Buddy Moss: O blues de Atlanta antes de Blind Boy Fuller
Buddy Moss: O blues de Atlanta antes de Blind Boy Fuller
Eugene “Buddy” Moss nasceu em 16 de janeiro de 1914, em Jewell, uma pequena comunidade do condado de Warren, na Geórgia. Filho de uma família de trabalhadores rurais, cresceu em um ambiente em que a música fazia parte da vida cotidiana, mas foi na harmônica que encontrou, ainda muito jovem, sua primeira voz. Mais tarde, a guitarra transformaria essa voz em uma das expressões mais refinadas do blues do Piedmont.
Moss pertence à geração que ajudou a definir o som do blues de Atlanta nas décadas de 1920 e 1930. Sua maneira de tocar reunia precisão rítmica, elegância melódica e aquela combinação tão característica do Piedmont entre linhas de baixo alternadas, síncopes e a agilidade quase pianística da mão direita. A New Georgia Encyclopedia o situa entre os principais músicos do country blues praticado em Atlanta naquele período e registra a definição do historiador Paul Oliver: Moss seria uma ligação entre Blind Blake e Blind Boy Fuller.
Da harmônica às ruas de Atlanta
A família Moss mudou-se para Augusta quando Buddy ainda era criança. Foi ali que ele começou a desenvolver sua relação com a música, antes de seguir para Atlanta. No final dos anos 1920, já podia ser encontrado tocando pelas ruas da cidade, absorvendo o repertório e a linguagem dos músicos que circulavam por um dos mais importantes centros do blues do Sudeste americano.
Entre esses músicos estavam Robert “Barbecue Bob” Hicks e Curley Weaver. A convivência com os dois seria decisiva. Barbecue Bob, especialmente, tornou-se uma referência importante para Moss, que posteriormente reconheceria sua influência. Ao mesmo tempo, a sofisticação de Blind Blake também aparece como uma presença perceptível em seu estilo, ajudando a situá-lo na linhagem do blues acústico que floresceu entre Atlanta, Augusta e outras cidades do Sul.
Essa cena musical era intensa. Músicos viajavam, tocavam em festas, bares, esquinas e reuniões comunitárias, trocando repertórios e maneiras de acompanhar o canto. Antes que o blues do Piedmont ganhasse uma definição histórica mais precisa, ele já estava sendo construído nas mãos desses artistas.
Os Georgia Cotton Pickers
Em 7 de dezembro de 1930, Moss participou de sua primeira sessão de gravação, realizada no Campbell Hotel, em Atlanta, ao lado de Barbecue Bob e Curley Weaver no grupo Georgia Cotton Pickers. Para a Columbia, registraram quatro músicas: I'm on My Way Down Home, Diddle-Da-Diddle, She Looks So Good e She's Comin' Back Some Cold Rainy Day.
O registro é particularmente significativo porque coloca Moss diante do microfone quando ele ainda era muito jovem e mostra um músico que já possuía uma identidade própria. As gravações também documentam um momento fundamental da história do blues de Atlanta: aquele em que uma tradição regional começava a ganhar permanência através dos discos de 78 rotações.
Nos anos seguintes, Moss voltou aos estúdios da Columbia, inclusive em sessões realizadas em Nashville. Parte desse material, porém, não seria lançada durante sua vida. O que sobreviveu de sua produção dos anos 1930 e início dos anos 1940 tornou-se posteriormente um dos conjuntos mais importantes para compreender o desenvolvimento do blues do Piedmont.
Uma carreira interrompida
Quando Buddy Moss começava a se firmar como um dos nomes importantes do blues de Atlanta, sua trajetória foi dramaticamente interrompida. Em 1935, ele foi condenado por homicídio e recebeu uma sentença de seis anos de prisão.
A prisão afastou Moss do circuito musical justamente em um período decisivo. Sua carreira fonográfica ficou suspensa enquanto outros artistas começavam a ocupar o espaço que ele havia ajudado a construir. Quando Blind Boy Fuller surgiu nas gravações em meados da década de 1930, Moss já estava fora de circulação. A comparação histórica entre os dois músicos tornou-se inevitável, sobretudo porque certas características da guitarra de Moss antecipam elementos que seriam associados posteriormente ao estilo de Fuller.
