Laura Chavez: quando a guitarra encontra sua própria voz
Laura Chavez: quando a guitarra encontra sua própria voz
Ainda tenho o costume de andar pelos corredores da Galeria do Rock, olhar vitrines, conversar com velhos vendedores e sair com um disco na mão, ansioso para chegar em casa e ouvi-lo em alto e bom som. É claro que também não dispenso as listas de lançamentos e as plataformas digitais. O problema é que você vai favoritando um número interminável de álbuns e não consegue ouvir tudo como se deve. Foi o que aconteceu com My Voice, o álbum solo de estreia de Laura Chavez, lançado no início do ano e que agora explode nos falantes com a força de quem não precisa pedir licença.
Uma linguagem construída na estrada
Laura Chavez não é um fenômeno repentino. Nascida na Califórnia, em 1982, sua trajetória foi moldada longe dos atalhos. Ainda jovem, mergulhou na cena local e encontrou na estrada o seu verdadeiro conservatório. Ao lado de Lara Price, passou anos tocando em clubes, bares e festivais — lugares onde o blues não admite truques.
Foi ali que consolidou uma identidade rara: um estilo que equilibra precisão técnica com sentimento bruto, sem cair no exibicionismo. Sua guitarra carrega ecos do Texas blues, a sofisticação de Chicago e uma consciência rítmica que vem do convívio direto com grandes bandas.
O peso das parcerias — e a arte de servir à música
Durante muito tempo, Laura Chavez foi o nome que aparecia nos créditos — e brilhava nos palcos — sem necessariamente ocupar o centro das atenções. E isso diz muito sobre sua grandeza.
Sua colaboração com Candye Kane, iniciada em 2008, foi um divisor de águas. Mais do que guitarrista, Chavez assumiu funções de direção musical e produção, ajudando a moldar discos como Superhero e Sister Vagabond.
Mas seu currículo vai além. Ao longo dos anos, esteve ao lado de artistas fundamentais da cena blues contemporânea, como Deborah Coleman, Dani Wilde, The Mannish Boys, Mike Ledbetter, Monster Mike Welch, Vanessa Collier, Casey Hensley e Whitney Shay.
Em projetos como o premiado Right Place, Right Time, com Mike Ledbetter e Monster Mike Welch, sua presença ajudou a construir um som coletivo que respeita a tradição sem soar preso ao passado.
Laura Chavez sempre soube exatamente onde entrar — e, principalmente, onde não tocar. Esse senso de espaço é o que diferencia músicos bons de músicos essenciais.
Reconhecimento que chega no tempo certo
O reconhecimento formal veio como consequência natural. Em 2023, Chavez venceu o Blues Music Award na categoria Instrumentalist – Guitar, tornando-se a primeira mulher a conquistar o prêmio.
Mais do que um marco simbólico, essa conquista legitima uma carreira construída com consistência, respeito e musicalidade. Antes disso, já havia sido destacada por publicações especializadas como uma das guitarristas mais relevantes de sua geração.
Mas prêmios, no caso de Laura Chavez, parecem apenas confirmar aquilo que quem a ouve já sabe há muito tempo.
“My Voice”: a hora de falar — sem palavras
Em My Voice, lançado em 2026, Chavez finalmente assume o protagonismo — mas à sua maneira. O disco é instrumental, e isso não é ausência: é escolha estética.
Aqui, a guitarra não acompanha — ela narra.
O repertório transita entre composições próprias e releituras, explorando nuances do blues, do soul e do R&B. Há momentos de intensidade elétrica, mas também passagens onde o silêncio pesa tanto quanto as notas.
O que impressiona não é a velocidade ou a técnica — embora ambas estejam lá.
O que prende é a intenção.
Cada frase parece pensada como uma linha de voz. Cada solo carrega uma ideia completa. Não há desperdício. Não há excesso.
É um disco que exige escuta atenta — e recompensa quem aceita esse convite.
My Voice não é apenas um álbum de estreia. É o momento em que Laura Chavez deixa de tocar para os outros — e passa, definitivamente, a falar por si.

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