Meena Cryle: a voz austríaca que encontrou o blues no coração do mundo
Das montanhas da Áustria ao berço do blues
Nascida em 1977, na pequena localidade de Überackern, na Alta Áustria, Meena Cryle — nome artístico de Martina Kreil — cresceu cercada por música. Filha de uma família profundamente ligada às tradições locais, teve seus primeiros contatos com o canto ainda na infância, acompanhando a mãe, a irmã e o avô, que tocava cítara. Desde cedo, ficou claro que sua relação com a música seria mais instintiva do que técnica. Ela começou a cantar praticamente ao mesmo tempo em que aprendeu a falar, absorvendo influências que iam do folk austríaco ao rock psicodélico, estilo de sua primeira banda formada na adolescência.
Mas foi fora de casa que sua identidade artística ganhou contornos definitivos. Após experiências de vida que incluíram viagens pela Europa, Estados Unidos e até trabalho social em Moçambique, Cryle encontrou no blues e no soul o idioma emocional que buscava.
Parceria essencial e afirmação internacional
A história de Meena Cryle não pode ser contada sem mencionar o guitarrista Chris Fillmore. Parceiros musicais desde a juventude, os dois desenvolveram uma conexão criativa rara, comparável a duplas clássicas da música popular. Juntos, formaram o núcleo da Meena Cryle & The Chris Fillmore Band, projeto que rapidamente ultrapassou as fronteiras europeias. A autenticidade do som — uma fusão de blues, southern soul, gospel e rock’n’roll — chamou atenção em palcos internacionais e competições importantes.
O reconhecimento veio com força:
• Vice-campeã do European Blues Challenge (2011)
• Destaque no International Blues Challenge, em Memphis (2013)
• Indicação ao Amadeus Austrian Music Award.
Mais do que prêmios, porém, Cryle conquistou algo mais raro: respeito no circuito global do blues, sustentado por apresentações intensas e uma entrega emocional sem filtros.
Uma voz crua, sem concessões
O que diferencia Meena Cryle é a recusa em suavizar o blues. Sua interpretação é direta, visceral e profundamente honesta, carregando dor, desejo e resistência em cada frase. Críticos e produtores reconhecem essa força. O lendário produtor Jim Gaines, responsável por gravações de nomes como Santana e Stevie Ray Vaughan, definiu Cryle como uma cantora de “alma antiga”, destacando sua intensidade e autenticidade.
No palco, essa característica se transforma em experiência. Seus shows são descritos como catárticos: o público oscila entre euforia e introspecção, como se cada canção abrisse uma ferida — ou a curasse.

Try Me (2010): o início no coração do blues
O ponto de partida dessa trajetória internacional foi o álbum
Try Me, lançado em 2010 pela Ruf Records. Gravado em Stantonville, Tennessee — território simbólico do blues — o disco marcou não apenas a estreia fonográfica de Cryle, mas também sua imersão definitiva na tradição do gênero. Produzido por Jim Gaines, o álbum apresenta uma mistura de composições autorais e releituras, equilibrando respeito às raízes com identidade própria.
A formação que acompanha Meena nesse trabalho reúne:
• Dave Smith (baixo)
• Steve Potts (bateria)
• Rick Steff (teclados)
• Chris Fillmore (guitarra)
O disco também conta com participações especiais de peso no universo do blues contemporâneo, como:
• Joanne Shaw Taylor
• Eric Sardinas
• Coco Montoya
• Erja Lyytinen
• Dona Grants
Entre as faixas, destacam-se as composições próprias que revelam sua identidade artística nascente e a releitura de
“Try Me”, clássico de James Brown, que ganha nova carga emocional em sua interpretação.
Um debut que abriu caminhos
Mais do que um primeiro álbum,
Try Me funciona como manifesto. Ali está a essência de Meena Cryle: uma artista europeia que não apenas interpreta o blues, mas o vive com legitimidade, conectando experiências pessoais a uma tradição musical profundamente enraizada na história americana. Esse debut abriu portas para discos posteriores como
Feel Me (2012),
Tell Me (2014) e o ao vivo
In Concert (2017), consolidando uma carreira sólida e respeitada.
No fim das contas, Meena Cryle prova que o blues não pertence a um território específico — ele pertence a quem sente. E poucos sentem com tanta intensidade quanto ela.
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