Blues Creation: quando o blues foi de encontro ao peso do rock japonês

Blues Creation: quando o blues foi de encontro ao peso do rock japonês




No final dos anos 1960, enquanto o blues britânico atravessava uma transformação elétrica e o rock começava a descobrir as possibilidades do volume, um grupo de jovens músicos japoneses decidiu olhar para essa revolução a partir de Tóquio. Nascia o Blues Creation, banda liderada pelo guitarrista Kazuo Takeda e uma das formações pioneiras do blues rock japonês.

Formado em 1969, o grupo surgiu em um momento em que o blues ainda ocupava um espaço relativamente restrito na cena musical japonesa. Takeda, então muito jovem, tinha como objetivo tocar blues e ajudou a transformar o Blues Creation em uma das primeiras bandas japonesas a assumir o gênero como ponto de partida para uma identidade própria.

O nascimento do Blues Creation

A história começou em Tóquio, com Kazuo Takeda, o guitarrista Koh Eiryu e o vocalista Fumio Nunoya entre os nomes ligados à formação inicial. A banda rapidamente passou por mudanças de integrantes, mas manteve Takeda como seu principal eixo criativo.

A formação que chegou ao primeiro álbum reunia Kazuo Takeda na guitarra, Fumio Nunoya nos vocais, Yoshiyuki Noji no baixo e Shinichi Tashiro na bateria. O disco, lançado em 1969, recebeu simplesmente o nome de Blues Creation e apresentava interpretações de clássicos associados a nomes fundamentais do blues norte-americano.

O repertório incluía músicas como Spoonful, Smoke Stack Lightnin', Double Crossing Time, Motherless Child, All Your Love e Checkin' Up On My Baby. Mais do que uma simples coleção de covers, o álbum registrava uma banda japonesa absorvendo o blues elétrico e filtrando suas referências através da sonoridade pesada do rock que começava a dominar o fim da década.

Da tradição do blues ao rock pesado

O primeiro Blues Creation ainda estava profundamente ligado ao blues, mas Kazuo Takeda não demoraria a ampliar seus horizontes. O guitarrista acompanhava de perto a transformação que acontecia no rock britânico e americano e, posteriormente, sua música incorporaria elementos de blues rock, psicodelia e hard rock.

Essa mudança ficou especialmente evidente após uma reformulação da banda. Hiromi Osawa assumiu os vocais, Masashi Saeki passou a tocar baixo e Akiyuki Higuchi ficou responsável pela bateria. Com Takeda na guitarra, essa formação conduziu o Blues Creation para uma música muito mais pesada.

Demon & Eleven Children: o disco que mudou tudo

Em 1971, o Blues Creation lançou Demon & Eleven Children, seu segundo álbum e aquele que posteriormente se tornaria sua obra mais cultuada. Diferentemente da estreia, o disco era formado por material original e revelava uma banda já distante da proposta exclusivamente baseada em versões de blues.

As oito faixas percorrem diferentes territórios, mas têm em comum uma guitarra de enorme presença. Atomic Bombs Away, Just I Was Born, Sorrow e a extensa faixa-título mostram o grupo mergulhando em riffs pesados, improvisações e atmosferas psicodélicas.

Ao mesmo tempo, Mississippi Mountain Blues preserva uma conexão mais explícita com a linguagem do blues, funcionando como uma espécie de ponte entre as raízes do grupo e a direção cada vez mais pesada que Takeda imprimia à banda.

O álbum só ganhou seu verdadeiro status de culto décadas depois. Hoje, é frequentemente associado à primeira geração do rock pesado japonês e ao desenvolvimento de uma sonoridade que posteriormente seria reconhecida como proto-metal.



Carmen Maki e uma parceria histórica

O ano de 1971 foi especialmente movimentado para o Blues Creation. Além de Demon & Eleven Children, o grupo gravou o álbum Carmen Maki/Blues Creation, trabalhando com uma das vozes mais importantes do rock japonês.

A parceria colocou o peso instrumental da banda diante de uma interpretação vocal intensa de Maki. O repertório aproximava blues, rock pesado e psicodelia, com destaque para músicas como Understand, Empty Heart, Motherless Child e St. James Infirmary.

A colaboração ajudou a revelar uma característica fundamental daquele momento do rock japonês: a capacidade de absorver a tradição afro-americana e o rock anglo-americano sem simplesmente reproduzi-los. O Blues Creation estava construindo uma linguagem própria a partir dessas referências.

Uma carreira curta, uma influência longa

Apesar da importância que alcançaria posteriormente, a existência do Blues Creation foi relativamente breve. A intensa agenda de apresentações contribuiu para o desgaste dos músicos e a banda encerrou suas atividades em 1972.

Para Kazuo Takeda, entretanto, o fim do Blues Creation estava longe de representar o fim da estrada. O guitarrista seguiu para Londres e posteriormente retornou ao Japão, onde formaria o Creation, novo capítulo de sua trajetória musical.

Com o Creation, Takeda ampliaria ainda mais sua atuação, aproximando-se do hard rock, do soul e de outras vertentes. A banda chegou a trabalhar com Felix Pappalardi, conhecido por seu trabalho com o Mountain e por sua ligação com o Cream, e posteriormente alcançou projeção internacional.

Mas a marca deixada pelo Blues Creation permanece particularmente forte entre os apreciadores do blues rock pesado e do rock psicodélico japonês dos anos 1960 e 1970.

Um elo entre o blues e o proto-metal japonês

O Blues Creation ocupa um lugar curioso na história do rock. Sua estreia nasceu diretamente do blues, mas sua evolução apontou para um território que ainda estava sendo inventado. A guitarra de Kazuo Takeda ajudou a construir uma ponte entre o blues elétrico, o acid rock e o hard rock, antecipando elementos que seriam associados ao proto-metal.

Por isso, ouvir o Blues Creation hoje significa voltar a um período em que fronteiras ainda estavam sendo derrubadas. A banda não abandonou suas raízes; simplesmente aumentou o volume, distorceu a guitarra e permitiu que o blues encontrasse uma nova linguagem no Japão.

O primeiro álbum continua especialmente interessante justamente por documentar o ponto de partida dessa transformação. Ali está o Blues Creation antes de se tornar sinônimo de peso: uma banda jovem, apaixonada pelo blues e determinada a provar que aquela música também poderia florescer do outro lado do mundo.

O álbum Blues Creation

O álbum homônimo de 1969 é, portanto, mais do que a estreia fonográfica do grupo. É um documento de uma época em que jovens músicos japoneses descobriam Muddy Waters, Howlin' Wolf, Willie Dixon e outros mestres do blues através das ondas internacionais do rock e começavam a reinterpretar essa tradição com sua própria personalidade.

Na guitarra de Kazuo Takeda, o blues ganha uma tensão elétrica que aponta para o futuro. É justamente nessa combinação entre reverência e transformação que está o valor histórico do Blues Creation: antes de ser uma banda de rock pesado, foi uma banda que entendeu que o blues poderia viajar, mudar de idioma e ainda conservar sua força.

Ouça o álbum


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Top 10 - Os Blues Mais Regravados de Todos os Tempos

Got My Mojo Working: o poder do Blues na expressão da alma afro-americana

Little Walter: O Gênio da Gaita que Mudou o Blues para Sempre