Curtis Jones: o pianista texano que levou o blues para a Europa
Curtis Jones: o pianista texano que levou o blues para a Europa
Antes de o blues se tornar uma linguagem internacional, muitos de seus mestres precisaram atravessar estradas, cidades e fronteiras para que suas histórias não desaparecessem. Curtis Jones foi um desses músicos. Nascido em 18 de agosto de 1906, em Naples, Texas, o pianista e cantor construiu uma carreira marcada por um estilo econômico, profundamente pessoal e pela capacidade de transformar experiências de abandono, solidão e desejo em canções de grande força emocional.
Da guitarra ao piano
Filho de uma família de trabalhadores rurais, Jones começou musicalmente pela guitarra. Foi depois de se mudar para Dallas que encontrou no piano seu principal instrumento. Na cidade, entrou em contato com músicos locais e desenvolveu uma maneira própria de tocar, marcada por frases sincopadas e por uma relação muito estreita entre voz e instrumento.
Durante os primeiros anos de sua trajetória profissional, Jones também integrou grupos itinerantes e circulou por diferentes regiões dos Estados Unidos. Em meados dos anos 1930, chegou a Chicago, cidade que naquele momento concentrava uma das cenas de blues mais importantes do país.
Os primeiros discos e “Lonesome Bedroom Blues”
Em 1937, Curtis Jones entrou em estúdio para gravar para a Vocalion. Nos anos seguintes, também registraria músicas para Bluebird e OKeh, construindo um repertório que ajudaria a estabelecer seu nome entre os pianistas de blues da época.
Entre essas gravações estava “Lonesome Bedroom Blues”, uma de suas composições mais conhecidas. A canção, associada a uma crise conjugal, transformava uma experiência íntima em um blues direto e sem ornamentos. A gravação se tornou um dos momentos mais importantes de sua primeira fase profissional.
Outro título fundamental foi “Tin Pan Alley”, composição que posteriormente seria reconhecida como um dos clássicos de seu repertório. A importância da música ultrapassaria a carreira de Jones e ajudaria a perpetuar seu nome entre as gerações seguintes de bluesmen.
A guerra e o longo silêncio
A Segunda Guerra Mundial interrompeu a trajetória fonográfica de Curtis Jones. Depois de uma sequência expressiva de gravações entre 1937 e 1941, ele passou por um longo período praticamente afastado dos estúdios.
Seu retorno aconteceu em 1953, quando o influente disc jockey Al Benson lançou pelo selo Parrot o single “Wrong Blues” / “Cool Playing Blues”, com L. C. McKinley na guitarra. A retomada, entretanto, não significou um retorno imediato ao centro da indústria fonográfica.
“Trouble Blues” e o renascimento de Curtis Jones
Quando Curtis Jones entrou no estúdio de Rudy Van Gelder, em novembro de 1960, sua trajetória parecia pertencer a outra época. O álbum Trouble Blues, lançado pela Bluesville, recolocou o pianista diante de um novo público e marcou o início de uma importante fase tardia de sua carreira.
O disco revela uma característica essencial de Jones: ele nunca precisou sobrecarregar o piano para criar tensão. Seu acompanhamento é enxuto e muitas vezes parece caminhar lado a lado com a voz, reforçando a dimensão confessional das canções. A interpretação nasal e emotiva se tornou uma de suas marcas registradas.
Entre as faixas do álbum estão “Lonesome Bedroom Blues”, “Suicide Blues”, “Trouble Blues”, “Low Down Worried Blues” e “Pinetop Boogie”. Na sessão, Jones contou com músicos como Johnny “Big Moose” Walker, que aparece na guitarra, além de Robert Banks, Leonard Gaskin e Belton Evans.
Do circuito folk de Chicago à Europa
Durante o renascimento do interesse pelo blues tradicional no início dos anos 1960, Curtis Jones encontrou espaço também no circuito folk de Chicago. Em vez de simplesmente reproduzir o passado, porém, ele carregava consigo uma experiência acumulada desde os anos 1930, quando o blues ainda era uma música essencialmente ligada às comunidades negras do Sul e às grandes cidades que receberam seus migrantes.
Em 1962, lançou Lonesome Bedroom Blues, álbum solo que reúne interpretações definitivas de algumas de suas composições mais conhecidas, incluindo a faixa-título e “Tin Pan Alley”. No mesmo período, Jones deixou Chicago definitivamente e passou a viver na Europa.
A mudança seria decisiva para seus últimos anos. Estabelecido no continente, o pianista excursionou por diversos países e participou do circuito europeu de blues, que começava a se tornar cada vez mais importante para músicos afro-americanos que encontravam ali um público interessado na tradição que havia sido parcialmente esquecida nos Estados Unidos.
Entre seus trabalhos europeus está In London, de 1964, lançado pela Decca. Em 1968, gravou Now Resident in Europe, do selo Blue Horizon, em uma sessão que contou com a participação do guitarrista britânico Alexis Korner.
Uma influência que chegou a Bob Dylan
A dimensão de Curtis Jones também pode ser percebida pela maneira como suas composições atravessaram gerações. “Highway 51 Blues”, de seu repertório, apareceu no álbum de estreia de Bob Dylan, lançado em 1962. A presença da música naquele disco ajudou a conectar diretamente o bluesman texano à geração que estava redescobrindo a música tradicional americana.
Um legado maior que os discos
Curtis Jones morreu em 11 de setembro de 1971, em Munique, Alemanha, aos 65 anos. Sua trajetória terminou longe do Texas onde nasceu, depois de uma vida que atravessou o blues rural, Chicago, o renascimento folk e finalmente a cena europeia.
Sua obra talvez seja melhor compreendida não pela quantidade de discos que deixou, mas pela intimidade de sua música. Jones tinha uma maneira particular de transformar o piano em extensão da voz. Em suas melhores gravações, não há excesso: apenas acordes, pausas, uma melodia insistente e a sensação de que o cantor está contando algo que aconteceu de verdade.
Curtis Jones pertence àquela geração de pianistas que ajudou a construir a linguagem do blues moderno sem jamais perder a simplicidade de suas raízes. Seu nome pode não ocupar o mesmo espaço reservado a Muddy Waters, Howlin’ Wolf ou Willie Dixon, mas sua música permanece como um elo importante entre o blues do pré-guerra e a redescoberta internacional do gênero nos anos 1960.
Ouça “Trouble Blues”
O álbum apresentado abaixo é a edição disponível no Spotify de Trouble Blues. Embora o Spotify registre a edição como lançamento de 1993, trata-se de uma reedição do álbum originalmente gravado em 1960 pela Bluesville.


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