Jimmy Burns: uma lenda do blues de volta ao Brasil
Jimmy Burns: uma lenda do blues de volta ao Brasil
Aos 83 anos, Jimmy Burns continua carregando na voz e na guitarra uma história que atravessa o Delta do Mississippi, o soul, o R&B e o blues de Chicago. E, neste mês, o veterano retorna ao Brasil para uma série de apresentações acompanhado pela Bruno Marques Band, em uma turnê que coloca frente a frente uma das vozes históricas do Chicago blues e uma banda brasileira dedicada à preservação e à circulação do gênero.
Mais do que uma visita de um músico veterano, a passagem de Burns pelo país representa o encontro entre duas pontas de uma mesma tradição. De um lado está um artista que nasceu no Mississippi e absorveu o blues ainda menino. Do outro, músicos brasileiros que fizeram da linguagem criada pelos afro-americanos no sul dos Estados Unidos uma de suas principais referências.
Do Mississippi para Chicago
James Olin “Jimmy” Burns nasceu em 27 de fevereiro de 1943, em Dublin, Mississippi. Era o mais novo de onze irmãos e cresceu em uma região marcada pela cultura das plantações de algodão e pela presença cotidiana do blues. Seu irmão mais velho, Eddie Burns, também se tornaria um respeitado músico de blues, construindo carreira principalmente em Detroit.
Ainda criança, Jimmy começou a aprender guitarra. A mudança da família para Chicago, em meados dos anos 1950, colocou o jovem músico diante de um universo sonoro diferente. Na cidade, entrou em contato com grupos vocais e participou dos Medallionaires, enquanto o soul e o R&B ganhavam cada vez mais espaço entre os jovens artistas negros de Chicago.
Essa passagem pelo soul é fundamental para compreender o estilo de Burns. Embora seja frequentemente identificado como um bluesman de Chicago, sua música nunca ficou limitada a uma única escola. O Delta que conheceu no Mississippi encontrou em Chicago o peso da guitarra elétrica, enquanto o soul e o R&B acrescentaram ao seu canto uma dimensão mais melódica e sofisticada.
Os primeiros discos e os anos longe dos holofotes
No início dos anos 1960, Burns registrou alguns singles, entre eles “Forget It” e “Through All Your Faults”. Essas gravações permaneceriam por muito tempo como pequenas peças de uma discografia ainda incompleta.
O caminho da música, porém, não foi linear. Depois de se casar e constituir família, Burns reduziu consideravelmente sua atividade artística. Durante parte desse período, trabalhou fora dos palcos e chegou a administrar um negócio de alimentação. A música continuou presente, mas deixou de ser sua ocupação principal.
Foi somente no início dos anos 1990 que o músico começou a reconstruir sua carreira. Com os filhos já crescidos, Burns voltou a se apresentar com maior regularidade na cena de Chicago, especialmente em clubes onde seu blues de forte influência soul encontrou uma nova geração de admiradores.
Leaving Here Walking: o reencontro com o mundo
O retorno ganhou uma dimensão definitiva em 1996, quando a Delmark Records lançou Leaving Here Walking. Aos 53 anos, Burns finalmente apresentava um álbum completo que reunia sua identidade como cantor, guitarrista e compositor.
O disco é importante não apenas por marcar sua estreia em longa duração, mas porque sintetiza a amplitude de seu universo musical. A faixa-título convive com canções como “Twelve Year Old Boy”, “Miss Annie Lou”, “Whiskey Headed Woman”, “One Room Country Shack”, “Rollin’ and Tumblin’” e “Catfish Blues”.
O resultado é um blues que não tenta escolher entre Mississippi e Chicago. Burns faz justamente o contrário: aproxima as duas tradições. Seu canto tem a força narrativa do Delta, enquanto sua guitarra e seus arranjos revelam a experiência adquirida durante décadas de convivência com o soul e o R&B.
Leaving Here Walking tornou-se, assim, a porta de entrada para uma nova fase de sua carreira. O álbum foi seguido por trabalhos como Night Time Again, Back to the Delta, Live at B.L.U.E.S., Stuck in the Middle e, mais tarde, The Chicago Sessions.
Um blues que não cabe em uma única cidade
A força de Jimmy Burns está justamente nessa capacidade de transitar entre diferentes territórios do blues. Sua música carrega o sotaque do Mississippi, mas também o pulso urbano de Chicago. O soul aparece no fraseado vocal; o R&B surge na construção das canções; e a guitarra mantém viva a tradição dos bluesmen que vieram antes dele.
Por isso, sua obra funciona como uma espécie de ponte entre gerações. Burns não reproduz simplesmente o blues do passado. Ele o carrega consigo, transforma suas experiências em canções e mantém uma linguagem que continua reconhecível décadas depois de suas primeiras gravações.
O retorno ao Brasil
A relação de Jimmy Burns com o Brasil não é recente. O bluesman já havia se apresentado no país e participado do Dipanas Blues em 2015 e retornou ao festival para sua 14ª edição, realizada em 15 de agosto, em Pará de Minas (MG), novamente acompanhado pela Bruno Marques Band.
A conexão com Bruno Marques é parte importante dessa história. Guitarrista, produtor cultural e responsável pelo projeto Rota do Blues, Marques vem trabalhando há anos na aproximação entre músicos norte-americanos e a cena brasileira. O projeto já trouxe ao Brasil artistas de diferentes gerações do blues e criou oportunidades para que músicos estrangeiros dividissem o palco com bandas brasileiras.
Com Jimmy Burns, essa parceria ganha um significado especial. Bruno Marques não está apenas acompanhando um artista internacional: está ajudando a criar condições para que o público brasileiro tenha contato direto com uma tradição musical que Burns conhece desde a infância.
Jimmy Burns no Brasil
22 de agosto de 2026 — Brasília, DF
11º Festival República Blues
Sesc Guará - a partir das 17h30
Entrada gratuita mediante doação de 1 kg de alimento não perecível para o Mesa Brasil
Jimmy Burns será acompanhado pela Bruno Marques Band.
26 de agosto de 2026 — São Paulo, SP
Bourbon Street Music Club
Moema
28 de agosto de 2026 — Casa Branca, Brumadinho, MG
Barracão Antiguidades & Arte
Alameda Canela de Ema, 20 — Casa Branca, Brumadinho
Observação: horários, valores e condições de ingressos podem sofrer alterações pelos organizadores. Para as apresentações pagas, recomenda-se conferir a disponibilidade diretamente na página oficial de venda antes da compra.
Uma voz que atravessou o tempo
Há músicos que representam um gênero. Jimmy Burns representa uma trajetória dentro dele. Sua história começa no Mississippi rural, passa pelos grupos vocais e pelo soul, encontra Chicago, atravessa décadas de silêncio relativo e finalmente retorna aos palcos quando muitos de seus contemporâneos já haviam desaparecido.
Aos 83 anos, Burns continua sendo testemunha viva de uma transformação fundamental da música norte-americana: aquela em que o blues rural encontrou as cidades, ganhou eletricidade, dialogou com o soul e ajudou a formar algumas das linguagens mais influentes da música popular do século XX.
Leaving Here Walking
Lançado pela Delmark Records em 1996, Leaving Here Walking permanece como um dos discos fundamentais para compreender a segunda fase da carreira de Jimmy Burns. São 14 faixas que apresentam o artista em uma combinação de blues, soul e R&B, com destaque para a faixa-título, “Twelve Year Old Boy”, “Miss Annie Lou”, “One Room Country Shack”, “Rollin’ and Tumblin’” e “Catfish Blues”.
Ouça o álbum completo:


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