Bonnie Lee: a queridinha do blues de Chicago

Bonnie Lee: a queridinha do blues de Chicago



Algumas cantoras parecem ter nascido para ocupar um palco. Outras precisam conquistá-lo pouco a pouco, atravessando clubes, dificuldades e décadas até que sua voz se torne parte da própria história de uma cidade. Bonnie Lee pertence à segunda categoria. Nascida Jessie Lee Frealls, ela construiu em Chicago uma carreira marcada por uma voz poderosa, presença cativante e uma rara capacidade de transformar o blues em conversa íntima com o público.

Conhecida como "The Sweetheart of the Blues", a "queridinha do blues", Bonnie Lee foi uma das vozes femininas mais respeitadas do circuito de blues de Chicago. Sua trajetória esteve profundamente ligada a nomes como Sunnyland Slim e Willie Kent, além de encontros e participações ao lado de importantes músicos da cena blues norte-americana.

De Bunkie, Louisiana, para o blues de Chicago

Bonnie Lee nasceu em 11 de junho de 1931, em Bunkie, Louisiana, e cresceu em Beaumont, Texas. Ainda criança, aprendeu piano e cantava em ambientes ligados à música gospel. A cantora Lillian Glinn chegou a convidá-la para acompanhá-la em uma turnê, mas sua mãe não permitiu que a filha viajasse.

A música, entretanto, já havia encontrado seu caminho. Adolescente, Bonnie Lee excursionou pelo Sul dos Estados Unidos com os Famous Georgia Minstrels. Foi nesse período que cruzou caminhos com artistas que se tornariam referências fundamentais do blues e do rhythm and blues, entre eles Clarence "Gatemouth" Brown e Big Mama Thornton.

Em 1958, ela chegou a Chicago. A cidade ofereceria não apenas uma nova morada, mas o cenário no qual sua identidade artística seria definitivamente construída. Trabalhando inicialmente como cantora e dançarina, Bonnie Lee mergulhou no circuito de clubes da cidade e passou a conviver com alguns dos grandes nomes do blues de Chicago.

Um começo difícil na indústria fonográfica

Em 1960, Bonnie Lee encontrou o produtor J. Mayo Williams, figura importante da história fonográfica do blues de Chicago. Ele a levou para seu selo Ebony, onde ela registrou suas primeiras gravações.

O primeiro single trouxe "Sad and Evil Woman", mas com uma particularidade que a cantora não apreciava: Williams decidiu creditá-la como Bonnie "Bombshell" Lane. O disco não alcançou o sucesso esperado, e Bonnie Lee voltou a concentrar suas energias nas apresentações nos clubes de jazz e blues de Chicago.

O episódio, embora pouco promissor comercialmente, marcou o início de uma longa trajetória. E Bonnie Lee ainda teria de esperar alguns anos para encontrar o ambiente musical que melhor traduziria sua personalidade.

Sunnyland Slim e a porta de entrada para uma nova fase

Um dos encontros decisivos de sua carreira aconteceu em 1967, quando Bonnie Lee apareceu no mesmo programa que o pianista Sunnyland Slim. A parceria se transformou em uma relação profissional duradoura e colocou a cantora em contato ainda mais estreito com o circuito de clubes de Chicago.

Sunnyland Slim também lhe ofereceu espaço para gravar em seu selo Airway Records. Na década de 1970, Bonnie Lee registrou uma série de faixas associadas ao selo, entre elas "Sad and Evil Woman", "Standing on the Corner", "She Got a Thing Goin' On" e "Tryin' to Make a Livin'".

Essa fase ajudou a consolidar uma característica que acompanharia Bonnie Lee até o fim da carreira: ela era uma cantora de palco. Sua força não dependia apenas de gravações, mas da relação direta com o público e da atmosfera dos clubes onde o blues de Chicago continuava vivo noite após noite.

Willie Kent e a consolidação como estrela dos clubes

Depois de enfrentar problemas de saúde e dificuldades pessoais no final dos anos 1970, Bonnie Lee encontrou novo impulso profissional ao lado do baixista Willie Kent. A parceria se estenderia por muitos anos e seria uma das relações mais importantes de sua carreira.

Com Willie Kent and the Gents, Bonnie Lee tornou-se presença constante nos clubes de Chicago. Entre os locais associados à sua trajetória estavam o B.L.U.E.S., além de outros espaços importantes do circuito de blues da cidade. Foi nesse ambiente que seu repertório ganhou algumas de suas interpretações mais lembradas, entre elas "I'm Good" e "Need Your Love So Bad".

Mais do que uma cantora de estúdio, Bonnie Lee se tornou uma instituição do circuito local. Sua voz grande, áspera e emocional se encaixava perfeitamente na tradição do Chicago blues, mas carregava também elementos de soul e gospel que ajudavam a dar personalidade às suas interpretações.

Blues with the Girls: Bonnie Lee ao lado de Zora Young e Big Time Sarah

Em 1982, Bonnie Lee participou de um dos projetos mais interessantes de sua trajetória: Blues with the Girls, ao lado de Zora Young e Big Time Sarah.

As três cantoras viajaram pela Europa e registraram um álbum em Paris. A iniciativa é especialmente significativa porque colocou três importantes vozes femininas do blues de Chicago no centro de um mesmo projeto em uma época em que as oportunidades para mulheres no gênero ainda eram consideravelmente menores.

Há ainda um detalhe revelador: fontes especializadas atribuem à própria Bonnie Lee a ideia inicial dos concertos que deram origem ao projeto Blues with the Girls.

O encontro também mostra como Bonnie Lee estava inserida em uma rede de artistas que ajudou a preservar e renovar o blues de Chicago. Sunnyland Slim, Willie Kent, Zora Young, Big Time Sarah e tantos outros faziam parte de um circuito no qual tradição e renovação caminhavam juntas.

