Bee Houston: o guitarrista texano que levou o blues de San Antonio para Los Angeles

Bee Houston: o guitarrista texano que levou o blues de San Antonio para Los Angeles



Edward Wilson "Bee" Houston nasceu em 19 de abril de 1938, em San Antonio, Texas. Guitarrista, cantor e bandleader, ele pertence àquela geração de músicos que ajudaram a construir as pontes entre o blues texano, o rhythm and blues e a soul music que florescia nos Estados Unidos a partir dos anos 1950.

Sua história musical começou ainda jovem, em San Antonio. Bee e seu irmão gêmeo, Wilson Edward "Bo" Houston, integravam o grupo musical da escola: Bee tocava bugle enquanto Bo ficava na bateria. A guitarra entrou em sua vida quase por acaso. Segundo as memórias de Chris Strachwitz, fundador da Arhoolie Records, Houston juntou US$ 50 com a intenção de comprar um trompete, mas acabou levando um violão.

A escolha mudaria sua vida.

Das bandas de R&B ao blues

Durante a segunda metade dos anos 1950, Bee Houston começou a desenvolver uma identidade própria na guitarra. Seu estilo carregava a tradição do Texas blues, mas também absorvia elementos do rhythm and blues e do gospel-soul. Entre suas primeiras influências estavam guitarristas como Clarence "Gatemouth" Brown, T-Bone Walker, Blues Wallace, Pancho Gonzales e Jewel Simmons. Mais tarde, acrescentaria B.B. King à sua lista de referências.

Seu grupo também passou a atuar como banda de apoio para artistas importantes que excursionavam pelo Sudoeste dos Estados Unidos. Houston acompanhou nomes como Brook Benton, Little Willie John, Junior Parker e Bobby "Blue" Bland. Com Bland, chegou a participar da gravação de "Teach Me How to Love You", lançada pela Duke Records.

Esse período foi decisivo para transformar o jovem guitarrista de San Antonio em um músico profissional habituado aos palcos e às exigências do circuito de R&B.

A mudança para Los Angeles

Em 1961, Bee e sua esposa decidiram deixar o Texas e tentar a sorte na Califórnia. O destino foi Los Angeles, cidade que naquele momento abrigava uma movimentada cena de blues, R&B e soul.

Na Costa Oeste, Houston trabalhou com diversos artistas, entre eles os Simms Twins, McKinley Mitchell e Little Johnny Taylor. Com Taylor, gravou "Gonna Need Another Favor", para a Galaxy Records.

Mas foi ao lado de Big Mama Thornton que seu nome ganhou maior reconhecimento entre os apreciadores do blues. Houston tornou-se um dos guitarristas associados à cantora durante os anos finais de sua carreira e participou de gravações em que sua guitarra funcionava como uma espécie de eixo entre a força vocal de Thornton e o balanço elétrico da banda.

Chris Strachwitz chamou atenção especialmente para o trabalho de Houston em "Ball and Chain". A participação ajudou a colocar o guitarrista no radar do produtor e fundador da Arhoolie Records, que enxergou naquele músico texano uma personalidade artística que merecia ser registrada.

Uma guitarra fora do padrão

Bee Houston não era um guitarrista interessado em perfeição acadêmica. Seu instrumento tinha personalidade própria. As notas de Strachwitz descrevem uma característica curiosa: Houston costumava manter algumas cordas levemente tensionadas durante a afinação, justamente porque empregava muitos bends em sua maneira de tocar.

O resultado era um som irregular no melhor sentido da palavra: áspero, elétrico e profundamente pessoal.

Sua voz também possuía uma textura particular. Em vez de separar cantor e guitarrista em duas funções distintas, Houston fazia os dois papéis dialogarem. O canto carregava a aspereza do blues, enquanto a guitarra respondia com frases curtas, ataques fortes e bends que denunciavam suas raízes texanas.



The Hustler, seu registro definitivo

O grande documento da carreira de Bee Houston é The Hustler, seu único álbum como líder. Originalmente lançado pela Arhoolie Records, o disco foi construído a partir de sessões realizadas entre 1968 e 1970.

As gravações não foram simples. Strachwitz relata que enfrentou dificuldades para manter a guitarra de Houston afinada em sintonia com a banda. Uma das sessões foi supervisionada por Bruce Bromberg, e o material acabou formando o núcleo do álbum.

A edição posteriormente ampliada pela Arhoolie reúne o LP original e gravações de uma sessão anterior que nunca havia sido lançada. São 19 faixas que documentam um artista praticamente impossível de encaixar em uma única categoria: havia blues, R&B, soul, elementos gospel e uma forte personalidade texana.

Entre os destaques estão "You Think I'm Your Good Thing", "Busy Bee", "The Hustler", "Break Away", "Things Gonna Get Better", "Lovesick Man", "Any Time", "When I Go Out", "Blues for Rupez (D Flat Blues)" e "Do It Easy".

"Things Gonna Get Better" é especialmente reveladora. Houston canta e toca guitarra elétrica acompanhado por uma banda que inclui saxofones, trompete, baixo, bateria e backing vocals. O arranjo amplia seu blues para uma linguagem urbana, próxima do R&B e da soul music.

O álbum também guarda uma participação especial de Big Mama Thornton. Em "Woke Up This Morning", ela assume os vocais, enquanto Houston permanece na guitarra. É um pequeno registro de uma parceria importante para compreender a trajetória do músico.



Um músico que preferiu ficar perto de casa

Em 1970, Houston voltou a excursionar com Junior Parker. Mas, ao contrário de muitos músicos que buscavam ampliar continuamente sua carreira pelas estradas, ele preferiu permanecer em Los Angeles, perto da família.

Continuou trabalhando no circuito local de R&B e fazendo apresentações em clubes e festivais. Sua carreira, porém, jamais alcançou a dimensão comercial de alguns dos artistas que acompanhou.

Esse é um dos paradoxos da trajetória de Bee Houston: ele tocou ao lado de nomes importantes, participou de gravações relevantes e deixou um álbum singular, mas permaneceu relativamente desconhecido fora dos círculos especializados.

O fim e o legado

Bee Houston morreu em 1991, em Los Angeles. A documentação da Arhoolie registra o ano, mas utiliza a expressão "aparentemente morreu em 1991", razão pela qual não é seguro afirmar uma data exata sem ressalvas.

Sua morte aconteceu antes da grande retomada do interesse pelo blues que marcaria os anos 1990. Por isso, Houston não teve a oportunidade de assistir à redescoberta de muitos artistas de sua geração.

Seu legado sobrevive principalmente através das gravações. The Hustler permanece como um retrato raro de um guitarrista que carregava San Antonio nas mãos, mas encontrou em Los Angeles o ambiente onde sua mistura de blues texano, R&B e soul pôde amadurecer.

Bee Houston não deixou uma discografia extensa. Deixou algo mais difícil de reproduzir: uma assinatura.

Na sua guitarra há a tradição de T-Bone Walker e Gatemouth Brown, a influência posterior de B.B. King e a experiência de quem passou anos sustentando grandes vozes nos palcos. Mas, acima de tudo, há o som de um músico que encontrou sua própria maneira de fazer o blues falar.

Ouça The Hustler

The Hustler, de Bee Houston and His High Steppers, é o registro essencial para conhecer a obra do guitarrista. O álbum foi originalmente lançado pela Arhoolie Records e posteriormente incorporado ao catálogo da Smithsonian Folkways Recordings.

Bee Houston — The Hustler
Arhoolie Records / Smithsonian Folkways
Gravado entre 1968 e 1970


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