Floyd Lee: o blues que encontrou seu palco nas ruas de Nova York

Floyd Lee: o blues que encontrou seu palco nas ruas de Nova York



Floyd Lee, nome artístico de Theodore Williams, foi um daqueles músicos cuja trajetória parece ter sido escrita pelo próprio blues. Nascido em 20 de agosto de 1933, em Lamar, Mississippi, e falecido em 7 de junho de 2020, em Columbus, Ohio, aos 86 anos, Lee construiu uma carreira marcada pela estrada, pela sobrevivência e, sobretudo, por uma ligação visceral com a música de suas raízes.

Do Mississippi para a vida na estrada

A infância de Theodore Williams foi atravessada pelas dificuldades do sul dos Estados Unidos. Ainda menino, trabalhou na colheita de algodão durante os meses mais quentes e frequentava a escola em Memphis, Tennessee, durante o inverno. Segundo o obituário publicado pela Living Blues, foi criado em diferentes lugares depois de ser entregue a parentes ainda muito pequeno, passando por Chicago e posteriormente por Cleveland.

A música entrou cedo em sua vida, influenciada também pelo canto de sua mãe. Na adolescência, Lee começou a tocar blues e passou a viajar pelos Estados Unidos, absorvendo diferentes tradições sem perder a conexão com o Mississippi que permaneceria como uma espécie de bússola em sua obra.

Nova York e o blues do metrô

Em 1972, Floyd Lee chegou a Nova York e encontrou na cidade um novo território para sua música. Harlem tornou-se sua casa, mas foram as estações do metrô que ajudaram a transformar seu nome em uma referência para quem circulava pela cidade.

Durante décadas, Lee apresentou seu blues em locais como Times Square e Grand Central. Ele esteve entre os primeiros músicos ligados ao programa Music Under New York, iniciativa posteriormente incorporada ao MTA Arts & Design, que levou artistas para os espaços públicos do sistema de transporte nova-iorquino.

Ali estava uma das características mais fascinantes de sua trajetória: enquanto muitos bluesmen precisavam viajar para encontrar um público, Floyd Lee transformou o fluxo diário de milhões de passageiros em seu circuito de shows. Seu palco podia ser uma plataforma de metrô, uma esquina ou uma estação movimentada. Sua voz áspera e sua guitarra elétrica carregavam para o coração de Manhattan a memória musical do Mississippi.

Antes de conseguir viver exclusivamente da música, Lee também trabalhou durante 27 anos como porteiro do Normandy Apartments, no Upper West Side, aposentando-se do emprego em 1996. Depois disso, dedicou-se integralmente à carreira musical.

Um bluesman que chegou tarde ao estúdio

Apesar de décadas de atuação como músico, a carreira fonográfica de Floyd Lee ganhou força somente quando ele já estava na maturidade. Foi uma trajetória incomum: primeiro veio a experiência de rua, depois os discos, as turnês e o reconhecimento internacional.

O encontro com o guitarrista, compositor e produtor Joel Poluck foi decisivo. Poluck tornou-se parceiro musical de Lee e esteve por trás da criação da Amogla Records, selo responsável por registrar uma parte fundamental de sua produção. O baixista Brad Vickers, que participou das gravações de Lee entre 2002 e 2008, confirma a importância dessa parceria e descreve a banda como uma etapa central de sua própria trajetória musical.

O primeiro grande registro foi Mean Blues, gravado em Nova York em agosto e setembro de 2001. O disco reuniu Lee nos vocais, acompanhado por músicos como Zach Zunis, Joel Poluck, George Papageorge, Anthony Kane, George Beckett, Brad Vickers e Michael Fox. Entre suas faixas estavam “Down in Lamar”, “How Low Can You Go?” e “Mean Blues”, esta última uma das canções mais associadas ao artista.

Mean Blues e o encontro entre tradição e cidade

Em Mean Blues, Floyd Lee não procurou modernizar o blues artificialmente. Sua força estava justamente em preservar a aspereza e a espontaneidade de uma música que parecia ter sobrevivido intacta à viagem do Mississippi para Nova York.

Sua voz rouca, a guitarra elétrica e a abordagem direta ajudaram a criar uma sonoridade que conectava o blues do Mississippi ao ambiente urbano de Nova York. “Mean Blues” tornou-se uma de suas composições mais conhecidas e passou a representar bem essa personalidade musical.

O segundo álbum, Ain't Doin' Nothin' Wrong, foi gravado em Brooklyn em agosto de 2002. O repertório incluiu “Ridin' On Empty”, “Red Sun”, “Sometimes I Love You”, “Got Love Now Waitin'”, “Shake Your Moneymaker” e “Can't Stand to See You Go”.

Full Moon Lightnin': o retorno ao Mississippi

Entre os capítulos mais significativos de sua carreira está Full Moon Lightnin', terceiro álbum pela Amogla Records. Gravado em Clarksdale, Mississippi, o trabalho representou um retorno simbólico às raízes de Lee. Uma resenha publicada na época destacou que as gravações foram realizadas no antigo prédio da WROX, utilizando apenas dois microfones, estratégia que conferiu ao registro uma atmosfera deliberadamente crua e próxima das antigas gravações de blues.

