Jimmy “Duck” Holmes: o último guardião do blues de Bentonia

Jimmy “Duck” Holmes: o último guardião do blues de Bentonia



Em Bentonia, Mississippi, o blues parece ter escolhido um lugar para permanecer. Ali, em uma pequena cidade do Yazoo County, o Blue Front Café atravessou décadas de transformações sociais, econômicas e musicais e continua sendo uma das mais importantes casas de blues do estado. No centro dessa história está Jimmy “Duck” Holmes, guitarrista, cantor, proprietário do estabelecimento e reconhecido como o último dos grandes praticantes vivos do chamado Bentonia blues.

Jimmy Charles Holmes nasceu em 28 de julho de 1947, em Bentonia, Mississippi. Filho de Carey e Mary Holmes, cresceu praticamente dentro do ambiente que ajudaria a moldar sua vida. Seus pais haviam aberto o Blue Front Café em 1948, inicialmente como um estabelecimento que reunia mercearia, refeições, bebidas, entretenimento e música. O local rapidamente se transformou em ponto de encontro da comunidade negra de Bentonia, especialmente dos trabalhadores ligados às plantações de algodão.

O Blue Front Café e uma história que não terminou

O Blue Front não é apenas o endereço de Jimmy Holmes. É parte de sua própria formação musical. Durante os anos de segregação racial, o estabelecimento funcionava sob as restrições impostas pelas regras locais, mas também servia como espaço de convivência e expressão cultural. A música acontecia de maneira espontânea, muitas vezes sem anúncios ou programação formal.

Por suas portas passaram nomes fundamentais do blues de Bentonia e do Mississippi, entre eles Skip James, Jack Owens, Henry Stuckey, Sonny Boy Williamson II e James “Son” Thomas. Outros músicos locais também encontraram no café um lugar para tocar, mantendo viva uma tradição musical que não dependia de palcos sofisticados ou grandes estruturas.

Quando seu pai morreu, em 1970, Jimmy Holmes assumiu o Blue Front Café. A partir daí, além de administrar o estabelecimento, passou a estimular a presença de músicos como Jack Owens e Bud Spires, transformando o café em um dos mais importantes pontos de preservação do blues tradicional de Bentonia.

Hoje, o Blue Front integra oficialmente a Mississippi Blues Trail e é reconhecido pela própria organização como o mais antigo juke joint sobrevivente do Mississippi. Mais do que uma construção histórica, o lugar continua associado à música e à experiência comunitária que ajudaram a formar o blues rural do estado.

Aprendendo com Henry Stuckey

A formação de Holmes está diretamente ligada à linhagem do Bentonia blues. Ainda jovem, ele teve contato com Henry Stuckey, músico considerado um dos originadores desse estilo particular. Stuckey morava próximo à família Holmes e começou a ensinar alguns dos fundamentos da guitarra a Jimmy quando ele ainda era adolescente.

Holmes também absorveu conhecimentos de outros músicos que frequentavam o Blue Front, entre eles Jack Owens, Bud Spires e Tommy Lee West. Dessa convivência surgiu uma linguagem própria, construída sobre uma tradição que já era antiga quando Holmes começou a tocá-la.

O chamado Bentonia blues possui características que o distinguem de outras vertentes do blues do Mississippi. A utilização de afinações abertas, especialmente em mi menor e ré menor, cria uma sonoridade escura, suspensa e quase hipnótica. Em Holmes, essa linguagem aparece acompanhada por uma maneira econômica de tocar, na qual cada nota parece carregar um peso próprio.

É justamente por preservar essa tradição em sua forma mais direta que Holmes passou a ser descrito como o último dos bluesmen de Bentonia. A própria Assembleia Legislativa do Mississippi reconheceu sua importância em resolução aprovada em 2025, destacando-o como o último músico associado à escola de Bentonia.

Do circuito regional aos discos

Embora tenha tocado e sido registrado ocasionalmente desde as décadas de 1970 e 1980, Holmes demorou a construir uma carreira fonográfica regular. Sua trajetória profissional ganhou novo impulso quando passou a participar do circuito de festivais de blues, incluindo eventos fora do Mississippi. O Bentonia Blues Festival, criado por sua mãe, Mary Holmes, também foi importante para esse processo.

Em 2003, Holmes realizou sessões para Peter Lee, fundador da Fat Possum, que acabaram não sendo lançadas na época. Em 2005, o produtor Jeff Konkel voltou ao Blue Front Café e registrou novas apresentações. O resultado foi Back to Bentonia, lançado em 2006 pela Broke & Hungry Records.

