido a uma passagem pela cidade. O músico carregava o Sul consigo e fazia o caminho de volta sempre que sua música exigia. Quando morreu em Chicago, em 2 de abril de 1996, aos 59 anos, deixou uma obra curta em discos, mas suficientemente forte para registrar a permanência de uma tradição do Delta dentro do universo elétrico do blues.

Barkin’ Bill Smith: elegância no meio da fumaça

Barkin’ Bill Smith nasceu em 18 de agosto de 1928, em Cleveland, Mississippi. Antes de se estabelecer em Chicago, passou por East St. Louis e Detroit. A cidade, porém, seria o lugar onde sua voz encontraria uma identidade definitiva.

Smith não possuía o timbre áspero associado a tantos cantores do Chicago blues. Seu instrumento era um barítono encorpado, elegante, de acabamento quase sofisticado. Entre suas referências estavam Joe Williams, Jimmy Witherspoon e Brook Benton, nomes que ajudam a compreender por que sua interpretação podia transitar entre o blues, o rhythm and blues e uma tradição vocal mais próxima dos grandes crooners negros norte-americanos.

O apelido Barkin’ Bill nasceu em 1958, quando o guitarrista Homesick James lhe deu o nome depois de trabalharem juntos. Durante décadas, Smith cantou com diferentes bandas nos lados West e South de Chicago, construindo uma reputação essencialmente de palco.

A gravação demorou a chegar. Seu primeiro registro ocorreu apenas em 1991, quando participou de Bluebird Blues, álbum de Dave Specter lançado pela Delmark. Três anos depois, finalmente apareceu seu primeiro disco solo, Gotcha!, também pela Delmark, com Steve Freund na guitarra.

Essa demora em gravar não significa ausência de carreira. Ao contrário. Barkin’ Bill pertence àquela geração para a qual o palco era o verdadeiro currículo. A voz se formava noite após noite, diante de um público que não precisava de apresentações acadêmicas para saber se um cantor conhecia o blues.

Barkin’ Bill Smith morreu em Chicago em 24 de abril de 2000, vítima de câncer pancreático, aos 71 anos. Seu legado permanece especialmente interessante porque mostra outro caminho possível dentro do Chicago blues: menos rugido, mais acabamento; menos explosão, mais presença.

Lee Solomon, o Little Wolf do West Side

Lee Solomon ficou conhecido como Little Wolf, um nome que já revela sua relação com uma das figuras centrais do blues de Chicago. O apelido não era apenas uma referência estética. Solomon fazia parte de uma linhagem de cantores do West Side que encontraram em Howlin’ Wolf uma fonte direta de inspiração.

Solomon viveu na região de Lake e Kedzie, no West Side, em uma época em que os clubes e bares do bairro formavam uma rede fundamental para a sobrevivência do blues. Silvio’s era um desses lugares. O estabelecimento ficou especialmente associado a Howlin’ Wolf e recebeu músicos que ajudariam a construir a identidade do blues do lado oeste da cidade.

Antes de assumir o palco como cantor, Solomon trabalhou como segurança no Riviera, antigo Silvio’s. Foi nesse ambiente que começou a observar de perto Howlin’ Wolf e a aprender a cantar à maneira de seu ídolo. A memória daquela cena aparece em relatos de músicos do West Side que conviveram com ele. O baixista Carl Norington, por exemplo, recordou apresentações de Solomon no South Side e sua presença constante naquele circuito de clubes.

Lee Solomon morreu antes que sua história pudesse ser amplamente documentada em uma discografia extensa. Ainda assim, duas gravações preservadas em Chicago’s Best West & South Side Blues Singers Vol. 1 — “Highway Blues” e “Worried ’bout My Baby” — permitem ouvir um pouco desse universo.

Solomon também pertence à história dos chamados “Little Wolves”, uma sucessão de cantores que, de diferentes maneiras, mantiveram a influência de Howlin’ Wolf viva no West Side. A imprensa local chegou a situá-lo ao lado de Jesse Sanders e Tail Dragger nessa tradição.

É uma história que diz muito sobre Chicago: às vezes, um músico não precisa de uma grande discografia para ocupar um lugar importante na memória de uma comunidade. Algumas carreiras sobrevivem sobretudo nas lembranças de quem esteve nos clubes, nos ensaios, nas jam sessions e nas noites em que o blues era simplesmente o som daquele bairro.



James “Tail Dragger” Jones: discípulo de Howlin’ Wolf

James Yancey Jones nasceu em 30 de setembro de 1940, em Altheimer, Arkansas. Criado pelos avós, entrou em contato com o blues ainda criança. Escutava escondido um rádio alimentado por baterias e chegou a acompanhar apresentações de músicos como Sonny Boy Williamson II e Boyd Gilmore na região de Pine Bluff.