Depois de cumprir parte da pena, Moss retomou as gravações em 1941. Mas a Segunda Guerra Mundial e as transformações profundas pelas quais passava a indústria fonográfica americana contribuíram para que sua carreira não recuperasse a dimensão que parecia destinada a alcançar no início da década anterior.
O silêncio e a redescoberta
Durante décadas, Buddy Moss permaneceu relativamente distante do centro das atenções. O blues que havia registrado nos anos 1930, entretanto, não desapareceu. As antigas gravações continuaram circulando entre colecionadores e pesquisadores e, com o renascimento do interesse pelo blues rural americano nas décadas de 1960 e 1970, Moss voltou a ser procurado.
Em 1966, participou de um concerto em Washington, D.C., cujo registro posteriormente seria lançado pela Biograph. Em 1969, esteve no Newport Folk Festival e também se apresentou no Electric Circus, em Nova York. Durante os anos 1970, participou de eventos como o John Henry Memorial Concert, o Atlanta Blues Festival e o Atlanta Grass Roots Music Festival, além do National Folk Festival realizado no Wolf Trap Farm Park, na Virgínia.
A redescoberta permitiu que uma nova geração ouvisse diretamente aquele guitarrista que havia sido praticamente apagado do mapa musical por décadas. Não se tratava apenas de recuperar um veterano. Moss carregava consigo uma parte importante da memória sonora de Atlanta e de uma época em que o blues ainda estava sendo formado a partir da experiência cotidiana das comunidades negras do Sul.
A guitarra como linguagem
O que impressiona nas gravações de Buddy Moss é a economia. Sua guitarra não precisa de excesso para criar movimento. O ritmo está nas cordas, no desenho alternado dos baixos, nas pequenas síncopes e nos espaços deixados entre uma frase e outra.
Essa linguagem pertence ao universo do Piedmont, mas Moss não soa como um simples representante de uma fórmula regional. Há personalidade em seu fraseado e uma relação muito estreita entre voz e instrumento. A guitarra sustenta, responde, comenta e, em determinados momentos, parece conversar com o cantor.
É justamente essa combinação que ajuda a explicar sua importância histórica. Moss gravou em um período relativamente curto, mas suas sessões registraram um momento de transição entre diferentes gerações do blues acústico do Sudeste. Sua música olha para trás, para músicos como Barbecue Bob e Blind Blake, mas também aponta para o desenvolvimento que o Piedmont teria nas mãos de artistas como Blind Boy Fuller.
Um nome que voltou a ser ouvido
Buddy Moss morreu em Atlanta em 19 de outubro de 1984, aos 70 anos. Não alcançou em vida o mesmo reconhecimento popular de alguns contemporâneos, mas a reedição sistemática de suas gravações ajudou a reposicionar seu nome na história do blues.
Hoje, sua obra permite escutar uma Atlanta muito anterior à imagem musical que a cidade ganharia posteriormente. É uma Atlanta de ruas, encontros, festas, músicos itinerantes e pequenos espaços onde o blues circulava antes de se transformar em patrimônio histórico.
Ouvir Buddy Moss é entrar nesse território por uma porta particularmente rara. Sua música conserva a intimidade do country blues, mas já contém a sofisticação rítmica que faria do Piedmont uma das linguagens mais elegantes do blues acústico americano.
Oh Lordy Mama: The Buddy Moss Collection 1930–41
A melhor maneira de perceber a dimensão desse legado é mergulhar em Oh Lordy Mama: The Buddy Moss Collection 1930–41, coletânea dedicada ao período mais importante de sua produção fonográfica. O título reúne gravações que atravessam os anos fundamentais de sua carreira e permite acompanhar a evolução de Moss desde os primeiros registros até o material realizado em 1941.
Entre as faixas estão I'm On My Way Down Home, registrada com os Georgia Cotton Pickers, além de Cold Country Blues, When I'm Dead and Gone, Prowling Woman, T.B.'s Killing Me, Hard Times Blues, Decatur Street e Bye Bye Mama. A seleção funciona como um pequeno arquivo sonoro da formação do blues de Atlanta e revela a amplitude de Moss como cantor, guitarrista, compositor e músico de harmônica.
Mais do que uma coletânea histórica, Oh Lordy Mama devolve presença a um músico que passou décadas à margem das narrativas mais conhecidas do blues. As gravações preservam o instante em que Buddy Moss ajudava a construir, nota por nota, uma das linguagens fundamentais do blues do Piedmont.


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