Big Twist & the Mellow Fellows: o blues que fazia Chicago dançar
Big Twist & the Mellow Fellows: o blues que fazia Chicago dançar
Antes de Big Twist existir como nome de palco, Larry Nolan já carregava dentro da voz uma parte inteira da música negra americana. Nascido em Terre Haute, Indiana, em 23 de setembro de 1937, Lawrence Millard Nolan cresceu em uma família numerosa e musical. Seu pai tocava praticamente qualquer instrumento que tivesse à mão, e o menino começou a cantar ainda na infância, na igreja.
Na década de 1950, Nolan mudou-se para o sul de Illinois. O plano inicial era estudar, mas a música encontrou outro caminho para ele. Em pouco tempo, estava comandando uma banda residente no New Orleans Club, um dos poucos clubes integrados da região, e dividindo o palco com artistas que passavam pelo circuito do Meio-Oeste. Como baterista e cantor, acompanhava nomes importantes e absorvia uma linguagem que não respeitava fronteiras rígidas entre blues, rhythm & blues, soul, country e música popular.
Era esse ambiente de estrada, bares e pistas de dança que preparava o terreno para o personagem que surgiria mais tarde como Big Twist.
O encontro que mudou a história
No início dos anos 1970, o guitarrista Pete Special e o saxofonista Terry Ogolini tocavam R&B em Carbondale, Illinois. Ogolini conhecia Nolan e insistiu para que Special fosse vê-lo tocar. O encontro aconteceu em um bar de uma pequena comunidade do estado, em um ambiente tão hostil que havia uma tela de arame diante do palco.
Special ficou impressionado não apenas com o tamanho físico do cantor, mas principalmente com a maneira como Nolan dominava uma música. Ele podia cantar blues, country, pop ou R&B sem tentar reproduzir simplesmente o intérprete original. O que chegava ao público era a personalidade de Larry Nolan.
Daquela aproximação nasceu a formação que daria origem aos Mellow Fellows. Nolan assumiu vocais e bateria, enquanto Special e Ogolini ajudaram a estabelecer a identidade musical da banda. O nome Big Twist surgiu naturalmente da combinação entre a presença física de Nolan, sua voz poderosa e sua figura impossível de ignorar.
Uma reportagem publicada pelo Washington Post em 7 de agosto de 1985 registra a lembrança de Special sobre aquele primeiro encontro e também uma declaração importante para entender a filosofia do grupo: os Mellow Fellows não queriam ser uma banda de revival. Em vez de reproduzir os clássicos exatamente como haviam sido gravados por seus criadores, procuravam rearranjá-los e colocar sua própria personalidade dentro deles.
Do sul de Illinois para Chicago
Durante os anos 1970, Big Twist & the Mellow Fellows construíram uma reputação forte no circuito universitário e nos clubes do Meio-Oeste. O repertório combinava soul, R&B, blues e rock, embalado por uma seção de metais que se tornaria uma das marcas registradas do grupo.
Em 1978, a banda mudou-se para Chicago. A cidade oferecia um novo território para aquela mistura de blues e R&B, e os Mellow Fellows rapidamente transformaram sua experiência de estrada em uma sonoridade própria. O palco era o lugar onde a banda realmente fazia sentido: dançante, expansiva, barulhenta na medida certa e construída para provocar reação imediata.
O primeiro álbum, Big Twist & The Mellow Fellows, foi gravado para a Flying Fish e lançado em 1980. Um segundo trabalho, One Track Mind, veio em 1982. Os discos apresentavam em estúdio parte da linguagem que já conquistava o público ao vivo, mas havia uma diferença importante: a reputação da banda como atração de palco era maior do que qualquer gravação conseguia registrar.
Em 1983, os Mellow Fellows chegaram à Alligator Records com Playing for Keeps. O álbum ampliou o alcance nacional do grupo e apresentou uma combinação particularmente eficiente de boogie, soul, blues e R&B conduzida pelos metais, pela guitarra de Pete Special e, acima de tudo, pela voz de Big Twist.
Uma voz impossível de confundir
Big Twist tinha uma presença vocal tão grande quanto sua figura. Seu registro podia soar suave e encorpado em uma balada e, segundos depois, transformar-se em um rugido capaz de atravessar uma pista de dança.
A própria Alligator descreve a voz de Nolan como extraordinariamente ampla e destaca sua capacidade de saber não apenas o que colocar em uma interpretação, mas também o que deixar de fora. Essa economia, dentro de uma performance naturalmente exuberante, ajudava a criar um cantor que não precisava imitar Bobby Bland, Little Milton ou Tyrone Davis, embora essas referências estivessem entre as bases estilísticas do grupo.