Participação com Magic Slim e John Primer

Bonnie Lee também deixou sua marca em gravações de outros artistas. Em 1992, participou do álbum 44 Blues, de Magic Slim, trabalho que também contou com a participação de John Primer.

A participação reforça a dimensão coletiva de sua carreira. Bonnie Lee nunca esteve isolada de seu ambiente musical. Sua história se confunde com a própria história do blues elétrico de Chicago nas últimas décadas do século XX.



Sweetheart of the Blues: finalmente em primeiro plano

Embora tenha passado décadas sendo uma presença respeitada nos clubes, Bonnie Lee demorou a receber uma oportunidade fonográfica à altura de sua reputação. Isso mudou em 1995, quando a tradicional gravadora de Chicago Delmark Records lançou Sweetheart of the Blues.

O título parecia feito sob medida para a cantora. Não era apenas uma referência carinhosa: traduzia o lugar que Bonnie Lee havia conquistado no circuito de Chicago. O álbum permanece como um dos registros fundamentais para compreender sua voz e sua importância na cena local. A edição aparece catalogada pela Delmark em 1995.

I'm Good: a voz de Bonnie Lee em plena maturidade

Três anos depois, em 1998, veio I'm Good, lançado pela Wolf Records como parte da série Chicago Blues Session. O disco reúne 11 faixas e funciona como um excelente retrato da Bonnie Lee madura, cercada por músicos de primeira linha da cena de Chicago.

Entre os músicos envolvidos nas sessões estão John Primer, Magic Slim, Johnny B. Moore, Willie Kent, Billy Branch e outros nomes ligados à tradição do blues de Chicago. A Rádio Nacional também destacou a presença de Primer, Magic Slim e Billy Branch ao apresentar o álbum ao público brasileiro.

A faixa-título, "I'm Good", tornou-se uma das canções mais associadas a Bonnie Lee. O repertório ainda inclui "Fast Life", "Summer Is Gone", "Sad and Evil Woman", "You Got Me Runnin'", "Tryin' to Make a Livin'", "Got the Blues" e "I Need Someone".

É justamente nessa combinação entre experiência, banda e repertório que I'm Good ganha força. Bonnie Lee canta como quem não precisa mais provar nada. A interpretação é direta, madura e carregada da experiência de quem passou décadas diante de plateias de blues.

Uma voz que pertencia a Chicago

Bonnie Lee não alcançou a fama internacional de algumas contemporâneas. Sua história é diferente. Ela construiu sua reputação essencialmente no palco, nos clubes e na convivência diária com os músicos que mantiveram o blues de Chicago vivo.

Essa característica, porém, é precisamente o que torna sua trajetória tão importante. Bonnie Lee representa uma geração de artistas para quem o blues era menos uma indústria e mais uma forma de vida. Sua voz carregava o peso do gospel, a força do soul e a tradição do blues elétrico urbano.

O crítico e pesquisador David Whiteis, que entrevistou Bonnie Lee para seu trabalho sobre a cena de Chicago, a descreveu como uma das últimas representantes de uma tradição de grandes cantoras de blues à frente de uma banda. A observação ajuda a dimensionar seu lugar histórico.

Os últimos anos e o legado

Bonnie Lee continuou ligada ao blues durante os anos finais de sua vida, apesar dos problemas de saúde que a acompanharam por longo período. Ela morreu em 7 de setembro de 2006, em Chicago, aos 75 anos.

Em 2013, anos depois de sua morte, o Killer Blues Project providenciou uma lápide para Bonnie Lee Murry no Restvale Cemetery, em Alsip, Illinois, ajudando a preservar fisicamente a memória de uma cantora cuja história havia se confundido durante décadas com a própria paisagem musical de Chicago.

Seu legado está também nas gravações, nas participações e, sobretudo, na memória daqueles que a viram cantar. Bonnie Lee foi uma mulher que atravessou diferentes gerações do blues sem abandonar suas raízes. De Bunkie a Beaumont, dos primeiros palcos aos clubes de Chicago, de Sunnyland Slim a Willie Kent, de Sweetheart of the Blues a I'm Good, sua história é a de uma cantora que transformou perseverança em identidade artística.

Talvez por isso o apelido "The Sweetheart of the Blues" seja tão adequado. Bonnie Lee não precisou de grandes holofotes para conquistar seu lugar. Bastava um palco, uma banda e aquela voz. Em Chicago, isso era mais do que suficiente.

Bonnie Lee: principais registros e momentos

  • 1931: nasce Jessie Lee Frealls, em Bunkie, Louisiana.
  • 1958: muda-se para Chicago e adota o nome artístico Bonnie Lee.
  • 1960: grava "Sad and Evil Woman" para o selo Ebony, creditada inicialmente como Bonnie "Bombshell" Lane.
  • 1967: começa a trabalhar com maior proximidade com Sunnyland Slim.
  • Anos 1970: registra diversos títulos para o selo Airway, ligado a Sunnyland Slim.
  • 1982: participa da turnê europeia Blues with the Girls, com Zora Young e Big Time Sarah, e grava o álbum do projeto em Paris.
  • 1992: participa de 44 Blues, de Magic Slim.
  • 1995: lança Sweetheart of the Blues, pela Delmark Records.
  • 1998: lança I'm Good, pela Wolf Records.
  • 2006: morre em Chicago, aos 75 anos.

Ouça Bonnie Lee

O álbum I'm Good é uma das melhores portas de entrada para conhecer Bonnie Lee: uma cantora de voz imponente, profundamente ligada à tradição do Chicago blues e cercada por músicos que ajudaram a escrever essa história.


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