Em 1966, mudou-se para Chicago. Inicialmente trabalhou como mecânico, mas a música logo o levou para os clubes do West Side. Foi ali que encontrou Howlin’ Wolf, seu grande modelo. Jones começou a participar de apresentações quando Wolf estava fora do palco e, pouco a pouco, passou a fazer parte daquele círculo de músicos.

Antes de ser Tail Dragger, era conhecido como Crawlin’ James. O nome vinha de sua maneira de se movimentar no palco, às vezes literalmente rastejando enquanto cantava. Foi Howlin’ Wolf quem lhe deu o apelido Tail Dragger, uma brincadeira com o hábito de Jones chegar atrasado aos shows.

A relação entre os dois foi além de uma influência musical. Wolf representava para Jones uma espécie de escola viva. Sua voz grave, o fraseado arrastado e a maneira de transformar cada verso em uma narrativa seriam incorporados por Tail Dragger, mas sem apagar sua própria personalidade.

A partir do início dos anos 1970, Jones passou a trabalhar profissionalmente como cantor. Tocou com músicos importantes da cena de Chicago, entre eles Willie Kent, Hubert Sumlin, Carey Bell, Mack Simmons, Big Leon Brooks e Eddie Shaw. Durante as décadas de 1970 e 1980, tornou-se presença constante nos clubes da cidade.

Sua carreira fonográfica demorou a ganhar um álbum completo. Crawlin’ Kingsnake apareceu em 1996, seguido por American People, pela Delmark, em 1999. Mais tarde vieram registros como My Head Is Bald: Live at Vern’s Friendly Lounge, que capturou a força de suas apresentações ao vivo.

Tail Dragger morreu em Chicago em 4 de setembro de 2023, aos 82 anos. Poucos dias antes, havia se apresentado no festival anual da Delmark Records, acompanhado pela Delmark All-Star Band. A cena final é quase simbólica: um dos últimos representantes de uma geração inteira ainda estava no palco, diante do público que havia acompanhado sua voz durante décadas.

Jake Dawson: a guitarra por trás do West Side

Jake Dawson aparece em Chicago’s Best West & South Side Blues Singers Vol. 1 com “Somewhere Down the Line”, mas sua importância na cena de Chicago vai muito além dessa única gravação. Guitarrista de linguagem profundamente ligada ao blues elétrico da cidade, Dawson integrou a banda de Magic Slim, os Teardrops, ocupando o posto de segundo guitarrista que havia sido marcado por nomes como Junior Pettis e que mais tarde também receberia John Primer. Sua presença está documentada em trabalhos de Willie Kent, outro dos pilares do West Side, ao lado de Billy Flynn, Kenny Barker e James Carter. O JazzTimes, ao comentar Make Room for the Blues, destacou justamente a combinação entre Dawson e Flynn nas guitarras, ressaltando a sonoridade limpa e o ataque característico dos dois músicos. Dawson também aparece em registros ligados a outros nomes da cena de Chicago, incluindo John Primer e Elmore James Jr.

Seu lugar nessa história ajuda a entender uma característica fundamental do blues de Chicago: a carreira de um guitarrista muitas vezes se constrói pela convivência com diferentes bandas, cantores e líderes de grupo. Dawson circulou por esse núcleo de músicos durante décadas, funcionando como elo entre gerações e estilos. Na coletânea, “Somewhere Down the Line” registra justamente esse lado menos conhecido da cena — o músico de banda que talvez não ocupe a capa, mas cuja guitarra ajuda a sustentar a memória sonora do West Side.

Cinco vozes, uma cidade

O que você ouve aqui, são artistas que representam diferentes caminhos dentro do blues dos lados West e South de Chicago. Barnes traz o elo com o Mississippi; Barkin’ Bill, a tradição dos grandes cantores de blues e rhythm and blues; Solomon e Tail Dragger carregam a forte influência de Howlin’ Wolf; Dawson representa a guitarra que sustentou boa parte daquela cena.

Lançado pela Wolf Records em 1997, Chicago’s Best West & South Side Blues Singers Vol. 1 reúne doze faixas e funciona como um registro de uma cena construída nos clubes e bairros de Chicago, distante das grandes vitrines da indústria.

É um pequeno mapa sonoro de Chicago: o Delta, a migração, Howlin’ Wolf, o West Side, o South Side e uma geração de músicos que manteve o blues vivo nos clubes da cidade.

Ouvir o álbum hoje é entrar nesse universo pela porta dos fundos — onde o blues continuava acontecendo sem precisar de grandes palcos.

Chicago’s Best West & South Side Blues Singers Vol. 1
Wolf Records — 1997


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