O projeto também deu origem ao documentário Full Moon Lightnin', dirigido por John Gardiner. O filme acompanha Lee em uma viagem de volta ao Mississippi, décadas depois de ter deixado a região, em busca de suas origens e de respostas sobre sua própria história familiar. O documentário foi lançado em 2008 e transformou sua trajetória pessoal em uma narrativa cinematográfica sobre memória, abandono, identidade e blues.

O baterista Sam Carr, veterano associado ao blues do Mississippi, participou do projeto e das gravações. O resultado aproximou ainda mais o blues urbano de Lee de suas raízes sulistas.

Da estação de metrô para o mundo

O sucesso dos discos ampliou o alcance de Floyd Lee. O músico passou a excursionar pelos Estados Unidos e também por países da Europa e da Ásia. Sua história, que poderia ter permanecido restrita às plataformas do metrô nova-iorquino, ganhou dimensão internacional.

Lee também participou de projetos audiovisuais e chegou ao universo do Playing For Change. O projeto oficial registra uma apresentação de Floyd Lee em Harlem ao lado de Joel Poluck, Brad Vickers e Mike Fox, destacando justamente sua trajetória como músico de rua que somente começou a gravar e excursionar regularmente em idade avançada.

Outro aspecto importante de sua trajetória foi sua presença em eventos públicos. Em 1990, Lee participou da cerimônia de posse do prefeito de Nova York David Dinkins, ocasião que contou com a presença de Nelson Mandela.

Uma discografia pequena, mas fundamental

A produção fonográfica de Floyd Lee foi relativamente enxuta. Além de Mean Blues e Ain't Doin' Nothin' Wrong, vieram Full Moon Lightnin' e Doctors, Devils & Drugs, todos associados à Amogla Records.

Doctors, Devils & Drugs, lançado em 2008, aprofundou a parceria com sua banda e preservou a mesma estética de blues cru que marcou seus trabalhos anteriores. Entre as músicas estão “Empty Well”, “Bird With A Broken Wing”, “The Counting Song” e “Blues Is a Beautiful Woman”.

Depois de quatro álbuns de estúdio, a Amogla Records reuniu posteriormente parte desse material em The Amogla Sessions. Os dois volumes lançados em 2022 funcionam como uma espécie de mapa da fase mais importante da carreira fonográfica de Floyd Lee.

O legado de Floyd Lee

Floyd Lee morreu em 7 de junho de 2020, vítima de insuficiência cardíaca, em Columbus, Ohio. A Living Blues registrou sua morte aos 86 anos e lembrou a dimensão de sua presença nas ruas de Nova York.

Seu legado, entretanto, não está apenas nos discos. Floyd Lee representa uma das histórias mais particulares da diáspora do blues dentro dos Estados Unidos: um homem nascido no Mississippi, moldado pela vida rural, pela estrada e pelas dificuldades da infância, que encontrou em Nova York um público cotidiano e transformou o metrô em extensão de sua tradição.

Se nomes como Robert Johnson, Muddy Waters e Howlin' Wolf ajudaram a construir diferentes capítulos da linguagem do blues, Floyd Lee mostrou outra possibilidade: levar o blues para onde as pessoas estavam. Sua música não dependia de grandes palcos para existir. Durante décadas, bastaram uma guitarra, uma voz marcada pelo tempo e uma estação de metrô.

Talvez por isso sua história seja tão representativa do gênero. Floyd Lee não precisou abandonar suas raízes para viver em Nova York. Ao contrário: carregou Lamar consigo, transformando memória, experiência e sobrevivência em música. Quando finalmente entrou em estúdio, já trazia consigo aquilo que nenhuma gravação poderia ensinar: décadas de blues vivido.

Floyd Lee nas Amogla Sessions

As duas coletâneas da Amogla Records oferecem uma oportunidade especialmente interessante para revisitar essa fase tardia e vigorosa da carreira do bluesman.

The Amogla Sessions, Vol. 1, lançado em 27 de setembro de 2022, reúne 21 faixas e percorre diferentes momentos das gravações realizadas para a gravadora. Entre os destaques estão “Mean Blues”, “Down in Lamar”, “Full Moon Lightnin'”, “It Hurts Me Too”, “Mean Ol' Frisco Blues” e “Shake Your Money Maker”.

The Amogla Sessions, Vol. 2, lançado em 29 de outubro de 2022, acrescenta outras 18 gravações, incluindo “Am I Tough Enough”, “In Trouble Again”, uma versão alternativa de “Mean Blues”, “Don't Answer the Door”, “The Red Rooster”, “Key to the Highway”, “Pea Patch Blues” e “Forever Falling”.

Ouvir os dois volumes em sequência é mergulhar em uma etapa singular do blues de Floyd Lee: um artista que chegou ao reconhecimento fonográfico quando já carregava uma vida inteira dentro da voz e da guitarra.

Ouça Floyd Lee

The Amogla Sessions, Vol. 1

The Amogla Sessions, Vol. 2

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