Aynsley Dunbar Retaliation: quando o blues britânico ganhou peso e liberdade

Aynsley Dunbar Retaliation: quando o blues britânico ganhou peso e liberdade



Antes de se tornar um dos bateristas mais requisitados do rock, Aynsley Dunbar já havia entendido que o blues não precisava ficar parado. Nascido em Liverpool em 10 de janeiro de 1946, ele chegou à segunda metade dos anos 1960 depois de passar por grupos da cena Merseybeat e pelos Mojos, antes de entrar para os Bluesbreakers de John Mayall. Foi ali, ao lado de Peter Green e John McVie, que gravou A Hard Road, lançado em 1967.

Dunbar permaneceu pouco tempo com Mayall. Sua maneira de tocar era intensa, cheia de deslocamentos e intervenções que iam além do papel discreto reservado ao baterista de uma banda de blues. Em entrevistas, o músico relatou que Mayall queria uma bateria mais contida, enquanto ele pretendia explorar outras possibilidades. A separação abriu espaço para uma decisão importante: em vez de procurar simplesmente outro emprego, Dunbar decidiu montar sua própria banda.

Antes disso, ainda passou brevemente pelo Jeff Beck Group, formação que reunia Jeff Beck, Rod Stewart e Ronnie Wood. Dunbar participou de gravações como Tallyman e Rock My Plimsoul, experiências que ampliaram seu contato com um rock que começava a abandonar as fronteiras mais rígidas do rhythm and blues.

Uma banda para ir além do blues tradicional

Em 1967, Dunbar formou o Aynsley Dunbar Retaliation. A primeira formação reunia o guitarrista John Morshead, o cantor, guitarrista e tecladista Victor Brox e o baixista Keith Tillman. Pouco depois, Tillman saiu para trabalhar com John Mayall, sendo substituído por Alex Dmochowski, músico que já havia passado por Neil Christian's Crusaders e Winston's Fumbs.

O quarteto encontrou uma combinação pouco convencional para a época. Brox podia cantar com uma força quase teatral e também tocar teclados, guitarra e metais. Morshead trazia para a guitarra uma mistura de blues e rock, com forte influência de Peter Green. Dmochowski sustentava uma base pesada, enquanto Dunbar fazia da bateria muito mais do que uma simples marcação de tempo.

A escolha do repertório também dizia bastante sobre o projeto. Havia respeito pelos compositores americanos, mas a banda não queria viver apenas de standards. A maior parte de seu primeiro LP seria formada por material próprio.

O primeiro registro foi o single Warning/Cobwebs, lançado em 1967 pelo selo Blue Horizon e produzido por Mike Vernon. Warning ganharia uma segunda vida alguns anos depois ao ser regravada pelo Black Sabbath em seu álbum de estreia, de 1970.

O episódio é revelador. O Retaliation estava inserido no mesmo ambiente que alimentava o blues britânico, mas suas ideias já apontavam para o peso que dominaria parte do rock no início da década seguinte.

O primeiro álbum

Para o LP de estreia, a banda deixou de lado a tentativa de registrar seu repertório ao vivo e entrou em estúdio com o produtor Ian Samwell. O resultado foi The Aynsley Dunbar Retaliation, lançado originalmente em julho de 1968 pela Liberty. Algumas bases de dados apresentam 1969 em razão de edições e relançamentos, mas as fontes discográficas e contemporâneas situam o lançamento original em 1968.

O disco traz nove faixas e impressiona justamente pelo espaço concedido às composições da própria banda. Entre elas estão Watch 'N' Chain, My Whiskey Head Woman, Trouble No More, Double Lovin', Roamin' and Ramblin', Sage of Sidney Street e Mutiny. As exceções mais claras no repertório são See See Baby, associada ao repertório de Freddie King, e Memory of Pain, de Percy Mayfield.

Watch 'N' Chain abre o álbum com uma pulsação quase hipnótica, enquanto Double Lovin' deixa espaço para os músicos estenderem a conversa instrumental. Sage of Sidney Street e Mutiny seguem por uma estrada ainda mais aberta, permitindo que Dunbar e Morshead ampliem a estrutura do blues para além do formato convencional.

Memory of Pain, por sua vez, é um dos momentos mais marcantes do disco. A composição de Percy Mayfield ganha uma interpretação carregada de tensão, com a guitarra de John Morshead ocupando um lugar central. A sonoridade do guitarrista frequentemente foi relacionada à de Peter Green, influência que ele próprio reconhecia, embora sua formação também passasse pelo rock de Jimmy Burton e pelo impacto posterior de Eric Clapton.