O álbum funcionou como uma espécie de apresentação tardia de Holmes ao mundo. Reunindo standards do blues de Bentonia e composições próprias, o disco recebeu dois Living Blues Awards, nas categorias de melhor álbum de estreia e melhor álbum de blues acústico.

No ano seguinte veio Done Got Tired of Tryin', outro registro fundamental de sua discografia. O álbum recebeu forte atenção da crítica e chegou a ser escolhido entre os dez melhores discos de blues de 2007 pelo programa World Café, além de receber indicação ao Blues Music Award.

As antigas gravações de 2003 finalmente apareceram em Gonna Get Old Someday, lançado pela Fat Possum em 2008. Depois vieram trabalhos como Ain't It Lonesome (2010), All Night Long (2013), Live at Briggs Farm (2016) e It Is What It Is (2016), ampliando uma discografia que revela diferentes lados de sua guitarra, do blues acústico mais austero às incursões elétricas.



Cypress Grove e o encontro com Dan Auerbach

Um novo capítulo surgiu quando Dan Auerbach, guitarrista do The Black Keys, aproximou-se de Holmes. Auerbach produziu Cypress Grove, lançado em 18 de outubro de 2019 pela Easy Eye Sound.

O disco procura transportar para o estúdio a atmosfera do Blue Front Café. Seu repertório inclui “Hard Times”, “Cypress Grove”, “Catfish Blues”, “Goin' Away Baby”, “Rock Me”, “Little Red Rooster”, “Devil Got My Woman”, “All Night Long”, “Gonna Get Old Someday”, “Train Train” e “Two Women”.

O resultado foi especialmente importante porque apresentou a música de Holmes a uma nova geração de ouvintes sem retirar dela sua aspereza. Em vez de tentar modernizar artificialmente o blues de Bentonia, Auerbach construiu ao redor de Holmes uma sonoridade que preserva seu caráter rural, hipnótico e imprevisível.

Cypress Grove recebeu uma indicação ao Grammy de Melhor Álbum de Blues Tradicional, reconhecimento que colocou novamente em evidência um músico que havia passado boa parte da vida mantendo uma tradição regional longe dos holofotes da indústria musical.

“Cypress Grove”, “Devil Got My Woman” e a voz de Bentonia

Entre as gravações associadas a Holmes, “Cypress Grove” ocupa posição especial. A canção pertence ao repertório tradicional de Bentonia e também remete diretamente à tradição de Skip James, cuja música ajudou a definir a identidade sonora da região.

“Devil Got My Woman”, igualmente registrada por Holmes, aproxima seu trabalho de uma das peças emblemáticas do repertório de Skip James. Já “Hard Times” evidencia sua capacidade de transformar uma estrutura aparentemente simples em uma experiência marcada por tensão, repetição e atmosfera.

O que torna Holmes singular não é apenas a fidelidade ao passado. É sua capacidade de fazer essa linguagem soar presente. Seu violão utiliza silêncio, repetição e pequenas variações para criar uma música que parece existir entre a tradição do Delta e uma paisagem sonora muito mais ampla.

O último dos bluesmen de Bentonia

Chamar Jimmy “Duck” Holmes de “último dos bluesmen de Bentonia” não significa apenas reconhecer sua longevidade. É reconhecer uma cadeia de transmissão cultural. Henry Stuckey ensinou uma linguagem que passou por Jack Owens, Skip James e outros músicos da região antes de chegar a Holmes. Durante décadas, o Blue Front Café funcionou como uma espécie de sala de aula informal dessa tradição.

Holmes tornou-se, ao mesmo tempo, músico e guardião de um território musical. O café de sua família preserva o espaço físico; sua guitarra preserva uma maneira particular de compreender o blues.

Em uma época em que grande parte da história do blues sobrevive em gravações antigas, fotografias e documentos, o caso de Jimmy “Duck” Holmes é diferente. Em Bentonia, a história ainda pode ser ouvida. Basta entrar no Blue Front Café.

Jimmy “Duck” Holmes é, portanto, mais do que um bluesman de Bentonia. Ele é um elo vivo entre gerações de músicos, entre a tradição oral e a gravação, entre o blues rural do Mississippi e o público que continua descobrindo sua força. E enquanto as portas do Blue Front Café permanecerem abertas, a história que começou ali em 1948 continuará tendo uma guitarra para contá-la.


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