Albert Washington: a voz soul-blues de Cincinnati
Albert Washington: a voz soul-blues de Cincinnati
Nascido em 17 de agosto de 1935, em Rome, Geórgia, Albert Washington construiu sua carreira principalmente em Cincinnati, Ohio, onde se tornou uma presença constante na cena local de blues, soul e rhythm and blues. Morreu em 23 de outubro de 1998, em Columbus, Ohio, aos 63 anos segundo a data de nascimento mais amplamente registrada.
Sua história musical começou muito antes dos discos. Ainda criança, Washington demonstrou fascínio pelo violão do tio. Aos sete anos, segundo relatos biográficos, chegou a construir seu próprio instrumento utilizando uma lata de gasolina e cordas improvisadas. A criatividade que aparecia naquele instrumento rudimentar acompanharia sua trajetória: Washington seria um músico autodidata, cantor e compositor cuja identidade artística nasceu do encontro entre o gospel aprendido na juventude e o blues ouvido nos clubes de Cincinnati.
Do gospel para as noites de Cincinnati
A família Washington mudou-se para Newport, Kentucky, quando Albert ainda era jovem. Aos 16 anos, ele integrou o grupo gospel Gospelaires, ligado às gravações dos selos Duke e Peacock, de Don Robey. Mais tarde, formaria os Washington Singers.
Mas havia outra música chamando sua atenção. Na adolescência, Washington frequentava clandestinamente os clubes de Cincinnati e entrava em contato com artistas como Sam Cooke, Big Maybelle, Charles Brown e Amos Milburn. Entre todas essas influências, porém, B.B. King teria papel especial em sua formação como cantor e guitarrista.
Depois da morte de sua mãe, Washington passou a se dedicar cada vez mais ao blues. No Vet's Inn, em Cincinnati, encontrou uma espécie de segunda casa. Ali trabalhou com uma banda residente durante aproximadamente 16 anos, tornando-se uma das figuras permanentes do circuito musical da cidade.
Os primeiros discos
Em 1962, Washington gravou seu primeiro single para o selo Finch, de Cincinnati. As faixas “You're Gonna Miss Me” e “Ramble” ajudaram a estabelecer seu nome na cena regional e posteriormente foram relançadas pelo selo Bluestown.
Dois anos depois vieram gravações para a VLM, entre elas “Haven't Got a Friend”, composição do próprio Washington. O material chamou atenção também na Inglaterra e ajudou a abrir caminho para um contrato com a Fraternity Records, em 1966.
Foi na Fraternity que sua música encontrou uma de suas formas mais interessantes. Washington combinava uma voz moldada pelo gospel com blues, soul sulista e rhythm and blues, criando um repertório que podia ser sentimental e vigoroso na mesma faixa.
Albert Washington e Lonnie Mack
Um dos capítulos mais importantes dessa fase envolve Lonnie Mack, guitarrista fundamental na história do blues e do rock de Cincinnati. Mack participou de várias gravações de Albert Washington para a Fraternity realizadas em 1969.
A colaboração ganha ainda mais interesse quando se observa o material reunido posteriormente na compilação Blues and Soul Man. Entre as faixas estão “Doggin' Me Around”, “Jealous Woman”, “These Arms of Mine”, “I'm the Man”, “Woman Love”, “Bring It on Up”, “Turn on the Bright Lights”, “Hold Me Baby” e “I'm Gonna Pour Me a Drink”.
O envolvimento de Mack não foi apenas uma participação burocrática de estúdio. Um relato sobre a sessão de “I'm Gonna Pour Me a Drink” descreve como o guitarrista recebeu uma ligação de Harry Carlson, da Fraternity, enquanto dormia. Carlson precisava de uma guitarra para uma música de Washington e o tempo de estúdio estava acabando. Mack foi até o estúdio e gravou sua parte praticamente de imediato.
Essa parceria ajuda a explicar a força de algumas dessas gravações. A voz de Washington trazia o peso emocional do gospel e do soul, enquanto a guitarra de Mack acrescentava uma aspereza bluesística que fazia o material respirar.
