Paul Boddy: entre o soul britânico e a força do blues americano

Paul Boddy: entre o soul britânico e a força do blues americano



Há músicos que chegam ao blues pela família, pelas histórias ouvidas em casa e pela convivência com a música antes mesmo de compreenderem que ela poderia se tornar um caminho. A história de Paul Boddy começa na Inglaterra, atravessa o Atlântico e desemboca em Doylestown, na Pensilvânia, onde o guitarrista, cantor, produtor e compositor construiu uma trajetória profundamente ligada ao blues.

Uma infância cercada pela música

Nascido na Inglaterra, Boddy cresceu em um ambiente familiar no qual a música fazia parte da vida cotidiana. Segundo a biografia publicada pela própria SlideWinder Blues Band, sua avó cantava blues em clubes londrinos e em encontros familiares, enquanto seu tio John mantinha uma banda que ensaiava aos sábados no armazém de seu pai. Um dos guitarristas daquela formação posteriormente faria parte do Judas Priest.

A família também tinha conexões com personagens importantes da indústria musical britânica e americana. O pai de Boddy, Victor, manteve negócios com Mark Stevens, integrante dos Dovells, conhecidos pelo sucesso Bristol Stomp, e com Don Kirshner, produtor e empresário ligado ao célebre programa Don Kirshner's Rock Concert.

Em 1976, aos oito anos, Paul mudou-se para os Estados Unidos e começou a estudar guitarra. A mudança de país ampliaria ainda mais seu universo musical: de um lado, a tradição britânica do blues e do rock; do outro, a música negra americana que estava na origem de grande parte daqueles sons.

Do rock britânico ao blues

Antes de se estabelecer definitivamente no blues, Boddy passou por diferentes experiências musicais. Uma de suas primeiras bandas, Brew Dog Molly, mergulhava no classic rock, com forte influência de grupos britânicos como Led Zeppelin. Ao longo das décadas seguintes, ele acumulou mais de quarenta anos de experiência como músico, produtor e proprietário de selo, transitando por diferentes gêneros e mantendo a guitarra como elemento central de sua identidade artística.

Em 1999, fundou a Cayman Records e produziu o álbum Yellow Light, de Bob Lowery. Essa experiência como produtor ajudaria a formar uma visão mais ampla sobre gravação e construção de repertório, algo que posteriormente seria perceptível em seus próprios trabalhos.

Mas foi o reencontro com o blues, já na região de Doylestown, que mudaria o rumo de sua trajetória. Ao assistir a apresentações da banda Little Red Rooster no Chambers, Boddy descobriu a existência de jams de blues na região. Em 2016, iniciou sua própria jam, no Puck Live, criando um espaço que acabaria reunindo os músicos que formariam a SlideWinder Blues Band.

Nasce a SlideWinder Blues Band

Mais do que simplesmente uma banda, a SlideWinder nasceu de uma comunidade musical. O projeto reuniu músicos experientes em torno de uma proposta que mistura blues contemporâneo, Chicago blues, Texas blues, Delta blues e elementos de New Orleans.

Com Boddy nos vocais e guitarras, incluindo a slide guitar, a banda desenvolveu uma sonoridade marcada por apresentações vigorosas e pelo trabalho de guitarra do líder. A formação também passou por diferentes integrantes ao longo dos anos, mantendo como núcleo a identidade construída em torno das composições e da guitarra de Boddy. O grupo se tornou presença constante no circuito do Nordeste dos Estados Unidos e dividiu palcos com nomes como Sonny Landreth, Marcia Ball e Coco Montoya, além de participar de festivais como MusikFest, Blast Furnace Blues Festival e Jersey Shore Jazz & Blues Festival.

O primeiro EP da SlideWinder, Friends of Tuesday, apareceu em 2020 e apresentou um repertório essencialmente autoral. Em 2023, veio Nosy Neighbors, álbum que consolidou a banda e recebeu atenção da imprensa especializada. O trabalho reúne dez composições próprias e duas releituras, revelando um grupo confortável tanto no blues tradicional quanto em uma abordagem contemporânea e carregada de personalidade.

O reconhecimento chega com o International Blues Challenge

Um dos momentos decisivos aconteceu em 2022. A SlideWinder Blues Band venceu o International Blues Challenge promovido pela Jersey Shore Jazz & Blues Foundation. A conquista colocou Boddy e sua banda em uma posição de maior visibilidade dentro do circuito regional e chamou a atenção de um dos jurados, o produtor e compositor Marc Swersky, vencedor de dois Grammys.

