A.C. Reed: o saxofone irreverente do blues de Chicago
A.C. Reed: o saxofone irreverente do blues de Chicago
Entre guitarras elétricas cortantes e vozes roucas que definiram o blues urbano do pós-guerra, um instrumento encontrou espaço singular na paisagem sonora de Chicago: o saxofone de A.C. Reed. Nascido Aaron Corthen em 9 de maio de 1926, na pequena Wardell, no Missouri, Reed construiu uma carreira longa e singular dentro do blues, marcada por humor, personalidade e uma capacidade rara de dialogar com gerações distintas de músicos.
Durante mais de cinco décadas de atividade, o saxofonista atravessou clubes esfumaçados, turnês internacionais e sessões de gravação ao lado de alguns dos maiores nomes do gênero. Seu estilo combinava um tenor sax vigoroso, vocais ásperos e letras cheias de ironia sobre a vida de músico. E embora tenha passado boa parte da carreira acompanhando outros artistas, Reed deixou registros autorais que revelam um bluesman completo — compositor, instrumentista e contador de histórias.
Das raízes no Missouri ao som urbano de Chicago
A infância de Aaron Corthen foi cercada por música. Criado no sul de Illinois após nascer no Missouri, ele cresceu ouvindo jazz e rhythm and blues nas rádios e jukeboxes da época. Ainda adolescente, decidiu seguir o caminho do saxofone tenor, instrumento que se tornaria sua marca registrada. Durante a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Chicago, cidade que naquele momento se consolidava como o epicentro do Chicago blues elétrico.
Foi ali que Corthen adotou o nome artístico A.C. Reed, inspirado no amigo e também bluesman Jimmy Reed. Nos anos 1940 e 1950, começou a trabalhar como músico de apoio em clubes e gravações, tocando ao lado de artistas como Earl Hooker e Willie Mabon. Esse período foi fundamental para moldar seu estilo: um sax direto, cheio de groove e profundamente conectado ao ritmo do blues urbano.
O saxofonista que acompanhou gigantes do blues
Ao longo das décadas seguintes, Reed tornou-se um dos músicos mais requisitados da cena de Chicago. Nos anos 1960, gravou e tocou com diversos artistas ligados aos selos Chief e Age, participando de sessões de nomes como Lillian Offitt e Ricky Allen. Ao mesmo tempo, lançava seus próprios singles, incluindo o regionalmente popular “This Little Voice”, de 1961.
Em 1967, sua carreira deu um salto importante quando ele entrou para a banda do guitarrista Buddy Guy. Ao lado de Guy e do gaitista Junior Wells, Reed participou de turnês internacionais e chegou a abrir shows para os Rolling Stones em 1970. A experiência consolidou sua reputação como um dos saxofonistas mais sólidos do blues.
Nos anos seguintes, Reed também tocou com Son Seals e integrou a banda do lendário guitarrista Albert Collins, os Icebreakers, participando de gravações e turnês intensas. Sua presença no palco era marcada por energia contagiante, solos robustos e um senso de humor que frequentemente aparecia nas letras de suas músicas. 0
A carreira solo e a afirmação artística
Apesar de ser conhecido como músico de apoio, A.C. Reed demorou para se firmar plenamente como artista solo. Isso começou a mudar nos anos 1980, quando passou a gravar com mais regularidade. Seu primeiro álbum como líder, Take These Blues and Shove ’Em, lançado em 1982, chamou atenção pelo tom irreverente das letras e pela mistura de blues tradicional com comentários sarcásticos sobre a própria indústria musical.
A partir daí, Reed passou a liderar sua própria banda, The Spark Plugs, com a qual percorreu clubes e festivais pelos Estados Unidos e pela Europa. No palco, combinava saxofone expressivo, vocais crus e uma presença cênica que fazia do blues também um espetáculo.
“I'm in the Wrong Business!” — um clássico tardio
O ponto alto dessa fase veio em 1987 com o lançamento de I'm in the Wrong Business!, disco que consolidou sua reputação como líder de banda e compositor. Gravado para a Alligator Records, o álbum trouxe Reed em plena forma, com todas as faixas escritas por ele e um som profundamente enraizado no Chicago blues contemporâneo.
O título do disco, carregado de ironia, reflete um tema recorrente em sua obra: a vida dura do músico. Nas letras, Reed brinca com a ideia de que talvez tivesse escolhido a profissão errada, enquanto demonstra justamente o contrário — um domínio absoluto da linguagem do blues.
O álbum ganhou ainda mais destaque graças às participações especiais de dois gigantes da música americana: Stevie Ray Vaughan e Bonnie Raitt. A presença desses artistas trouxe novas cores às gravações e ajudou a ampliar o alcance do disco, que acabou se tornando um dos trabalhos mais celebrados da carreira de Reed. 1
Os últimos anos e o legado
Durante as décadas de 1980 e 1990, A.C. Reed permaneceu ativo nos palcos, sempre acompanhado pelos Spark Plugs. Mesmo depois de décadas na estrada, mantinha a mesma energia de quando começou a tocar nos clubes de Chicago. Seus shows misturavam blues, soul e humor — uma combinação que conquistava tanto plateias veteranas quanto novos fãs.
Reed continuou gravando e se apresentando até os últimos anos de vida. Em 24 de fevereiro de 2004, morreu em Chicago, vítima de câncer, aos 77 anos. Com sua partida, o blues perdeu não apenas um saxofonista excepcional, mas também um cronista bem-humorado da vida de músico.
Hoje, A.C. Reed é lembrado como um dos grandes saxofonistas do blues de Chicago, um artista que ajudou a conectar gerações — do blues tradicional aos guitarristas modernos que o admiravam. Sua música permanece como testemunho de uma carreira construída com talento, ironia e uma paixão inabalável pelo blues.
Álbum em destaque: I'm in the Wrong Business! (1987)
Lançado em 1987, I'm in the Wrong Business! reúne algumas das composições mais afiadas de A.C. Reed e apresenta o saxofonista em plena maturidade artística. Com participações especiais de Stevie Ray Vaughan e Bonnie Raitt, o disco equilibra humor, crítica à indústria musical e o groove característico do Chicago blues.
Mais do que uma declaração irônica, o álbum prova exatamente o contrário do que seu título sugere: A.C. Reed estava no negócio certo — e sabia exatamente como tocar o blues.


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