O repertório também revelava essa liberdade. Os Mellow Fellows podiam passar de uma composição de Willie Dixon para uma música de Tony Joe White, atravessar soul e R&B e retornar ao blues sem que a mudança parecesse artificial. O elo era a interpretação de Big Twist e o arranjo da banda.
Entre os destaques de Playing for Keeps estava “300 Pounds of Heavenly Joy”, canção que se tornou uma espécie de assinatura do cantor. A música também ganhou um videoclipe produzido pela Alligator, considerado o primeiro vídeo musical da gravadora.
O palco como território natural
Em 1985, quando o Washington Post entrevistou Pete Special e Big Twist, havia uma questão recorrente: como transportar para um disco a energia de uma apresentação dos Mellow Fellows?
A resposta viria pouco depois.
Entre 31 de janeiro e 2 de fevereiro de 1987, a banda entrou no palco do Biddy Mulligan's, em Chicago, para registrar aquele que se tornaria seu grande documento ao vivo. O resultado foi Live From Chicago! Bigger Than Life!, lançado pela Alligator em 1987.
O disco reúne dez faixas e coloca o ouvinte dentro de uma noite de R&B elétrico, blues e soul. A formação inclui Pete Special na guitarra e direção musical, Sidney Wingfield nos teclados, Terry Ogolini e Gene Barge nos saxofones, Don Tenuto no trompete, Steve Eisen no sax barítono, Marvin Jackson na guitarra rítmica, Bob Halaj no baixo e Steve Cobb ou Eric Jensen na bateria. Gene Barge e Pete Special dividiram a produção com Bruce Iglauer.
O repertório atravessa “The Sweet Sound of Rhythm and Blues”, “Funky Tom's Place”, “Steamroller Blues”, “Too Much Barbeque”, “Turning Point”, “Built for Comfort”, “Polk Salad Annie” e chega ao inevitável “300 Pounds of Heavenly Joy”. A seleção funciona quase como um manifesto: a banda não estava interessada em separar o blues do soul, o R&B do rock ou a tradição da festa.
Gravado diante de um público entusiasmado, o álbum finalmente conseguiu registrar algo que Special já considerava difícil de transportar para o estúdio: a dimensão física da banda no palco. A crítica de Bill Dahl para a AllMusic destaca justamente essa força, apontando “300 Pounds of Heavenly Joy”, “Turning Point” e “Too Much Barbeque” entre os momentos mais marcantes da apresentação.
O último registro de Big Twist
Live From Chicago! Bigger Than Life! acabaria sendo também o último grande registro de Big Twist à frente dos Mellow Fellows. Problemas de saúde, incluindo diabetes, dificultaram progressivamente suas apresentações e gravações. Ainda assim, o álbum preserva o cantor em plena capacidade de comandar uma banda construída para o palco.
Larry “Big Twist” Nolan morreu em 14 de março de 1990, em Broadview, Illinois, aos 52 anos. Depois de sua morte, os músicos que permaneceram na formação seguiram trabalhando sob o nome Chicago Rhythm & Blues Kings. A trajetória dos Mellow Fellows, portanto, não terminou exatamente quando a voz de Big Twist se calou: ela mudou de nome e continuou circulando pela cena de Chicago.
Life From Chicago! Bigger Than Life!
Escutar Live From Chicago! Bigger Than Life! hoje é reencontrar uma Chicago em que o blues podia ocupar o mesmo espaço da soul music, do rhythm & blues e do rock sem precisar pedir licença. O álbum não documenta apenas uma banda tocando diante de uma plateia. Documenta uma maneira de entender o entretenimento musical: o blues como celebração, o R&B como linguagem de corpo inteiro e o palco como lugar onde uma personalidade pode ser maior do que qualquer categoria.
Big Twist tinha tamanho, voz e presença para preencher aquele palco. Mas é a banda que transforma essa presença em música. Os metais avançam, a guitarra empurra os riffs, o piano costura os arranjos e a cozinha mantém tudo em movimento. No centro está Nolan, cantando como quem sabe que uma boa noite de blues precisa ser ouvida, mas também precisa ser sentida.
É por isso que Live From Chicago! Bigger Than Life! permanece como uma porta de entrada privilegiada para Big Twist & the Mellow Fellows: um retrato de uma banda que levou o blues para a pista de dança sem diluí-lo e levou o R&B para o palco sem perder suas raízes.


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