Há uma curiosidade técnica interessante nessa gravação. Segundo a Bear Family, o timbre de Morshead foi obtido com dois microfones, um deles colocado distante do amplificador e da caixa. Victor Brox posteriormente afirmou que Jimi Hendrix teria considerado aquele um dos grandes solos de guitarra branca que ouvira. É uma história que deve ser tratada como um relato de Brox, não como uma avaliação documentada diretamente por Hendrix.



Blues, peso e personalidade

O Aynsley Dunbar Retaliation não inventou o blues-rock britânico. John Mayall, Cream, Fleetwood Mac, Savoy Brown e tantos outros já haviam aberto esse caminho. O que a banda acrescentou foi uma combinação particularmente carregada, em que o blues tradicional encontrava uma seção rítmica mais pesada e uma disposição maior para improvisar.

A bateria de Dunbar é fundamental para entender o disco. Ele não se limita a acompanhar. Empurra as músicas, muda a dinâmica e cria espaços para os demais músicos responderem. É uma característica que já aparecia em sua passagem pelos Bluesbreakers e que se tornaria ainda mais importante em sua carreira posterior.

A crítica retrospectiva de Richie Unterberger, do AllMusic, observa que o álbum apresenta forte semelhança com o blues-rock dos Bluesbreakers de 1966 e 1967, algo compreensível pela presença anterior de Dunbar naquela banda. Ao mesmo tempo, Unterberger identifica uma atmosfera mais pesada e sombria no Retaliation.

Outra leitura retrospectiva, publicada pelo Blues Magazine, chama atenção para a qualidade do trabalho de Morshead e para o caráter mais escuro de algumas interpretações. A publicação considera o disco um registro que merece ser redescoberto, especialmente pela força instrumental que muitas vezes ficou escondida pela história posterior de Dunbar.

Uma história curta, mas importante

O Retaliation não permaneceria unido por muitos anos. Depois do primeiro álbum vieram Doctor Dunbar's Prescription, To Mum, From Aynsley and the Boys e, posteriormente, Remains to Be Heard, este último montado a partir de gravações que incluem material de diferentes momentos da história do grupo.

O segundo disco, Doctor Dunbar's Prescription, trouxe novamente Victor Brox, John Morshead, Alex Dmochowski e Dunbar, mantendo a direção blues-rock e acrescentando momentos de maior peso e dramaticidade. Já To Mum, From Aynsley and the Boys contou com Tommy Eyre nos teclados e teve John Mayall como produtor, sinal de que Dunbar começava a procurar outros caminhos para além do formato que havia estabelecido com o Retaliation.

Em 1969, a história do grupo chegou ao fim. Dunbar partiria para novas experiências, primeiro com o Blue Whale e, pouco depois, para uma mudança que transformaria definitivamente sua carreira: o convite de Frank Zappa para integrar sua banda. A partir daí viriam Mothers of Invention, David Bowie, Lou Reed, Journey, Whitesnake e uma longa lista de trabalhos que fizeram de Dunbar um dos bateristas mais versáteis de sua geração.

Mas existe uma razão para voltar ao começo. Antes das grandes bandas, dos discos de ouro e das sessões de estúdio, havia aquele jovem baterista de Liverpool tentando descobrir até onde poderia levar o blues. O Retaliation foi seu primeiro grande laboratório como líder.

Aynsley Dunbar Retaliation — 1968

Ouvir hoje The Aynsley Dunbar Retaliation é entrar em uma Inglaterra em que o blues ainda estava sendo reinventado em tempo real. O álbum não tem a pretensão de soar como um documento purista da tradição. Ele é elétrico, pesado, às vezes sombrio e frequentemente impulsionado pela vontade de improvisar.

Com Victor Brox nos vocais e teclados, John Morshead na guitarra, Alex Dmochowski no baixo e Aynsley Dunbar na bateria, o disco registra quatro músicos tentando descobrir o que aconteceria quando o blues americano passasse pelo filtro da nova música britânica.

É justamente essa tensão que mantém o álbum vivo. Memory of Pain revela o lado mais profundo; Double Lovin' e Mutiny mostram o prazer da improvisação; Sage of Sidney Street expõe a vontade de ultrapassar o formato tradicional. E Watch 'N' Chain apresenta, logo de saída, uma banda que não pretendia tocar o blues com o freio puxado.

O Retaliation durou pouco. A influência de sua música, porém, atravessou aquela breve existência. E ouvir este primeiro álbum hoje ajuda a compreender de onde veio parte da força de Aynsley Dunbar quando ele deixou o blues para trás e passou a ocupar territórios cada vez mais amplos dentro do rock.

Ouça The Aynsley Dunbar Retaliation


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