Swersky enxergou possibilidades no trabalho de Boddy e propôs que os dois fizessem um disco juntos. A conversa, inicialmente simples, acabaria levando ao projeto que se tornaria Soul Gone Blu'.



Soul Gone Blu': quando o soul encontra o blues

Lançado em 2 de janeiro de 2026, Soul Gone Blu' representa um capítulo diferente na carreira de Paul Boddy. Em vez de concentrar-se apenas em suas composições, o músico voltou às canções que ajudaram a formar sua identidade musical durante as décadas de 1960 e 1970.

O conceito do EP está diretamente ligado às lembranças de sua infância e juventude entre Inglaterra e Estados Unidos. São seis releituras de canções associadas ao soul, ao R&B e ao blues, reorganizadas por Boddy para criar uma ponte entre essas tradições. O resultado não procura reproduzir o passado de maneira arqueológica. Ao contrário, transforma aquelas referências em matéria-prima para uma interpretação contemporânea.

A gravação reuniu músicos de estúdio de grande experiência. Aaron Comess, dos Spin Doctors, assumiu a bateria; Jack Daley, conhecido por trabalhos com artistas como Lenny Kravitz e Prince, ficou no baixo; e Rob Clores ocupou os teclados. Jessie Wagner e Lynn Lockamy participaram dos vocais de apoio. Entre os convidados estão Sonny Landreth, Early Times, Mikey Jr. e integrantes dos Cinelli Brothers.

O repertório começa com One Hundred Years, registrada originalmente por Freddie King em 1963, e passa por Chonnie-On-Chon, de James Brown and His Famous Flames; Every Dog Got His Day, associada a Eddie Bo; Cussin' Cryin' & Carryin' On, de Ike e Tina Turner; So Is the Sun, dos World Column; e Need Your Love So Bad, imortalizada por Little Willie John e posteriormente revisitada pelo Fleetwood Mac de Peter Green.

O encerramento, Need Your Love So Bad, ganha uma participação especialmente significativa: Sonny Landreth acrescenta sua conhecida abordagem da slide guitar, estabelecendo um diálogo direto com Boddy. A presença de Landreth também reforça uma relação artística que já vinha de apresentações conjuntas da SlideWinder.

Um guitarrista moldado pela memória

É justamente na slide guitar que Paul Boddy encontra uma de suas vozes mais reconhecíveis. Seu estilo não procura competir com a tradição; procura conversar com ela. Há em seu fraseado a memória do blues britânico, a força do rock, o peso do Chicago blues e uma ligação evidente com as raízes sulistas americanas.

Essa combinação explica por que sua música não cabe confortavelmente em uma única gaveta. Boddy pode partir de um riff de blues, incorporar a energia do rock, buscar a sensualidade do soul e ainda preservar aquela aspereza característica da guitarra slide.

A própria SlideWinder reproduz uma definição de Sonny Landreth que resume bem essa característica: para o mestre da slide guitar, Boddy é um músico que merece atenção justamente por sua habilidade no instrumento.

Um bluesman de duas margens do Atlântico

A trajetória de Paul Boddy é, em muitos sentidos, uma história de encontro. A Inglaterra de sua infância e os Estados Unidos de sua formação musical não aparecem como capítulos separados, mas como duas partes de uma mesma linguagem.

Talvez seja essa a chave para compreender Soul Gone Blu'. O disco não é apenas uma coleção de covers escolhidos por afinidade. É uma espécie de mapa afetivo: Freddie King, James Brown, Eddie Bo, Ike & Tina Turner, The World Column e Little Willie John aparecem como pontos de uma memória musical que Boddy carrega há décadas.

Depois de uma longa carreira atravessada por rock, produção, composição, bandas e jams, Paul Boddy chegou a um lugar em que passado e presente podem finalmente conversar. Soul Gone Blu' é o registro desse encontro: soul ouvido na juventude, blues absorvido ao longo da vida e uma guitarra slide que transforma lembranças em música nova.

Ouça Soul Gone Blu'

O EP Soul Gone Blu', de Paul Boddy, foi lançado pela Slide Records em janeiro de 2026 e reúne seis faixas. Abaixo, você pode ouvir o trabalho completo pelo Spotify.

Paul Boddy mostra que o blues também pode ser uma forma de memória. Em suas mãos, a tradição não permanece parada: ela atravessa décadas, oceanos e gerações para continuar encontrando novas maneiras de soar.


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