“Turn on the Bright Lights” e a conexão com o Grateful Dead
Entre suas gravações mais lembradas está “Turn on the Bright Lights”, lançada originalmente no final dos anos 1960. A música ganhou uma segunda vida quando o Grateful Dead a gravou nos anos 1970.
Outra composição associada diretamente ao nome de Washington é “Wings of a Dove”. A canção sintetiza algumas das características que definem seu trabalho: canto de inspiração gospel, narrativa emocional e uma base bluesística marcada por um riff insistente.
Sad and Lonely: soul, funk e blues
Depois de passagens por diferentes selos, Washington chegou à Eastbound Records. O resultado foi Sad and Lonely, seu primeiro LP e uma das peças centrais de sua discografia.
Lançado em 1973, o álbum foi gravado em Memphis e contou com a participação dos Memphis Horns. O repertório atravessa soul, funk, gospel e blues, mostrando que Washington nunca esteve interessado em respeitar fronteiras rígidas entre gêneros.
“No Matter What the Cost May Be”, “You're Messing Up My Mind”, “Wings of a Dove”, “Sad and Lonely”, “My Mother's Prayer” e “Mischievous” estão entre os destaques de um disco que revela um artista mais próximo do soul-blues do que do blues tradicional em sentido estrito.
As dificuldades pessoais, entretanto, começaram a pesar sobre sua carreira. Complicações decorrentes do diabetes fizeram Washington perder a visão, e sua atividade musical diminuiu consideravelmente entre a segunda metade dos anos 1970 e o início dos anos 1990.
Um retorno tardio, mas vigoroso
Quando muitos artistas de sua geração já estavam definitivamente afastados dos palcos, Washington voltou a gravar.
Em 1993, a Iris Records lançou Step It Up and Go, seu primeiro registro em aproximadamente duas décadas. Gravado em 1992, o álbum apresentou novamente a voz de Washington em um repertório de blues e soul, com participações de músicos como Bruce Katz e Kevin Barry.
O retorno foi mais do que uma simples sessão nostálgica. Washington voltou a circular por clubes e passou a fazer apresentações regionais, especialmente na região de Long Island.
No ano seguinte veio A Brighter Day, lançado em 1994. O álbum recebeu reconhecimento internacional e chegou a ser finalista do Prêmio Big Bill Broonzy de melhor disco de blues da Académie du Jazz naquele ano.
Entre suas faixas estão “A Brighter Day”, “I Just Can't Stay Away from You”, “The Day Before We Were Married”, “I Walked a Long Way” e “Keep on Singing the Blues”, esta última particularmente significativa por seu caráter autobiográfico.
O blues como resistência
Albert Washington morreu em 23 de outubro de 1998, vítima de complicações relacionadas ao diabetes. Mas sua trajetória deixa uma imagem que vai além da discografia.
Washington atravessou o gospel, o soul, o rhythm and blues e o blues sem precisar escolher apenas um deles. Sua música nasceu dessa mistura e, principalmente, de uma voz que carregava a experiência de quem passou boa parte da vida cantando para comunidades locais antes de conquistar reconhecimento fora delas.
Em Cincinnati, ele foi mais do que um cantor que passou pela cidade. Foi parte da própria paisagem musical. O livro Going to Cincinnati: A History of the Blues in the Queen City, de Steven C. Tracy, dedica um capítulo à sua trajetória, reforçando a importância de Washington dentro da história do blues da região.
Talvez seja justamente por isso que suas gravações continuam despertando interesse décadas depois. Albert Washington não deixou uma obra gigantesca. Deixou algo mais difícil de medir: uma ponte entre o gospel que aprendeu, o soul que absorveu, o blues que viveu e a cena de Cincinnati que ajudou a construir.
Ouça Albert Washington
Para conhecer melhor essa fase fundamental de sua carreira, Blues and Soul Man é uma excelente porta de entrada. A compilação reúne gravações da Fraternity e da Jewel e coloca lado a lado a voz de Washington e algumas das participações mais marcantes de Lonnie Mack.


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